Portugal pode ser pioneiro na robótica e automação florestal

  • Filipe S. Fernandes
  • 16 Setembro 2019

Na floresta ainda não existem grandes exemplos de robotização e automação. Por isso, projetos como o Biotecfor podem ajudar Portugal a destacar-se.

Fazer robôs florestais já não é apenas uma ideia ou uma experiência de laboratório, como mostram os resultados do Biotecfor. Como explica Filipe Neves Santos, investigador da INESCTEC e responsável pelo projeto, “são essencialmente protótipos de robôs, ferramentas, bio compósitos e de software que poderão ser explorados por empresas portuguesas e espanholas nos próximos anos. Este projeto publicará em breve um roteiro de desenvolvimento tecnológico que poderá ser utilizado pelas empresas fabricantes de alfaias e máquinas como guião para inovar os seus produtos”.

O Biotecfor nasceu de uma necessidade de criar e desenvolver novas máquinas florestais inteligentes (robôs), que fossem mais adaptadas à realidade e às necessidades da floresta portuguesa e espanhola, para desenvolver e inovar nos processos de recolha e processamento dos recursos florestais, desde sobrantes da exploração florestal até à limpeza e seleção de varas.

Este é um projeto Interreg-POCTEP, que envolve parceiros do norte de Portugal e Galiza, e é liderado pela FORESTIS com os seguintes parceiros INESC TEC, Associação Florestal da Galiza e CTAG. “Tem progredido de forma muito satisfatória e atingido os objetivos inicialmente previstos, muito devido à complementaridade, experiência e dimensão dos parceiros envolvidos”, refere Filipe Neves Santos.

Em complementaridade, o projeto passa ainda — como explica Filipe Neves Santos — “pelo desenvolvimento de software de planeamento logístico, integrando diferentes escalas desde o proprietário florestal até ao consumidor da biomassa e da promoção e desenvolvimento de novos materiais de base florestal para aplicação em novos contexto e de valor acrescentado”, e que se substanciam em mais dois projetos dos INESC TEC e que são GOTECFOR – Tecnologia para a mobilização e aproveitamento de Biomassa Florestal na agroindústria, e o Easyflow – Operações logísticas eficientes e colaborativas para maior sustentabilidade das cadeias de abastecimento florestais.

Robôs, software e logística

Em termos práticos já existe um protótipo de um robô florestal com capacidade para automatizar a maioria das tarefas manuais florestais com elevada precisão e eficiência, e que reduz o esforço humano e aumenta a capacidade de intervenção/gestão na floresta.

Ao mesmo tempo, foi desenvolvido um protótipo de um software para planeamento logístico que poderá ser utilizado de forma comunitária e com capacidade para tornar mais eficiente a coordenação dos processos/máquinas florestais.

Por sua vez, os materiais bio compósitos para incorporação em componentes dos carros, com capacidade para valorizar 10 vezes o valor atual dos sobrantes florestais e de dar novas aplicações a material tipicamente queimado na floresta.

O investigador explica que a robotização e da automação na produção e gestão florestal é mais desafiante em comparação com outros contextos como a indústria, os transportes (carros autónomos) ou mesmo a agricultura, por causa “da complexidade do cenário, acidentado, uma ampla vegetação, ambientes complexos, não estruturado, que tornam o desenvolvimento de soluções, do ponto de vista robótico, muito complexo”, diz Filipe Neves Santos.

Há pois um caminho íngreme a fazer na robótica e automação da floresta, à semelhança das florestas que, por norma, ocupam os terrenos mais difíceis e inóspitos. “O desenvolvimento de soluções robóticas e alfaias para contexto florestal é sempre desafiante. Mas sem dúvida garantir a segurança de uma máquina que pesa uma tonelada é, sem dúvida, a maior dificuldade na qual continuamos a trabalhar”, garante Filipe Neves Santos.

Ao contrário da agricultura, onde a tecnologia GPS têm permitido automatizar tratores e alfaias, como explica Filipe Neves Santos, “a floresta exige soluções de localização e segurança muito avançadas que ainda se encontram num estado de maturidade moderadamente baixo. Pelo que não conseguimos ainda falar de grandes exemplos de robotização e da automação na floresta, e aqui Portugal poderá destacar-se no futuro”.

O investigador-empreendedor

Filipe Neves dos Santos é doutorado em engenharia eletrotécnica e computadores (2014) pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), e tem mestrado em engenharia eletrotécnica e computadores – automação e robótica, efeito em 2007. A esta sua formação em engenharia, que incidiu na especialização em fusão sensorial e GPS/GNSS, mapeamento e localização semântica, junta-se a sua experiência profissional.

Durante quatro anos foi empreendedor (startup tecnológica), participou e coordenou projetos de investigação na área da robótica durante mais de doze anos. A somar a tudo isto teve cinco anos de experiência em tarefas de contabilidade e gestão (empresa familiar), e seis anos como técnico de eletrónica. Estas competências “forneceram o saber-saber e saber-fazer para que possa contribuir para o sucesso do futuro da robótica agrícola”, concluiu Filipe Neves dos Santos.

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