Carlos Silva, da UGT: “Trabalho desde os 17 anos e é a primeira vez que estou confinado à minha casa”

Desde 2013 que Carlos Silva é secretário-geral da UGT, mas esta é a primeira vez que, confinado à sua casa, está a gerir a central sindical à distância. E há constrangimentos, confessa.

A pandemia de coronavírus provocou uma “alteração draconiana” na rotina do secretário-geral da União Geral de Trabalhadores (UGT). Antes, Carlos Silva dividia os seus dias entre a sede da central sindical que dirige, visitas a empresas e deslocações ao estrangeiro; e agora, confinado à sua casa, gere todo o trabalho à distância, reconhecendo constrangimentos nessa nova realidade.

O sindicalista é um dos muitos portugueses que estão a trabalhar a partir de casa e é mais um dos entrevistados da nova rubrica diária do ECO Gestores em Teletrabalho.

“Estou em contacto permanente via telemóvel e via mail com os meus dirigentes, com os meus sindicatos e também com os trabalhadores da UGT, que estão em teletrabalho. É uma rotina que completamente alterou a minha vida e julgo que a da generalidade dos portugueses”, sublinha Carlos Silva.

O líder da UGT explica que este regime remoto transformou o trabalho em equipa em trabalho feito de forma individualizada que depois partilha com a equipa, notando ainda assim “uma grande colaboração e disponibilidade” de todos os que trabalham na central sindical.

Ainda assim, Carlos Silva admite “alguns constrangimentos” neste modelo de trabalho remoto, sobretudo ligados à “ausência da presença”. “Trabalho desde os 17 anos e esta é a primeira vez que estou confinado à minha casa e a tentar gerir as coisas à distância. É esse o grande constrangimento”, diz. E apesar de toda a tecnologia já disponível, o sindicalista frisa que “não é a mesma coisa”.

“Função da UGT é acalmar os ânimos”

Ainda que estejam em teletrabalho, os membros da UGT — incluindo o seu secretário-geral — continuam a acompanhar toda a “produção legislativa que tem sido feita pelo Governo e pelo Presidente da República”, registando as “muitas perguntas” que os sindicatos desta central sindical lhe têm feito chegar, garante Carlos Silva.

Ao ECO, o sindicalista a afirma que a função da UGT, neste momento, é “acalmar os ânimos” e “dizer aos trabalhadores que tudo se há-de resolver” com as dúvidas que vão sendo suscitadas a serem gradualmente respondidas.

Ainda assim, o líder da UGT diz estar preocupado com os efeitos desta pandemia no mercado de trabalho, já que este surto de coronavírus pode deixar muitos trabalhadores em “situações graves”. Isso mesmo já tinha salientado a Organização Internacional do Trabalho (OIT), que estima, em todo o mundo, poderão ser eliminados quase 25 milhões de empregos à boleia desta crise, atirando muitos outros para a precariedade.

Assim, Carlos Silva defende que o Executivo de António Costa deve encontrar “junto da Comissão Europeia e das instâncias internacionais” apoios financeiros “para alocar às empresas”, de modo a assegurar a manutenção dos postos de trabalho.

Três mil milhões para as empresas? “Não vai chegar”

O Governo já anunciou mais quatro linhas de crédito no valor total de três mil milhões para as empresas que estejam a ser afetadas por esta pandemia de coronavírus, “um sinal importante sobretudo para o turismo, restauração e indústria”, considera Carlos Silva.

Apesar do elogio, o líder da UGT coloca-se ao lado dos empresários e diz estar convencido que “não vai chegar”, lembrando sempre que, além disso, o Executivo precisa de reforçar as medidas para apoiar as famílias e os trabalhadores.

Ainda assim, Carlos Silva admite: “Aplaudimos e registámos de forma muito positiva toda a atuação do Governo no acompanhamento dessa situação”. Da parte da UGT, o secretário-geral quer dar o exemplo, tendo colocado os 35 trabalhadores da central sindical a trabalhar a partir de casa e prometendo-lhes salários por inteiro, incluindo o subsídio de refeição, apesar das dúvidas que assombram esse apoio.

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