Economia alemã está a “parar” e pode afetar Portugal

  • Lusa
  • 25 Agosto 2019

Os economistas contactados pela agência Lusa consideram que existem sinais de que a economia alemã está a "parar", o que pode afetar a zona euro e Portugal.

“Há de facto um risco de recessão na Alemanha. E se for severa propagar-se-á quase de certeza à zona euro e a Portugal”, disse à Lusa João Borges de Assunção, professor da Universidade Católica. O Bundesbank, banco central alemão, alertou esta semana que a economia alemã, a maior da Europa, pode estar a recuar durante os meses de verão, depois da contração já registada no segundo trimestre, aumentando a possibilidade de entrar em recessão.

João Borges de Assunção considera que “a Alemanha tem alguma margem de manobra orçamental e pode estar disponível para fazer mais investimento público no próximo ano”, mas acrescenta que a preocupação com as dívidas italiana, grega e portuguesa, assim como a incerteza política em Espanha, “recomenda prudência na gestão orçamental alemã”.

No mesmo sentido, Pedro Lino, economista e administrador da Dif Broker e da Optimize, disse à Lusa que “existem sinais claros que o principal motor da economia europeia [a alemã] está a parar, com os investidores a esperarem taxas de juro zero ou negativas pelo menos na próxima década”.

No entender do economista, seria a altura certa para a zona euro lançar um programa de infraestruturas, “aproveitando a necessidade de implementação de novas tecnologias, como o 5G [quinta geração] que irá abrir portas para um novo mundo de aplicações”. “O financiamento está a níveis nunca vistos e a única forma de aproveitar é através do investimento produtivo, ou seja, que gera novas oportunidades de crescimento”, referiu Pedro Lino.

Esta semana a emissão de obrigações alemãs a 30 anos com um juro negativo fez manchetes em todo o mundo, depois de a procura ter atingido menos de metade do objetivo. Na prática, o juro negativo significa que o Governo alemão está a ser pago para emprestar a 30 anos.

“Penso que ninguém pode ficar muito confortável ao verificar que princípios básicos das finanças estão a ser desafiados diariamente”, afirmou à Lusa Filipe Garcia, economista da IMF – Informação de Mercados Financeiros.

O economista recordou que há cinco anos que as obrigações alemãs a dois anos estão com taxas negativas. Por isso, “já não se pode dizer que estamos perante apenas uma situação transitória”, defendeu.

“É um pouco como se a lei da gravidade deixasse de funcionar de repente e ficássemos sem saber como agir porque toda uma tecnologia assente nos efeitos da gravidade (praticamente toda a que existe) deixa de funcionar”, frisou Filipe Garcia, acrescentando que, “em finanças, ter as taxas de juro negativas de forma estrutural obriga a repensar praticamente tudo”.

O economista salientou ainda que “ter as taxas de juro de longo prazo muito baixas pode implicar receios de uma recessão” e explicou que as taxas de juro estão em “níveis incríveis” por duas razões: por um lado, pelo excesso de liquidez no mercado financeiro e falta de alternativas para investimento, e, por outro, pela expectativa de mais estímulos monetários que poderão ajudar a subir ainda mais os preços das obrigações. “Nesse sentido, é também um motivo para estar preocupado”, concluiu.

Na quinta-feira foram divulgadas as atas da última reunião de política monetária do Banco Central Europeu (BCE), em 25 de julho, que revelaram que a instituição debateu um pacote de medidas para estimular a economia, ponderando a combinação de descidas das taxas de juro e a compra de ativos.

Pedro Lino antecipou à Lusa que “o BCE deverá apresentar em setembro mais um plano de apoio, nomeadamente garantindo que os juros permanecem baixos e dando ainda mais liquidez à economia da zona euro”.

Contudo, o economista alertou que só haverá “resultados expressivos no crescimento económico se ambas as políticas orçamental e monetária estiverem alinhadas, caso contrário o BCE permanecerá o bombeiro de serviço”.

Relativamente à economia norte-americana, João Borges de Assunção afirmou que “os riscos de recessão nos Estados Unidos parecem ser baixos, por enquanto”, apesar de considerar que o facto de as taxas de juro nos prazos mais longos terem baixado muito e terem estado pontualmente abaixo das taxas nos prazos mais curtos, “é um sinal negativo e preocupante”.

O professor da Católica considera que “a governação económica mundial ficou ‘decapitada’ com o comportamento do atual Presidente norte-americano”, o que torna a resolução dos problemas económicos mundiais “mais complexa”.

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