Por que não aumentam os preços com a subida dos salários?

Salários estão a aumentar mais do que a produtividade - em especial em Portugal e na Alemanha -, mas os preços não estão a acompanhar. Expetativas, concorrência e mais lucros ajudam a explicar porquê.

Os salários estão a aumentar nos países europeus, muitos deles — incluindo Portugal e Alemanha — acima do crescimento da produtividade, mas, ao contrário do que acontecia antes da crise, os preços não estão a acompanhar estes aumentos. Porquê?

Após os anos mais graves da crise, a taxa de desemprego tem vindo a diminuir de forma pronunciada na Europa desde 2013. Com cada vez menos recursos à disposição no mercado de trabalho, e com o regresso aos lucros, as empresas começaram a aumentar salários. O mesmo aconteceu no setor público, quando os países começaram a ter as suas contas em ordem depois de anos de défices.

As melhorias levaram a um aumento dos salários pagos aos trabalhadores, em muitos casos acima do crescimento da produtividade. Segundo o Fundo Monetário Internacional, Portugal e Alemanha foram as duas economias onde o crescimento dos salários mais divergiu do aumento da produtividade.

No entanto, e ao contrário do que vinha sendo a regra antes da crise financeira de 2009, o aumento dos salários não foi acompanhado por um aumento dos preços, com a economia europeia a esperar níveis de inflação bastante reduzidos. Em Portugal, as previsões foram revistas para valores inferiores a 1%.

Mas quais as razões para as empresas não estarem a aumentar os preços, quando os seus custos com pessoal estão a aumentar e os rendimentos em geral estão a subir?

Segundo uma análise do FMI, as empresas tendem a ser maus cautelosas na altura de aumentar os preços para compensar o aumento dos custos do trabalho quando a inflação é baixa e as expectativas são de que assim continue, porque veem o aumento dos custos com pessoal como temporário e acabam por limitar o aumento dos preços na expectativa que a concorrência faça o mesmo.

Neste domínio, a credibilidade que os bancos centrais ganharam com a atuação decisiva durante a crise – como foi o caso do Banco Central Europeu — faz com que as empresas tenham mais confiança nas previsões para a inflação, e baseiam-se nelas para manter os preços, acabando assim por ter o efeito contrário do que o próprio BCE tem tentado fazer.

O setor de atividade em que as empresas atuam também pode ser determinante, explica o Fundo. Setores como a indústria, que enfrentam mais concorrência, em particular de empresas de outros continentes (com custos de trabalho significativamente mais baixos) mais dificilmente aumentam os preços para compensar o aumento dos custos que têm com salários, por receio de perder competitividade face a empresas destes mercados de mão-de-obra barata.

Por fim, o crescimento da economia nos últimos anos também estará a ajudar a manter a inflação baixa, porque as empresas que têm lucros mais elevados tendem a resistir a aumentar os preços, não só porque têm capacidade para absorver o aumento dos custos com maior facilidade, mas também (e especialmente) porque não querem perder quota de mercado.

Os resultados da análise, diz o FMI, sugerem que a política monetária nos países europeus deve manter-se acomodatícia por um período prolongado para estimular o aumento da inflação. Mas manter esta política não só acaba por dar um incentivo às empresas para não aumentarem os preços, como pode criar instabilidade financeira uma vez que encoraja os agentes económicos a assumir riscos cada vez maiores.

No futuro próximo, antecipa o FMI, não será através do aumento dos salários que as economias vão conseguir aumentar a inflação para níveis satisfatórios.

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