Draghi lança bazuca aos falcões. Responde a Trump e deixa recado à Alemanha

Mario Draghi anunciou o reforço de estímulos monetários para puxar pela economia da Zona Euro. Pelo caminho desvalorizou efeitos sobre a banca, chamou os países a agirem e respondeu a Trump.

A menos de um mês de entregar a “chave da porta” do Banco Central Europeu (BCE) a Christine Lagarde, Mario Draghi ergueu em punho a bazuca contra os falcões, com o reforço e a recuperação de estímulos monetários. Da reunião do Conselho de Governadores desta quinta-feira resultou a descida da taxa de depósito para terreno ainda mais negativo, bem como o regresso do programa de compra de ativos. As medidas vão em linha com o esperado pelo mercado, mas Mario Draghi surpreendeu com uma resposta a Trump, uma mensagem à banca e um recado à Alemanha.

O resultado daquela que é a penúltima reunião do BCE sob os comandos de Mario Draghi salda-se pela manutenção da taxa de juro diretora da Zona Euro nos 0% e no corte da taxa de depósito para um valor ainda mais negativo, de -0,5%, mas criando dois escalões para mitigar o impactos nos bancos.

“As taxas negativas têm sido uma experiência muito positiva em termos de sustentabilidade e estímulo do crescimento, e de sustentação da inflação”, esclareceu Draghi, não deixando de referir os “efeitos colaterais” e os “efeitos pelo lado negativo”. “Não diria que taxas negativas possam provocar o colapso do sistema financeiro“, atirou.

Simultaneamente, foi aprovada uma nova ronda de compra de títulos de dívida pública e privada da Zona Euro, no valor de 20 mil milhões de euros por mês, a partir de novembro, e “enquanto for necessário”.

Draghi assumiu que a decisão sobre as taxas de juro teve um “acordo alargado”, mas que no que respeita ao programa de compra de ativos, houve uma maior “diversidade” de posições entre diferentes governadores.

Após o BCE ter anunciado uma nova ronda de estímulos, os mercados reagiram. Enquanto os juros da dívida dos governos foram ao fundo, assim como a moeda única, que tocou mínimos de dois ano, os mercados acionistas observaram minutos de algum entusiasmo em torno dos bancos, que depressa inverteram para terreno negativo.

A decisão do BCE insere-se num contexto em que novas previsões económicas do BCE e as notícias que Draghi recebeu do staff técnico não são positivas (o que terá levado a agir de uma forma mais incisiva). A Zona Euro vai crescer menos este ano e no próximo face ao que era expectável. Assim como a inflação, que vai continuar afastada da meta do banco central.

Em relação ao PIB, o BCE vê a economia crescer 1,1% este ano, quando a anterior previsão apontava para uma expansão de 1,2%. No próximo ano, a Zona Euro já só deverá crescer 1,2% (em vez de 1,4%, como se estimava inicialmente). A projeção para 2021 mantém-se como estava: PIB cresce 1,4%.

No que diz respeito à evolução da inflação, o BCE tem por missão garantir a estabilidade dos preços: isto é, inflação perto, mas abaixo de 2%. As novas projeções do BCE afastam-se ainda mais desta meta: preços crescem apenas 1,2% este ano e no próximo a taxa de inflação fica apenas nos 1%. Em 2021, apesar de os preços recuperarem, a taxa continuará longe: 1,5%.

Perante esse cenário, Mario Draghi não hesitou em usar a bazuca, mas não sem enviar recados aos Estados-Membros da Zona Euro, possivelmente com a Alemanha na “mira”. Durante a conferência de imprensa, salientou que “os países com margem orçamental devem agir“. De salientar que a Alemanha anunciou recentemente um défice de 0%. O presidente o BCE a esse propósito disse ainda que no Conselho de Governadores houve “unanimidade” em determinar que a política orçamental era um “instrumento principal”.

Transmitida essa mensagem, Draghi também não se fez rogado em responder a Donald Trump. Num tweet publicado já após conhecido o novo pacote de estímulos, o presidente dos EUA “aplaudiu” a atuação rápida do BCE em baixar a taxa de depósitos, e a bem sucedida tentativa de travar a “depreciação do euro contra o muito forte dólar”.

“Temos um mandato. Procuramos a estabilidade de preços e não temos como alvo as taxas de câmbio. Ponto.“, foi a forma como Draghi optou por responder a Donald Trump.

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