“Não me recordo de Almerindo Marques ou Tomás Correia terem questionado as políticas de crédito da CGD”, diz Vítor Fernandes

O ex-administrador da Caixa Geral de Depósitos diz que não se lembra de Almerindo Marques ou Tomás Correia terem questionado as políticas de crédito do banco.

O ex-administrador da Caixa Geral de Depósitos (CGD), Vítor Fernandes, diz não ter memória de alguma vez terem sido questionadas, em Conselho de Administração, as políticas de concessão de crédito do banco público. Além disso, diz nunca ter sido qualquer “tensão” nos “poucos” Conselhos de Crédito em que esteve presente. As perdas de quase 2.000 milhões de euros que o banco registou deveram-se, disse Vítor Fernandes, à crise e às falhas de algumas pessoas.

“Não me recordo de Almerindo Marques ou Tomás Correia terem questionado políticas de crédito da CGD”, repetiu várias vezes o ex-administrador do banco público, em mais uma audição na comissão parlamentar de inquérito à recapitalização da CGD, esta quarta-feira. “Quando digo que não me recordo é porque não tenho a certeza absoluta, mas tenho uma grande probabilidade de poder dizer que não me recordo de ter sido discutido ao nível do Conselho de Administração qualquer mal-estar sistemático no que diz respeito à prática e à concessão de crédito na CGD”.

Nunca sentiu qualquer “preocupação em matéria de admissão de crédito”, disse, respondendo que tinha a perceção de que não havia problemas de concessão de crédito no banco público, acrescentando que “nunca houve indicações de relaxar os créditos de risco para crescimento da quota de mercado”.

Vítor Fernandes foi mesmo mais longe e referiu que não se recorda da presença de Almerindo Marques em reuniões do conselho de crédito, razão pela qual diz ter estranhado a carta enviada por este ao ministro das Finanças e governador do Banco de Portugal em 2002. “Foi comentado, mas não se conhecia o teor da carta. A carta até me surpreendeu, porque Almerindo Marques nunca foi a nenhum Conselho de Crédito”.

Questionado diretamente se alguma vez teve noção do que se passava na CGD ao nível da concessão de crédito, o ex-administrador disse apenas: “O número que tenho na cabeça é que a CGD tinha qualquer coisa como 80 mil milhões de euros de créditos. Esses valores são volumosos, mas não sei se representam 1% do crédito da CGD“.

Se hoje se arrepende de ter confiado nos administradores do banco público, depois do relatório da EY ter sido tornado público, Vítor Fernandes preferiu não responder, explicando apenas que “o Conselho de Administração é um grupo de pessoas que tem o objetivo de levar a instituição a um melhor patamar. E a questão de confiar ou não confiar não se põe“.

Confrontado com as declarações do antigo acionista do Grupo Espírito Santo, Patrick Monteiro de Barros, que referiu, em entrevista ao Jornal Económico, que José Sócrates passou da CGD para o BCP os seus “homens de confiança”, Vítor Fernandes defendeu-se, afirmando que nunca esteve em reuniões com o antigo primeiro-ministro. “Se alguma vez me cruzei com ele, terá sido numa inauguração qualquer, mas nem disso me recordo. Por isso, eu ser um homem de confiança de Sócrates, não sei como”.

Sobre o que poderá ter corrido mal para a CGD, Vítor Fernandes culpou, inicialmente, a crise. “Assistimos em 2008, 2009 e 2010 à maior crise do século XXI e, provavelmente, à maior crise após 1930. Essa é a razão para as coisas terem corrido mal. Mas nem tudo correu mal“.

Descontente com esta resposta, o deputado do PCP voltou a fazer a mesma pergunta e, à terceira, obteve uma resposta mais concreta. “Naturalmente não é tudo perfeito. Nenhuma organização é perfeita. Na altura a CGD tinha uma organização de risco em linha com as práticas e com as estruturas de risco dos outros bancos. Não foi por um deficiente modelo de risco e admissão e controlo de risco que as perdas ocorreram. Agora, as políticas são postas em prática por pessoas. E as pessoas, em algumas circunstâncias, falham“.

(Notícia atualizada às 19h11 com mais informação)

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