Tendas, fruta e medicamentos. Universitários portugueses inventam novos negócios

  • Fátima Castro
  • 16 Outubro 2019

Uma tenda para refugiados que converte humidade em água potável. Esta é uma das quatro ideias que venceram o prémio que distingue as melhores ideias de negócio provenientes do Ensino Superior.

Um sistema de abrigo transportável que “promete” revolucionar a vida dos refugiados e deslocados internos. Uma tecnologia que visa reutilizar o desperdício da fruta. Um composto que poderá tornar-se um medicamento inovador para a osteoartrose. E uma plataforma online que irá capacitar jovens dos 15 aos 30 anos no desenvolvimento das soft skills.

Estes foram os quatro projetos vencedores da edição 2019 do concurso de ideias Born from Knowledge (BfK Ideas). Uma iniciativa da Agência Nacional de Inovação (ANI), cofinanciada pelo Compete 2020 através do Portugal 2020 e do FEDER, que visa distinguir as melhores ideias de negócio provenientes de Instituições de Ensino Superior portuguesas.

O projeto Nautilus nasce na dissertação de mestrado da Cátia Bailão Silva, da Universidade de Évora, orientado pela professora Inês Secca Ruivo, que desenvolveu a componente tecnológica da solução.Nautilus

O Nautilus é uma solução biónica e surge de um problema humanitário global, a questão dos refugiados e deslocados internos. É um sistema de abrigo transportável com capacidade para quatro a seis pessoas. Pretende mudar a vida de cerca de 70,8 milhões de deslocados que existem atualmente no mundo.

Esta tenda gera água potável devido à incorporação de um novo tecido com propriedades hidrofílicas e hidrofóbicas que permite converte o nevoeiro / humidade em água de ingestão segura.

A tenda disponibiliza um sistema bicolor reversível que permite a identificação aérea de eventuais grupos de risco e tem a característica de ser montada e desmontada facilmente, em apenas cinco minutos, devido ao sistema rotativo no topo da tenda.

“Sentimos a necessidade de melhorar os sistemas de abrigo existentes”, explica ao ECO Inês Secca Ruivo, professora da Universidade de Évora e orientadora do projeto de investigação Nautilus. Foi Inês Secca Ruivo que desenvolveu a componente tecnológica da solução, que já está em processo de patente desde 2017. A professora da Universidade de Évora estima que a tenda Nautilus esteja pronta a ser distribuída em 2022.

Composto que poderá tornar-se um medicamento inovador para a osteoartrose

O ProtexAging é um composto com propriedades físico-químicas e farmacológicas que tem como objetivo impedir a destruição das articulações e dar solução a uma doença que afeta milhões de pessoas e para a qual ainda não existe cura, a osteoartrose.

É um projeto desenvolvido por investigadores da Faculdade de Farmácia e do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra, da autoria dos estudantes Cátia Sousa, Gonçalo Mendes e dos professores universitários Alexandrina Mendes e Alcino Leitão.

“O nosso objetivo é desenvolver este composto num medicamento inovador para combater a osteoartrose. Identificámos um composto químico que tem um mecanismo de ação inovador e potencial para tratar e impedir a destruição das articulações, doenças artríticas, particularmente no combate à osteoartrose”, explica Alexandrina Mendes, professora da Universidade de Coimbra e mentora do ProtexAging.

O grupo de investigadores já testou o composto em outros modelos celulares como a doença de Parkinson. “Os resultados são muito encorajadores, vamos continuar a testar em outros modelos pois acreditamos que tem potencial para aplicar em outras doenças”, refere com orgulho Alexandrina Mendes.

Cátia Sousa, estudante de doutoramento da faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra e os professores Alexandrina Mendes e Alcino Leitão, autores do projeto ProtexAging.Ana Zagalo

“O próximo passo é fazer ensaios em animais para confirmarmos aquilo que observamos nos modelos celulares”, destaca Alexandrina Mendes.

Tecnologia capaz de transformar o desperdício da fruta e gerar novos produtos

O AgroGrin Tech é uma solução patenteada que visa tratar os resíduos resultantes das indústrias alimentares, gerando novos produtos alimentares. Em 2017 foram desperdiçadas cerca de 500 mil toneladas de resíduos de fruta.

O processo engloba uma tecnologia que permite a separação de ingredientes específicos e naturais dos resíduos de frutas. As vendas desses ingredientes têm alto valor de mercado, gerando novos fluxos de receita, permitindo às indústrias a reintrodução de perdas económicas pela valorização dos resíduos gerados pelo processamento de matérias-primas primárias.

O AgroGrin Tech, surge da tese de doutoramento da Débora Campos da Universidade Católica Portuguesa, em conjunto com Ana Vilas Boas, Ricardo Gomes, Pedro Castro e Ezequiel Resqueta.

“O nosso target são as indústrias de processamento de frutas. Oferecemos uma solução económica, verde e sustentável para tratar os resíduos e gerar novos produtos”, explica Ana Vilas Boas, estudante da Universidade Católica Portuguesa.

Ana Vilas Boas dá o exemplo de um caso de estudo. Na Nuvifruits são desperdiçados 385 toneladas de fruta, através do processo extrativo do AgroGrin Tech é possível reutilizar os desperdícios da fruta o que poderia dar um retorno à empresa de um milhão de euros.

Ana Vilas Boas e Ricardo Gomes, dois dos autores do projeto AgroGrin Tech.Ana Zagalo

O próximo passo é avançar com o projeto piloto e implementar esta tecnologia a nível industrial.

Uma plataforma online focada em soft skills

O BackBone será uma plataforma online que irá capacitar jovens dos 15 aos 30 anos através de iniciativas coletivas de aprendizagem experimental com foco nas soft skills e nas competências transversais.

O BackBone vai disponibilizar experiências cocriadas, eventos, masterclasses, team building, mentoria, dirigidos a indivíduos ou empresas, que visa contribuir para a criação de uma comunidade de jovens com ideias semelhantes de forma a reforçar as competências pessoais e a atratividade dos seus membros no mercado de trabalho.

Rafael Reis, Sérgio Figueiredo e a professora Ana Gonçalves, da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril (ESHTE), são os criadores do projeto BackBone.

“Teremos serviços a empresas que queiram desenvolver uma aprendizagem contínua dos seus colaboradores e desenvolver aquilo que é a sua produtividade. Vamos desenvolver experiências baseadas nas soft skills, nomeadamente, masterclasses, sessões de mentoria, team building, entre outras”, explica Ana Gonçalves ao ECO.

Rafael Reis, Sérgio Figueiredo e a professora Ana Gonçalves, autores do projeto BackBone.Ana Zagalo

Nautilus, ProtexAging, AgroGrin Tech e BackBone foram os quatro projetos vencedores da edição 2019 do concurso BfK Ideas que contou com 30 participantes. Os premiados terão acesso direto ao programa de aceleração de Ciência e Tecnologia (BfK Rise), durante três meses.

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