“Há baixa probabilidade de Itália tentar uma moeda paralela e zero hipótese de sucesso”, diz economista-chefe do UniCredit

Erik Nielsen, economista-chefe do UniCredit, antecipa acordo entre Roma e Bruxelas, apesar da incerteza. Quanto aos mini-BOT, vê a ideia de uma moeda paralela competitiva como "completamente louca".

Hugo Amaral / ECOHugo Amaral/ECO

Itália tem criado stress entre investidores devido aos conflitos com União Europeia. Com o Governo italiano à procura de formas para contornar as regras orçamentais europeias, uma solução em particular — os mini-BOT — lançou preocupação. O economista-chefe do UniCredit, Erik Nielsen, explicou ao ECO considerar que o país não está a tentar avançar com uma moeda paralela e, garante, que mesmo que assim fosse, não teria sucesso.

Mini-BOT significa mini bilhetes do Tesouro (mini bills of Treasury, em inglês) e são ativos que funcionam como uma espécie de certificados de dívidas que entraram em incumprimento (do Estado a fornecedores, por exemplo). São a curto prazo, de baixo valor e podem ser vendidos, trocados ou até mesmo usados para pagar impostos.

“Itália tem 53 mil milhões de euros em dívidas por pagar. É 3% do PIB. É uma vergonha e não devia acontecer, mas a boa notícia é que esse número era o dobro em 2012”, afirmou Erik Nielsen, economista-chefe do banco italiano UniCredit, em entrevista ao ECO. “O Parlamento votou de forma unânime, mas não vinculativa, uma proposta para o Governo pensar nessas dívidas por pagar, limpá-las e eventualmente considerar securitizá-las”.

Nielsen explicou que, caso a medida avance, o Governo cria contratos em que garante que a dívida em incumprimento existe e estabelece tanto um prazo de pagamento como o juro que irá pagar até à data da maturidade. “Não há nada de errado nisso e já foi feito. O problema com os mini-BOT é que houve quem, no passado, emitisse mini-BOT e fez deles uma moeda paralela. É por isso que as pessoas ficam nervosas“, sublinhou o economista.

Foi o caso da Argentina, que emitiu títulos semelhantes no início do milénio e acabou por gerar uma crise monetária. É que os mini-BOT podem ser usados, não só para pagar impostos mas também como pagamento de serviços do Estado. Na situação italiana, o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, já avisou Itália que, ou considera que estes ativos são uma moeda — e então é ilegal –, ou então é dívida — e tem de entrar no stock já elevado de dívida do país (a segunda maior da Zona Euro).

Mas Nielsen considera que a ideia de uma moeda paralela “não é realista” até porque em mercados emergentes onde foram emitidos, os ativos eram tendencialmente trocados por dólares em vez de por produtos ou serviços. “A ideia de que Itália poderia criar uma moeda paralela competitividade é completamente louca. Não vai acontecer. A securitização pode acontecer. Mas uma moeda paralela, há uma probabilidade muito baixa de que sequer tentem e zero possibilidades de sucesso”, sublinhou.

Em outubro do ano passado, a Comissão Europeia tomou a decisão inédita de chumbar o Orçamento do Estado de Itália para 2019. Bruxelas e Roma acabaram por chegar a um acordo orçamental, em dezembro, que evitou maiores conflitos. No entanto, recentemente as tensões voltaram a escalar com a Comissão Europeia a recomendar a abertura de um Procedimento dos Défices Excessivos contra Itália.

Em causa está o elevado nível de dívida pública e os progressos insuficientes dos planos italianos para reduzir o défice estrutural e a dívida pública. O processo poderá, no limite, implicar sanções na ordem dos 0,2% do PIB contra Itália. “A situação cria incerteza. Penso que todos no mercado esperam que se resolva como da última vez. Na realidade, o Governo não tem espaço orçamental e poderá haver negociações, mas irá resolver-se“, acrescentou Erik Nielsen.

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