Tecnologia e clima mexem com a economia. É o que nos ensinam os laureados do Prémio Nobel deste ano

William D. Nordhaus e Paul Romer venceram o Nobel da Economia. Conheça em detalhe o que valeu a distinção a estes norte-americanos que ligaram clima e tecnologia ao crescimento económico global.

William D. Nordhaus e Paul Romer, os vencedores do Prémio Nobel da Economia em 2018.

São dois trabalhos que parecem não estar relacionados à primeira vista mas que a Academia Sueca garante terem muito a ver um com o outro. Este ano, o economista William D. Nordhaus, da Universidade de Yale, partilha a conceituada distinção do Prémio Nobel da Economia com Paul Romer, economista da Universidade de Nova Iorque e antigo economista-chefe do Banco Mundial, anunciou o júri do prémio esta segunda-feira.

O primeiro, Nordhaus, é reconhecido pelo trabalho concluído em 1994: um modelo de integração global entre a economia e o clima, que relaciona o impacto do crescimento económico nas alterações climáticas e as consequências dos danos provocados pelo aquecimento global na economia mundial. O segundo, Romer, é distinguido pela teoria do crescimento endógeno, publicada em 1990, que permite compreender as raízes económicas do progresso tecnológico.

Qual é a relação entre eles? Para Per Strömberg, chairman do comité que atribui o Nobel da Economia, não existem dúvidas: “Os laureados deste ano deram-nos ferramentas que são cruciais para perceber como a economia interage com a natureza e com o conhecimento e quais políticas ajudam a gerar crescimento sustentado e sustentável a longo prazo”, afirmou, na conferência de imprensa anual de atribuição desta menção. Em suma, como reiterou o júri várias vezes, estes dois economistas elevaram a macroeconomia “a uma escala verdadeiramente global”.

Os trabalhos destes dois economistas podem resumir-se em duas perguntas. Enquanto Nordhaus pergunta “como encarar de forma apropriada as alterações climáticas?”, Romer questiona “como garantir um nível saudável de progresso tecnológico?”. Porém, importa compreender que nenhum dos dois laureados forneceu respostas definitivas às questões. Em vez disso, desenvolveram e forneceram as “ferramentas metodológicas para as começarmos a procurar”. Os dois trabalhos tiveram impacto a dois níveis: serviram de ponto de partida a “enormes” quantidades de investigação subsequente e pintam-se de “imensa relevância prática para a política macroeconómica e global”, explicou Per Krussel, que também é membro da Academia Sueca.

Tanto William D. Nordhaus como Paul Romer já eram apontados desde 2017 como bons candidatos ao Prémio Nobel da Economia (Prémio do Banco da Suécia para as Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel). Mas Richard H. Thaler, da Universidade de Chicago, acabou por ganhar o prémio no ano passado, graças ao seu trabalho na área da “economia comportamental”.

Os laureados deste ano [Nordhaus e Romer] deram-nos ferramentas que são cruciais para perceber como a economia interage com a natureza e com o conhecimento e quais políticas ajudam a gerar crescimento sustentado e sustentável a longo prazo.

Per Strömberg

Chairman do comité do Prémio Nobel da Economia

A relação entre a economia e o clima

Numa altura em que as alterações climáticas são uma das problemáticas mais relevantes para investigadores e líderes globais, a distinção do trabalho de William D. Nordhaus vem dar popularidade e impulsionar um enquadramento económico que não existia. Foi o economista responsável por desenvolver uma metodologia para analisar o impacto da evolução da economia no clima, e o impacto do aquecimento global no crescimento económico. O trabalho viu a luz do dia em 1994.

Como explicou Per Krussel na conferência de imprensa esta segunda-feira,Nordhaus é um firme defensor da implementação de uma taxa sobre as emissões de dióxido de carbono. Na base da ideia está a premissa de que quem negoceia combustíveis fósseis, como o petróleo, deve também pagar os danos provocados na atmosfera pela emissão resultante da queima dessas matérias-primas. Nordhaus foi ainda o primeiro economista a propor um limite no aumento da temperatura média global de dois graus celsius em relação à era pré-industrial.

Em 1975, o norte-americano já escrevia sobre o tema. Num artigo, afirmou que “se as temperaturas globais subissem mais do que dois ou três graus centígrados acima da temperatura média anual, isso levaria o clima para fora dos limites de observação que têm sido registados nas últimas centenas de milhares de anos”. Em 1990, o Instituto de Estocolmo sugeriu que os dois graus celsius acima dos níveis pré-industriais deve ser o máximo aceite pelos decisores políticos. A métrica serviu de base à assinatura do Acordo de Paris em 2015.

No modelo desenvolvido por Nordhaus, conhecido por DICE, a economia é relacionada com o ciclo do carbono. Este, por sua vez, é relacionado com o clima. E o clima acaba por estar relacionado com a economia, numa terceira fase. Em linhas gerais, a economia cresce pela queima de combustíveis fósseis para gerar energia. A queima resulta na emissão de dióxido de carbono para a atmosfera. O ciclo do carbono gera um impacto no clima, provocando alterações climáticas — concretamente, o aquecimento global. Este, em última instância, gera prejuízos para a economia.

Esta forma de analisar as emissões deste gás com efeito de estufa para a atmosfera é vista como tendo grande relevância para a investigação em torno desta problemática e para os decisores políticos, a quem cabe a responsabilidade de desenvolver políticas ambientais e económicas que evitem o aquecimento global e promovam o crescimento económico.

A relação entre a economia e o progresso tecnológico

O trabalho que valeu a Paul Romer este Nobel da Economia também se enquadra na macroeconomia e permite analisar como é que os economistas podem ser capazes de garantir o progresso tecnológico, que acaba por ser um dos motores do crescimento económico a uma escala global.

Em 1990, Romer publicou a teoria do crescimento endógeno, que “deu origem a vasta pesquisa na área da regulação e da política que encorajam novas ideias e prosperidade a longo prazo”. Para explicar o trabalho, o júri focou-se no crescimento médio anual de vários países ao longo de duas décadas, mostrando que existem “enormes fossos” entre o ritmo médio de crescimento neste período. “Isto tem consequências impressionantes no bem-estar humano”, disse Per Krussel, da Academia Sueca.

A teoria de Romer mostrou ainda como o progresso tecnológico, que promove o crescimento económico, se foca em ideias. A teoria clarifica ainda o que são “ideias” e, também, o que são as “ideias” que interessam a um nível de produção para o mercado. Estas têm de ser ideias que possam ser usadas por todos, mas que tenham uma componente de exclusividade, como uma receita de uma qualquer iguaria. Se tiverem total exclusividade, dão origem a monopólios. “Romer incorporou este novo paradigma na teoria do crescimento”, explicou a Academia Sueca.

Em linhas gerais, a complexa teoria do crescimento endógeno “demonstrou como as forças económicas governam a vontade das empresas em produzir novas ideias e inovações”. Isto numa lógica de que é a acumulação de ideias a sustentar o crescimento económico a longo prazo, refere a Academia Sueca, num tweet.

Num comentário enviado ao ECO, Nuno Palma, professor no departamento de economia da Universidade de Manchester, referiu que “estes prémios são ambos merecidos”. “Podem não parecer um par natural, e alguns economistas no meu departamento mostraram alguma surpresa por terem sido dados juntos. Mas, do meu ponto de vista, a escolha faz todo o sentido. A ligação entre os dois é que ambos desenvolveram métodos de estudo do comportamento das economias no longo prazo”, acrescentou.

Nuno Palma concluiu, defendendo que “as implicações para o bem-estar humano que resultam do trabalho tanto de Nordhaus como de Romer são potencialmente muito superiores às da macroeconomia de curto prazo, que é mais mediática”.

(Notícia atualizada às 11h38 com comentário de Nuno Palma à atribuição desta distinção)

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