Dívida a longo prazo, mais aviões e prejuízos. Os grandes números da TAP

A companhia aérea está no mercado para emitir obrigações, um dia depois de ter apresentado contas ao mercado. O ECO analisou o que mudou na empresa desde a privatização.

A TAP está no mercado para emitir nova dívida, um dia depois de ter apresentado resultados negativos ao mercado. Os prejuízos recuaram à boleia do aumento das receitas, mas foram penalizados pelo câmbio e, corrigidos desse efeito, teria registado um lucro de 61 milhões. É exatamente a exposição da companhia aérea ao Brasil (e à respetiva instabilidade política e volatilidade da moeda) que mais fez desconfiar a agência de rating Standard and Poor’s, que já se pronunciou sobre a empresa.

Privatizada há quatro anos, a companhia aérea é atualmente detida em 50% pela Parpública e em 45% pelo consórcio Atlantic Gateway (dos empresários David Neeleman e Humberto Pedrosa), com os restantes 5% nas mãos dos trabalhadores. Estes são os números do que mudou e que importam na operação:

300 milhões

Este é o montante que a TAP quer emitir em novas obrigações, com um prazo a cinco anos. São 300 milhões de euros a serem colocados apenas junto de investidores institucionais. O ECO sabe que o CEO Antonoaldo Alves está em roadshow e vai apresentar a oferta a investidores esta terça e quarta-feira, em Londres. O objetivo é que a operação esteja fechada, o mais tardar, na quinta-feira.

A Standard & Poor’s foi a primeira agência a avaliar a operação da TAP e classificou-a como investimento especulativo, a três níveis de investment grade. A classificação é idêntica à American Airlines, acima da notação de companhias como a Turkish Airlines, a GOL ou a SAS, e a um notch da Air France (BB). E só empresas como a Lufthansa e a AIG estão em nível de investimento.

786 milhões

Esta operação segue-se a uma colocação semelhante, mas para investidores de retalho em julho e vai aumentar a dívida da empresa, que se situa atualmente 786 milhões de euros. O total de dívida aumentou significativamente face aos 552,2 milhões no final do ano passado e superou até os níveis de 2016, última vez que tinha ultrapassado os 700 milhões de euros. Apesar disso, o peso da dívida, medido pelo rácio dívida líquida face ao EBITDAR (lucros antes de juros, impostos, depreciação, amortizações e custos de reestruturações ou rendas) diminuiu mais de 40% desde 2015.

4 anos

A TAP ainda está a sondar os investidores, mas caso a oferta avance, já sabe os dois objetivos em que vai usar as receitas conseguidas. Além do “pagamento de comissões e despesas relacionadas com a oferta das obrigações”, a operação tem como principal meta a “antecipação do reembolso de determinados empréstimos no âmbito do passivo existente da TAP e extensão do respetivo prazo médio de maturidade”.

Ou seja, a companhia aérea quer diminuir a dependência da banca, a quem deve 651,8 milhões de euros, dos quais 176,3 milhões atingem a maturidade em menos de um ano. Por um lado, os investidores têm menos exigências (nomeadamente no que diz respeito às garantias do Estado) e, por outro, permite alongar a maturidade média da dívida. A emissão de títulos a cinco anos irá ter impacto no prazo médio da dívida, que situa atualmente em quatro anos (contra menos de 24 meses no momento da privatização em 2015).

400 milhões

A estimativa da Standard and Poor’s é que a dívida continue a aumentar este ano e no próximo, em especial devido ao amplo plano de investimento da empresa. A agência antecipa que o CAPEX atinja os 400 milhões de euros ao ano até 2021, em comparação com 130 milhões anuais em 2017 e 2018. A própria empresa admite que está a investir para fazer face ao crescimento, revelando que o número de passageiros transportados subiu 11,1% no terceiro trimestre. Desde a privatização, o número anual de passageiros cresceu 47%.

O número de aviões cresceu em 31 para os atuais 108, nesse período, e vai continuar a aumentar: a empresa tem encomendas para cinco aviões A330neo a serem entregues em 2022, 11 aviões A321neo-LR para 2023 e 32 aviões A320neo/A321neo para 2025. O total de funcionários subiu de sete mil pessoas para 8.937, com a empresa a perspetivar contratar mais mil trabalhadores no próximo ano.

-111 milhões

Passageiros, funcionários e aviões aumentam e impulsionam as receitas, mas não chegam para os lucros. As receitas do grupo ascenderam a 1.052 milhões de euros até setembro, mais 6,1% face a igual período do ano anterior. No entanto, a TAP teve um prejuízo acumulado de 111 milhões de euros no período, “essencialmente devido a variações cambiais sem impacto na tesouraria”, como justificou. Nem tudo é mau. O resultado operacional consolidado do Grupo TAP (EBIT) foi de 129 milhões de euros no terceiro trimestre de 2019, equivalente a 12,2% das receitas, em linha com outras empresas congéneres da Europa.

30 milhões

Enquanto o negócio parece correr bem à TAP, há vários fatores que influenciam, com a sazonalidade do negócio à cabeça, seguida da volatilidade associada ao facto de 25% das receitas virem do Brasil. Além disso, há o combustível. No final de 2018, a TAP começou a fazer hedging para se proteger contra as flutuações dos preços do jet fuel, tendo contratado cobertura de 50% da estimativa de gastos deste ano. Para 2020, já fez o mesmo, e a um custo cerca de 4% inferior ao do ano anterior, o que equivale a uma poupança estimada de 30 milhões de euros no próximo ano.

A empresa alerta, no entanto, os investidores que “pode não ser suficiente para cobrir totalmente aumentos nos preços dos combustíveis e pode não ser possível ajustar os preços ou serviços atempadamente“. Somam-se ainda, a dependência da Petrogal, maior fornecedora deste combustível em Portugal, bem como a dúvida em relação à isenção de impostos para o jet fuel na Europa. “A eliminação ou redução das atuais isenções na UE iria gerar um aumento substancial dos custos, o que se materializaria em efeitos adversos para o negócio, as condições financeiras e/ou os resultados operacionais”, acrescenta.

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