Juro de 9,25% pela dívida perpétua do BCP é o preço de mercado?

O BCP pagou 9,25% de juros pela emissão de 400 milhões de euros de dívida perpétua. O ECO fez a Prova dos 9 à afirmação de Miguel Maya.

O BCP tornou-se, esta semana, o primeiro banco da Zona Euro a testar, este ano, o apetite dos investidores por dívida de alto risco. Emitiu 400 milhões de euros com um juro de 9,25% e o CEO do banco, Miguel Maya, afirmou que o custo está em linha com o mercado. O ECO foi fazer a Prova dos 9.

A afirmação

“Não estamos a falar de uma emissão obrigacionista. Estamos a falar de um instrumento que é quase capital, de adicional Tier 1, numa emissão que é perpétua e que conta para o reforço dos capitais próprios do banco. É o preço de mercado”, afirmou Miguel Maya, o presidente executivo do BCP.

Os factos

Apesar de não terem prazo, os títulos emitidos pelo Millennium BCP poderão ser reembolsados no final do prazo de cinco anos, caso o banco o decida. Classificada como Additional Tier 1 (AT1), esta dívida conta para os rácios de capital e é considerada mais arriscada entre os vários tipos de dívida porque é a primeira a enfrentar perdas em caso de problemas no banco que a emite. É por isso, tendencialmente, mais cara para as instituições financeiras.

“A emissão de subordinadas perpétuas do BCP (400 milhões de euros) acabou por apresentar um cupão de 9,25% (durante os primeiros cinco anos, ou seja, até à opção de reembolso antecipado pelo banco), o que representa um valor ligeiramente abaixo das expectativas que existiam no início da operação, permitindo portanto um custo de financiamento ligeiramente inferior para a instituição bancária portuguesa”, explica a Patris Corretora, ao ECO.

“A redução do crédito em incumprimento, melhoria da qualidade do balanço e melhoria da rentabilidade do negócio pelo BCP ao longo dos trimestres anteriores foram também provavelmente importantes para aumentar a confiança dos investidores perante esta nova emissão”, acrescenta.

A procura por obrigações quase duplicou o valor da oferta disponível e o montante das ordens dadas atingiu os 750 milhões de euros. A confiança dos investidores aliou-se ao apetite interno: a seguradora Fidelidade, que é detida pelos chineses da Fosun que são também acionistas maioritários do BCP, comprou 25 milhões de euros em dívida perpétua nesta operação. O antigo CEO e atual chairman do banco, Nuno Amado, também contribuiu com 400 mil euros.

Filipe Silva, diretor da gestão de ativos do Banco Carregosa, aponta igualmente para o momento dos mercados e lembra que “no final do ano passado, e devido às quedas dos mercados, os títulos mais penalizados foram os CoCos e a dívida perpétua, o que fez com que os prémios de risco subissem bastante para quem quisesse emitir dívida, independentemente do rating“.

Acrescenta que o facto de ser uma emissão relativamente pequena à escala global castigou o BCP já que grandes fundos e gestoras de ativos não conseguem participar, o que poderia levar a uma diminuição da taxa paga. Ainda assim, Filipe Silva concorda que o juro ficou “em linha” com o mercado.

O Deutsche Bank, neste momento, tem um prémio de risco superior em CoCos com maturidade em 2026“, sublinhou o diretor de gestão de ativos do Banco Carregosa, em relação a Contingent Convertible Bonds, que também são ativos sem prazo e convertíveis em capital.

A Patris Corretora olha para operações mais próximas, mas chega à mesma conclusão. “O BCP detinha já uma emissão subordinada, emitida em novembro de 2017, com um cupão de 4,5% e que transaciona no mercado secundário a uma yield de 5,0%. Contudo, a emissão de subordinadas perpétuas situa-se numa posição mais próxima do capital social na estrutura de financiamento do BCP, motivo que justifica um cupão mais elevado“, explica.

A comparação poderá também ser feita com a Caixa Geral de Depósitos (CGD), que foi primeiro e até agora único banco a realizar uma emissão deste tipo. A CGD detém uma subordinada perpétua de 500 milhões de euros, que foi colocada em março de 2017 com um cupão de 10,75%. Atualmente, esta emissão negoceia em mercado secundário com uma yield de 9,72%.

A Prova dos 9

Miguel Maya está certo. O mercado está a exigir juros superiores a 9% nas emissões com estas características de risco, como salientam os analistas contactados pelo ECO. “Não podemos esquecer que continuamos num ambiente de taxas de juro baixas na área do euro, pelo que a procura por yield continua a ser elevada. Adicionalmente, o ambiente favorável aos ativos de risco neste início de 2019 representou igualmente o enquadramento adequado para o lançamento desta emissão”, sublinha a Patris.

Avaliadas as emissões comparáveis e tendo em conta o tipo de ativo em questão, o balanço dos analistas é positivo. A operação de financiamento permite ao banco melhorar o rácio de capital Tier 1 e contribui para o reforço dos passivos elegíveis para cumprimento do requisito mínimo para os fundos próprios e passivos elegíveis (MREL).

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António Costa

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