Antigos gestores do Goldman desviaram milhões do fundo soberano da Malásia e acabaram banidos da banca

Fundos desviados do 1MDB foram usados em benefício pessoal e para subornar funcionários do Governo na Malásia e Abu Dhabi. Não poderão voltar a trabalhar na indústria bancária.

O fundo de investimento detido pelo Estado da Malásia, o 1Malaysia Development Berhad (1MDB), foi criado há uma década, para atrair investimento estrangeiro para o país. Acabou envolvido num dos maiores escândalos financeiros do mundo, que o levou à insolvência quatro anos e, mais recentemente, a que dois antigos gestores do Goldman Sachs fossem banidos para sempre de trabalhar na banca.

“O conselho da Reserva Federal [dos EUA] anuncia que Tim Leissner e Ng Chong Hwa, também conhecido como Roger Ng, estão banidos do setor bancário pela participação num esquema para desviar ilegalmente milhares de milhões de dólares do fundo soberano da Malásia. Leissner também foi multado em 1,42 milhões de dólares e consentiu com a proibição permanente”, anunciou esta semana o banco central dos EUA.

Uma investigação parlamentar na Malásia identificou, pelo menos, 4,2 mil milhões de dólares em transações irregulares relacionadas com o fundo soberano. Quando o escândalo foi descoberto arrastou consigo o primeiro-ministro Najib Razak, trazendo a público o uso ilícito de fundos pelo partido no poder há 61 anos.

Nas eleições seguintes, realizadas em 2018, o Governo do país mudou de mãos, enquanto Najib foi acusado criminalmente de corrupção. Se o anterior Governo alinhava com o fundo dizendo que todos os negócios eram lícitos, a mudança legislativa levou a novas investidas da justiça.

No total, as várias acusações — incluindo de corrupção, desvio de fundos ou lavagem de dinheiro — foram registadas em 10 países diferentes. O relatório do departamento de justiça dos EUA, a que a Bloomberg teve acesso, indica que mais 4,5 mil milhões de dólares foram desviados do fundo, através de transações opacas e empresas fictícias, com o objetivo de financiar uma rede de corrupção.

O novo primeiro-ministro, Mahathir Mohamad, anunciou que entre os milhares de milhões de dólares que o país tinha a recuperar estavam taxas recebidas pelo Goldman Sachs. A venda de obrigações em três operações, entre 2012 e 2013, terá gerado um encaixe de 6,5 mil milhões de dólares para o 1MDB e rendido ao banco de investimento norte-americano 593 milhões de dólares.

As primeiras acusações criminais contra o Goldman vieram da Malásia, que pediu multas superiores a 3,3 mil milhões de dólares, alegando que o banco deturpou os investidores, levando-os a crer que as receitas da venda dos títulos seria usado para fins legítimos apesar de saber que os fundos seriam desviados. Tim Leissner era o banqueiro responsável pelas emissões e Roger Ng o número dois. O Goldman rejeitou as acusações, mas os gestores discordaram.

“Em agosto de 2018, Leissner declarou-se culpado de acusações criminais interpostas pelo Departamento de Justiça de Nova Iorque por conspirar para a violação da Lei de Práticas de Corrupção no Exterior e para realizar lavagem de dinheiro. Ng foi indiciado em outubro de 2018 por acusações semelhantes”, lembrou a Fed esta semana, confirmando que “os fundos desviados do 1MDB foram usados pelos conspiradores em ‘benefício pessoal e para subornar alguns funcionários do Governo na Malásia e Abu Dhabi”. Não poderão, assim, voltar a trabalhar na banca, enquanto Kuala Lumpur continua a tentar recuperar parte do dinheiro desviado.

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