“Alguém vai ganhar dinheiro” com ativos do Novo Banco. Deputados “perplexos” com explicações da comissão de acompanhamento

Explicações de José Rodrigues de Jesus deixaram deputados em sobressalto. Presidente da comissão de acompanhamento da venda do Novo Banco não tinha ideia que situação fosse "tão má".

José Rodrigues de Jesus (à direita) e José Bracinha Vieira, da comissão de acompanhamento da venda do Novo Banco.ECO

Duarte Pacheco, do PSD, referiu-se a “fraude”. Paulo Sá, do PCP, manifestou “perplexidade” e disse estar “mais convencido de que o Novo Banco devia ter sido nacionalizado”. A deputada do CDS Cecília Meireles disse estar “incrédula”. Assim como a deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua.

José Rodrigues de Jesus foi esta terça-feira ao Parlamento porque os deputados queriam saber qual tem sido o trabalho da comissão de acompanhamento da venda do Novo Banco ao Lone Star, acordada em 2017. O banco acabou de pedir mais 1.150 milhões de euros ao Fundo de Resolução, um valor considerado “expressivo” pelo Ministério das Finanças e que vai obrigar o Estado a intervir. Mas o responsável daquele que “devia ser o garante dos interesses dos contribuintes”, nas palavras de Paulo Sá, acabou por deixar ainda mais dúvidas do que certezas aos presentes.

Foram sucessivas e repetidas as perguntas a José Rodrigues de Jesus: “Como é possível saber se o Novo Banco não está a acelerar os prejuízos para aproveitar a garantia do Estado?”; “Como sabemos que o banco não está a registar mais imparidades do que as necessárias?”; “Como sabemos que a comissão de acompanhamento do contrato do Novo Banco está a fazer o seu trabalho e a defender os interesses do Estado?”.

As intervenções de José Rodrigues de Jesus foram sempre vagas e insuficientes (e por vezes atrapalhada). E nas respostas pouco esclarecidas que foi dando, o responsável colocou os deputados em maior sobressalto com alguns apontamentos. Disse José Rodrigues de Jesus: “Alguém vai ganhar dinheiro com isto”. “Há casos muito graves que têm de ser resolvidos com coragem”. “São casos que ainda não se resolveram porque são mediáticos”. “No domínio do possível, pode ser” que o Lone Star esteja a comprar os ativos do Novo Banco. Imparidades a mais? “Costumo questionar os auditores sobre se não haverá imparidades a mais”. “Eu sabia que isto era mau, mas não tinha a ideia de que isto fosse tão mau”.

José Rodrigues de Jesus tentava pouco depois dar maior contexto a estes apontamentos isolados. Em relação à afirmação de que “alguém vai ganhar dinheiro com isto”, explicou que o Novo Banco não tem grande margem para valorizar o que tem no seu balanço, ao contrário dos investidores que compram estes ativos. “Vamos supor que eu tenho uma empresa em dificuldades. Não tenho mais hipótese de gerir, ninguém me financia, o meu banco já não financia. Muitos destes empreendimentos, muitas destas situações só se resolvem quando vem alguém de fora comprar”, contextualizou.

Perante as respostas que foi ouvindo, Duarte Pacheco chegou a sugerir que talvez a comissão de acompanhamento seja “um verbo de encher” e que “comem simplesmente o que dizem as auditorias”, sentindo-se defraudado com o trabalho da comissão que está a monitorizar a venda do Novo Banco. “Temos dúvidas sobre a licitude da fatura do Novo Banco”, disse o deputado social-democrata.

Paulo Sá suspeitou da capacidade da atual comissão de fazer um acompanhamento detalhado da venda do Novo Banco ao fundo norte-americano. “Tem condições para fazer esse acompanhamento?”, questionou o deputado comunista. “Depois desta audição e da audição ao ministro das Finanças, reforçamos o nosso entendimento de que o banco devia ser nacionalizado”, acrescentou.

Para Mariana Mortágua, a comissão de acompanhamento não se pode refugiar nas auditoras para considerar normal aquilo que chamou de “sobreimparização” no Novo Banco. “Para isso temos os relatórios e contas dos bancos, onde estão os pareceres dos auditores”, disse a deputada bloquista.

No final, foi José Bracinha Vieira, vice-presidente da comissão de acompanhamento, a tentar deixar os deputados mais esclarecidos.

Explicou em detalhe os prejuízos do Novo Banco no ano passado e que levou o banco a chamar o Fundo de Resolução para injetar 1.150 milhões de euros. Referiu ainda que as vendas de carteiras de malparado e de imóveis significou que o banco teve de anular créditos por ativos diferidos no valor de 600 milhões, o que teve impacto nos rácios. Detalhou ainda o impacto regulatório, nomeadamente os requisitos de capital do Banco Central Europeu.

Bracinha Vieira mostrou ainda as dificuldades em lidar com muitos créditos, alguns dos quais impactados negativamente pela desvalorização do colateral (deu exemplo de um crédito que tinha ações do BCP como colateral, a exemplo do que também aconteceu na Caixa Geral de Depósitos) ou por credores que perderam dinheiro com a liquidação dos BES e agora se recusam a pagar créditos.

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