Analistas divergem quanto ao interesse chinês na EDP após desinvestimento da CNIC

  • Lusa
  • 6 Novembro 2019

Segundo alguns analistas, o desinvestimento do grupo chinês da EDP resulta numa “perda do interesse chinês na elétrica”, mas outros consideram que em nada 'belisca' o interesse estratégico na empresa.

A saída da CNIC do capital da EDP pode indiciar, segundo alguns analistas, uma “perda do interesse chinês na elétrica”, mas outros encaram-na como o fim de uma alocação instrumental de capital independente do posicionamento estratégico chinês na empresa.

“O interesse chinês aparentemente seria o do controlo da empresa e como não o conseguiram fazer, porque a OPA [Oferta Pública de Aquisição] fracassou, o que se pode ler das alienações que têm acontecido é que aos chineses não interessa ter uma participação minoritária, mas sim uma posição maioritária e dominante. Como isso não foi possível, estão agora a vender”, considerou um analista ouvido pela agência Lusa.

“Não é uma questão de se suspeitar que a China queria o controlo. A China lançou uma OPA, portanto foi claríssima a intenção de tomar o controlo da EDP e, uma vez fracassada essa intenção, dão um sinal de que se é para ser minoritário também não querem”, acrescentou.

Segundo este analista, a EDP “tem três ângulos de interesse relevantes: é um player europeu com rentabilidade e tem um pé no Brasil e outro nos EUA, através das renováveis”, sendo que “a China tem feito investimentos de grande monta em energias renováveis, quer na China continental, quer fora, no âmbito de um grande esforço no sentido da transição energética”.

“Mas também ficou claro que a posição na EDP não era apenas financeira, era estratégica”, rematou.

Também para André Pires, da corretora XTB, a liquidação de 1,33% do capital da EDP anunciada na terça-feira pela Orise (uma sociedade detida pela chinesa CNIC) – e que se segue a uma redução anterior da participação na elétrica, feita em 31 de outubro – “pode ser nova indicação de uma perda do interesse chinês”.

“Esta participação [da CNIC] é agregada a outra, a da China Three Gorges (a maior acionista da EDP), já que ambas empresas são detidas na totalidade pela República Popular da China”, recorda, acrescentando que a posição da CNIC “é agora residual”, mas que “a China ficou ainda com uma participação de 23,3%” na elétrica.

Segundo destaca André Pires, “como pano de fundo deste desinvestimento chinês na EDP estará a pressão americana sobre as empresas e governos europeus em relação à força do capital chinês”: “Os EUA querem endurecer as regras de avaliação de investimentos estrangeiros em setores estratégicos como a energia”, sustenta.

Dois outros analistas ouvidos pela Lusa têm, contudo, uma leitura diferente deste desinvestimento da CNIC na EDP, considerando que em nada ‘belisca’ o interesse estratégico chinês na elétrica, assumido pela posição superior a 20% detida pela CTG.

“É claramente uma saída de capital chinês, mas acho que esta posição [da CNIC no capital da EDP] fez mais sentido antes da OPA. Como a OPA não foi para a frente, eventualmente não faz sentido ter uma participação tão grande na EDP, porque têm o controlo via CTG”, disse uma analista.

Convicta de que a posição da CNIC na elétrica “era uma participação satélite”, que serviu “mais como apoio à CTG no lançamento da OPA do que como uma posição de longo prazo”, a analista considera que com a “alteração de contexto” após o fracasso da OPA esta participação “já não fazia tanto sentido” e a empresa prefere “alocar capital para outro sítio”.

“A posição de longo prazo será a da CTG”, sustenta, pondo de parte uma eventual diminuição do interesse chinês na EDP.

Esta interpretação é partilhada por João Queiroz, do Banco Carregosa, para quem a entrada da CNIC na EDP foi “instrumental, para catalisar” a OPA da CTG, e “terminado o seu objetivo já não faz tanto sentido” manter.

“A saída da CNIC não me parece um indício de desinvestimento da CTG, que me parece manter a perspetiva de posicionamento estratégico na EDP. Não penso que tenha terminado o objetivo dessa participação, esse ‘core’ da CTG deverá manter-se”, considera.

Para este analista, não há indicações de “desentendimentos nem de perda de diálogo com este acionista, parece continuar a ter o mesmo alinhamento da administração”.

“Só esta participação instrumental [da CNIC] é que, provavelmente, esgotou aqui a sua função, que era a de a principal oferta, da CTG, ganhar dimensão crítica. A oferta acabou, não teve adesão, e a CNIC sai de cena”, concluiu.

Na terça-feira, em comunicado enviado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) era anunciado que a sociedade Orise S.A.R.L., detida pelos chineses da CNIC, vendeu por 175,6 milhões de euros 1,33% do capital social da EDP.

No dia 31 de outubro, a CNIC tinha já anunciado uma redução da sua participação na EDP dos 4,34% para os 1,89%.

Os chineses da China Three Gorges destacam-se como o principal acionista da EDP, com 23,27% do capital, seguido dos espanhóis da Oppidum Capital (7,19%) e dos norte-americanos da BlackRock (4,997%).

O fundo estatal de Abu Dhabi Mubadala Investment Company detém uma posição de 3,15%, seguindo-se Paul Elliott Singer com 2,45%, o Grupo BCP e o Fundo de Pensões do Grupo BCP com 2,43%, a Sonatrach com 2,38%, a Alliance Bernstein com 2,30%, a Qatar Investment Authority com 2,27%, o Norges Bank com 2,22% e a State Street Corporation com 2,0%.

Um total de 0,59% do capital da EDP corresponde a ações próprias, estando os restantes 44,75% dispersos por acionistas diversos.

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