Draghi acelera mudanças antes da saída. Meta da inflação na mira

Pela primeira vez, Mario Draghi admitiu a possibilidade de rever a meta de preços. Reconheceu que há governadores do banco central que querem deixar inflação ir além de 2%.

Oito anos de mandato de Mario Draghi determinaram mudanças profundas no Banco Central Europeu (BCE). O italiano tomou decisões nunca antes vistas para responder à crise da dívida soberana na Zona Euro e agora, a dois meses de abandonar o cargo, está a lançar as fundações para o que virá a ser a política monetária europeia. Nem a pedra angular do banco central — a meta de inflação — poderá ficar na mesma.

“Há a sensação, no Conselho de Governadores, de que deveria haver uma reflexão sobre a meta [de inflação], se deveria continuar em abaixo, mas próxima de 2% ou se deveríamos mudar para outro objetivo”, afirmou Draghi, esta quinta-feira na conferência de imprensa que se seguiu à reunião de política monetária.

Esta é a primeira vez que Draghi admite esta possibilidade e é uma importante mudança no discurso. A comunicação do BCE é relativamente simples. As frases costumam ser standard e mantidas enquanto o banco central quer manter a mesma mensagem. É por isso que quando muda, é certo que haja uma razão. Foi o que aconteceu esta quinta-feira.

No comunicado emitido no final da reunião, o Conselho de Governadores costuma dizer esperar que as taxas de juro diretoras do BCE se mantenham para assegurar a “convergência sustentada da inflação no sentido de níveis abaixo, mas próximo, de 2% no médio prazo”. Na reunião de junho, tinha sido assim. Mas, esta quinta-feira, mudou, passando para uma “convergência sustentada da inflação no sentido do seu objetivo no médio prazo”.

Segue-se uma declaração lida por Mario Draghi. Aqui, houve três referências em junho à meta de inflação abaixo, mas próxima, de 2%. Desta vez, apenas uma e no final do discurso. A alteração foi notada e Draghi questionado. “Não houve nenhuma mudança. É verdade que apareceu na página quatro, em vez da página um. É apenas o que é“.

“Mas tivemos uma discussão sobre simetria”, clarificou. “Há vários membros do Conselho de Governadores que consideram que deveríamos levar a cabo uma reflexão sobre isso. É uma mudança importante e estamos apenas a pensar nisso. Entretanto, o que é importante é a simetria”, disse Draghi, explicando que grandes desvios (em alta ou em baixa) de 2% não são tolerados.

Mesmo que o resultado não seja tão drástico quanto mudar de 2% para uma outra meta, poderá levar à eliminação do “próximo, mas abaixo” de 2%. Para já, não existe o problema de uma inflação acima da meta — os preços subiram 1,3% em junho em comparação com o mesmo mês do ano passado e têm persistentemente falhado o objetivo do BCE –, mas Draghi poderá estar a precaver o futuro, já com Christine Lagarde ao comando do BCE.

O italiano deverá lançar um mega pacote de estímulos em setembro para serem levados a cabo já depois da sua saída. Enquanto o mercado esperava uma ou outra solução, Draghi anunciou que “nenhum instrumento está excluído”, apontou para a possibilidade de um corte na taxa diretora e referiu que o staff do BCE está a estudar sistemas de mitigação dos efeitos dos juros mais baixos e o relançamento da compra de dívida. E nem a compra de ações está fora do alcance do BCE.

Se agora é a inflação baixa que preocupa, após o lançamento de novos estímulos, a situação poderá inverter. Os juros mais baixos desincentivam a poupança em detrimento do consumo, tal como o financiamento de baixo custo à banca obriga a que que passem a liquidez para as famílias e as empresas, enquanto a compra de dívida permite aos Estados gastarem mais. O objetivo último destas medidas será o de puxar pela economia do euro.

A conjugação destes fatores deverá levar a que a inflação, medida através da comparação dos preços com o ano anterior, acelere. Caso supere os 2% de forma consistente, o mercado poderá começar a ver esse patamar como um sinal de que o BCE iria retirar estímulos e, em última análise, deixará de ver razões para o BCE não subir os juros (para lançar o processo inverso e travar os preços).

Sem esse travão, o mercado terá de ficar à espera do que o BCE disser. E será muito mais sensível ao rumo da economia do que a qualquer efeito temporário nos preços. Assim, o banco central ganha liberdade face às imposições do mandato único (de garantir a estabilidade dos preços), algo que já tem contornado, com todos os estímulos, em nome da defesa da moeda única europeia.

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