Depósitos já não são o que eram. Famílias preferem agora dívida do Estado

Por causa do BCE, os portugueses mudaram os seus hábitos de poupança nos últimos anos. Tradicionais depósitos a prazo já não são opção. Cada vez mais o dinheiro está à ordem ou em dívida pública.

No que toca a poupanças, os últimos anos vieram mudar de forma significativa os hábitos e comportamentos das famílias. Colocar o dinheiro nos tradicionais depósitos a prazo há muito que deixou de ser uma opção rentável, sobretudo por causa da ação do Banco Central Europeu (BCE). Cada vez mais os aforradores preferem até deixar o dinheiro “parado” no banco, mesmo que isso signifique perder dinheiro. Na ausência de soluções de investimento atrativas nos bancos, é o Estado quem mais tem captado a atenção (e as poupanças) dos portugueses.

Os dados oficiais comprovam esta mudança nos hábitos de poupança. Desde 2014, os bancos viram desaparecer cerca de dez mil milhões de euros nos seus depósitos a prazo, em virtude das remunerações cada vez mais baixas que estes produtos de poupança de longo prazo oferecem. E tudo por culpa do BCE. A instituição liderada por Mario Draghi tem promovido um ambiente de juros baixos nos últimos anos para reanimar a atividade económica na Zona Euro, deixando os bancos comerciais sem outra opção senão baixar as taxas dos produtos de poupança mais tradicionais para níveis deprimentes e afastando qualquer interessado em poupar por esta via.

Aparentemente, uma parte deste dinheiro tem sido canalizada para os depósitos à ordem, onde o saldo engordou quase 20 mil milhões de euros no mesmo período. Feitas as contas, mais de um terço dos depósitos bancários estão à ordem, correspondendo a cerca de 51 mil milhões de euros (contra os 90 mil milhões depositados a prazo), refletindo também as políticas de captação de clientes mais agressivas dos bancos por via de juros à ordem mais atrativos. Mas compensa?

Para onde vão os depósitos?

Fonte: Banco de Portugal | *dados até agosto 2018

“Pensando numa poupança a curto prazo, a melhor opção será um depósito bancário: o melhor depósito de curto prazo rende 0,9% em termos líquidos”, responde afirmativamente António Ribeiro, economista da Deco.

A melhor taxa do depósito à ordem não deixa de ser ainda assim inferior à inflação (acima de 1%), ou seja, isto significa perda real para o aforrador face à tendência de subida geral dos preços. Mas comparando com os depósitos a prazo, os depósitos à ordem acabam por ser um mal menor. “Os depósitos de longo prazo têm taxas de juro mais baixas do que a curto prazo porque não há sinais de subida dos juros do BCE”, acrescenta o responsável da associação de defesa do consumidor.

O cenário muda de figura quando falamos de um horizonte temporal mais alargado. E aqui os produtos de poupança do Estado têm sido a estrela da companhia que tem guiado os investidores rumo a remunerações, em alguns casos, “astronómicas” — basta ver aquilo que oferecem os primeiros Certificados do Tesouro Poupança Mais (CTPM) emitidos há cinco anos e que estão a dar agora a chegar ao fim da maturidade com uma taxa de 7%.

Não tendo o mesmo risco que os depósitos (estes estão cobertos pelo fundo de garantia de depósitos até 100 mil euros por conta), estes produtos do Estado têm características que se ajustam ao típico perfil de investidor mais conservador — exceção para as Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável (ORTV) que apresentam condições diferentes.

CA+CT+OTRV=36 mil milhões para o Estado

Fonte: IGCP

Segundo os dados do IGCP, os portugueses têm aplicados 36 mil milhões de euros em produtos de dívida pública: sejam certificados de Aforro (11,8 mil milhões), certificados do Tesouro (16,3 mil milhões) e OTRV (oito mil milhões).

Isto significa que cerca de 15% da dívida pública está nas mãos de particulares, que procuram cada vez mais o Estado para aplicar as suas poupanças. Mas mesmo na oferta do lado público cada caso é um caso de investimento e as preferências das famílias também estão a mudar de forma bem visível.

Há dois anos que a subscrição de certificados de Aforro está em queda, por causa da baixa remuneração que se pode extrair deste produto comparativamente a outros aplicações financeiras. Embora os certificados do Tesouro tenham vindo a ganhar maior expressão junto dos aforradores nacionais ultimamente, os atrativos CTPM (substituídos no ano passado pelos Certificados do Tesouro Poupança Crescimento, que dão uma taxa média de 1,35% ao longo dos sete anos de investimento) estão agora a terminar a maturidade e tudo aponta para uma inversão de ciclo com subscrições líquidas negativas.

Aliás, para próximo ano, o Governo prevê que os certificados venham a dar um contributo negativo para o financiamento do Estado em 1.000 milhões de euros, que serão compensados pelas OTRV na mesma dimensão.

Ainda assim, apesar da menor atratividade, a Deco diz que os CTPC “no contexto atual, podem ser uma opção se o seu objetivo é aplicar a longo prazo sem risco”.

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