80% do que é produzido no cluster da moda vem da Ásia. Têxtil, vestuário e calçado preocupados

80% da produção do cluster da moda provém da Ásia e entra na Europa sem qualquer taxa aduaneira. Representantes do setor têxtil, vestuário e calçado estão preocupados e falam de concorrência desleal.

A Europa abriu portas ao mercado asiático e esta abertura está a causar problemas, principalmente no setor do calçado, vestuário, têxtil e curtumes. Cerca de 80% do que é produzido no cluster da moda provem de países asiáticos como Vietname, Bangladesh ou Paquistão. O facto de a Europa ter aberto a porta a estes mercados está a “provocar uma concorrência desleal”, queixam-se os profissionais do setor.

“Não é sustentável que mais de 80% da produção de alguns produtos do setor têxtil, vestuário e calçado sejam produzidos num único continente — o asiático”, sublinhou ao ECO, Paulo Gonçalves, diretor de comunicação da Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos (Apiccaps), à margem da campanha “Open your mind”, uma iniciativa da Comissão Europeia que tem como objetivo atrair jovens para setor têxtil, vestuário, calçado e curtumes.

“A sustentabilidade é a produção local e defendemos esse conceito. As raízes da moda estão baseadas na Europa. Não devemos perder esse património”, destaca Paulo Gonçalves.

As políticas que estão a ser implementadas na Europa são para assassinar estes setores tradicionais.

César Araújo

Presidente da Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confeção (Anivec)

O presidente da Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confeção (Anivec), César Araújo corrobora a ideia e acrescenta que “a produção que vem da Ásia entra na Europa sem pagar qualquer taxa aduaneira e isso é uma concorrência desleal para os produtos europeus”. “Esses produtos têm de ser regulados, não podem entrar com taxa zero”, defende, em declarações ao ECO.

“Está a ser criada na Europa uma concorrência desleal, feroz, sem regrase sem regulação, o que acaba por se tornar num mercado selvagem”, frisa o empresário têxtil. “Se a Europa não quer estes setores tem de ter a coragem de o dizer”, desafia. “As políticas que estão a ser implementadas na Europa são para assassinar estes setores tradicionais. Todos estes fatores não estimulam a criação de emprego e a dinamização destes setores”, lamenta César Araújo.

“A Comissão Europeia entusiasmou a divisão internacional do trabalho, ou seja, a produção fica nos países emergentes, o consumo e a distribuição nos países desenvolvidos”, salienta o diretor geral da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), Paulo Vaz.

Acrescenta ainda que é fundamental eliminar a pegada carbónica e produzir na Europa. “Se queremos uma indústria sustentável, não podemos continuar a ter a produção num continente e o consumo noutro”, explica Paulo Vaz.

Jovens não estão interessados nas indústrias tradicionais

O cluster da moda emprega, na Europa, mais de de dois milhões de pessoas em 225 mil empresas, gerado mais de 200 mil milhões de euros todos os anos. Contudo, quase um quarto destes trabalhadores do têxtil, vestuário, curtumes e calçado têm mais de 55 anos, e Portugal não é exceção.

Os empresários portugueses sentem falta de recursos humanos qualificados nas indústrias mais tradicionais, como é o caso do calçado, têxtil e vestuário, mas existe um forte desinteresse dos jovens em enveredar por estes caminhos.

“É necessário criar uma indústria de futuro na Europa. Temos de nos preocupar com a atratividade do setor industrial”, defende Martinho de Oliveira. Em declarações ao ECO, o professor da Universidade da Aveiro sublinhou que este “é um setor que, provavelmente, não é visto hoje pelo maioria dos jovens como parte integrante do seu futuro”. “O setor produtivo da manufatura está envelhecido e precisamos sensibilizar os jovens para estas áreas industriais para garantir a sua continuidade e futuro na Europa”, concluiu Martinho de Oliveira.

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