“Troika fez um trabalho muito imperfeito” na avaliação às rendas da energia

O estudo de Cambridge que conclui que a EDP recebe rendas excessivas baseia-se em "pressupostos técnicos errados", defende o antigo presidente do Conselho Geral de Supervisão da EDP.

A avaliação que a troika fez na altura da assistência financeira a Portugal, que a levou a concluir pela necessidade de rever os contratos celebrados com os produtores de eletricidade, foi baseada em “estudos que a própria União Europeia refuta tecnicamente”, defende Eduardo Catroga. O antigo presidente do Conselho Geral de Supervisão da EDP está a ser ouvido, esta quarta-feira, na comissão parlamentar de inquérito ao pagamento de rendas excessivas aos produtores de eletricidade, onde tem argumentado que esta é uma “falsa questão”, criada “artificialmente” junto de sucessivos governos, troika e mesmo comunicação social, por um grupo com interesses no setor energético.

Eduardo Catroga referia-se ao estudo encomendado pelo Governo de Pedro Passos Coelho à Universidade de Cambridge para avaliar as rendas pagas ao setor elétrico. Este estudo concluiu que a EDP beneficiava, através destes contratos, de taxas de remuneração superiores à média do mercado, mas o ex-governante desvaloriza esta conclusão. “A administração executiva da EDP começou a analisar esse relatório e chegou rapidamente à conclusão de que os pressupostos técnicos estavam incorretos, como, aliás, a União Europeia veio a demonstrar“.

Assim, argumenta, “a troika fez um trabalho muito imperfeito”, já que se “baseou em estudos que a própria União Europeia refuta tecnicamente”.

Catroga argumenta, por isso, que esta “construção artificial” da questão das rendas excessivas foi criada por um “grupo de pressão junto da troika e junto de governos”. O antigo responsável da EDP refere-se a um grupo de várias personalidades que fez queixa, junto da Comissão Europeia, relativamente ao pagamento de rendas aos produtores de eletricidade. “É o grupo que falava de forma depreciativa das energias renováveis. Consideravam-se os Papas da política energética, agarrados ao passado, não virados para o futuro”.

A troika não pôs esse tema no programa de assistência financeira da Irlanda e da Grécia. Se pôs esse tema cá, é porque alguém criou esse tema, conseguiu trazê-lo para a comunicação social e criou uma falsa questão“, concluiu sobre este assunto.

Durante a audição desta quarta-feira, Eduardo Catroga rejeitou também a ideia de “portas giratórias” entre o Governo e a administração de grandes empresas. “Não vejo essas portas e vejo aí uma teoria de portas giratórias que não percebo. As pessoas são escolhidas pelas suas capacidades técnicas e de gestão”, afirma. E acrescenta: “Em 50 anos de vida empresarial, da melhor qualidade que encontrei foi na administração executiva da EDP. São escolhidos pela sua competência”.

Ao mesmo tempo, sublinha, o tempo que passou no Governo foi de “missão cívica”, pelo que não poderia ser inibido de exercer cargos de gestão empresarial. “Não venham dizer que eu sou um boy. Fiz o sacrifício de aceitar missões cívicas. Hesitei em aceitar ir para o Conselho Geral de Supervisão da EDP porque tinha outras responsabilidades. O facto de uma pessoa, em determinado momento, desempenhar uma função cívica não pode inibi-la de aceitar funções nas empresas. Repudio totalmente isso”.

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