Carlos Tavares apela para que “não se criem desincentivos ao investimento”

O presidente do Banco Empresas Montepio alerta que as empresas têm necessidade de encontrar um financiamento mais equilibrado e que não tem sido esse o papel da banca no nosso país.

O investimento é um passo crucial para o desenvolvimento da economia, mas a questão do financiamento continua a ser um dos grandes desafios para o tecido empresarial português. Para o presidente do Banco Empresas Montepio (BEM), Carlos Tavares, “o tema do investimento e do financiamento das empresas são temas essenciais nos dias de hoje (…) e não há outra forma de conseguirmos aquilo que há tantos anos andamos a falar, que é a convergência da nossa economia”.

“Eu já não falo em incentivos ao investimento, eu falo sobretudo que não se criem desincentivos a quem quer investir, que não complique a vida a quem quer ter sucesso”, destaca Carlos Tavares. Perante o desafio considera que existe a necessidade de “ajudar as empresas a encontrar os investidores adequados, a encontrar quem possa contribuir para esse financiamento mais equilibrado. E não tem sido esse o papel da banca no nosso país”.

O presidente do Banco Empresas Montepio esclarece que “muitas vezes as empresas também não têm encontrado formas de se financiar adequadamente com capitais próprios em nível suficiente”. Explica que atualmente “25% das empresas têm uma autonomia financeira inferior a 5%”, que existe “um grande número de empresas que não têm capitais próprios”, “cerca de 23% das empresas do setor industrial têm capitais próprios negativos e 30% das empresas com resultados líquidos negativos“. Perante os números conclui que “esta não é uma situação sustentável”.

Carlos Tavares esclarece ainda que “o problema não foi por falta de crédito, mas sim por mau financiamento”. Explica que “o crédito em percentagem do PIB passou de cerca de 60% em 1995 para 160% em 2015, embora tenha baixado nos últimos anos”. “Investimos mal, criamos um dívida muito grande, as empresas portuguesas são das mais endividadas, mais alavancadas da Europa”, destaca o presidente do Banco Empresas Montepio, na conferência “O investimento e as alternativas de financiamento das empresas”, promovida pelo BEM, em Aveiro.

“O investimento não foi feito de forma adequada e, portanto, houve necessidade de um novo surto de investimento (…) e as empresas não têm possibilidade de financiar este novo surto de investimento”, alerta o presidente do Banco Empresas Montepio.

Fernando Alexandre, professor da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, corrobora a ideia de Carlos Tavares e destaca que “a dívida aumentou significativamente nos últimos dez anos (…) e o país não pode entrar novamente num novo ciclo de endividamento que não se reflita em melhor produtividade e melhor investimento”.

“A produtividade em Portugal estagnou a partir do ano 2000 (…) e aqui há um paradoxo: se temos trabalhadores mais qualificados, com melhores infraestruturas e melhores equipamentos como é que obtemos um valor de produtividade muito semelhante ao que tínhamos há vinte anos”, interroga. Destaca que “a produtividade por hora do trabalho português é cerca de 65% da média da UE, o que corresponde a cerca de metade da capacidade de produtividade em países como a Bélgica, Holanda, França, Alemanha, entre outros”.

O professor da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho explica que aquilo que aconteceu em Portugal foram “baixas taxas de crescimento compradas com os nossos parceiros europeus, que resultaram numa paragem na convergência da economia portuguesa para os patamares das economias mais ricas da União Europeia.

“A dívida pública portuguesa continua a ser uma das mais endividadas do mundo em percentagem do PIB. Portugal gasta cerca de 12 mil milhões de euros por ano a pagar créditos e juros”, constata Fernando Alexandre. Explica ainda que “em 2012 as empresas portuguesas eram das mais alavancadas do mundo e o que acontece é que essa transferência de crédito para as empresas, para financiar investimento, não obteve resultados do ponto de vista da produtividade”.

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