Covid-19 vai causar onda de cortes de rating. Agências já estão em alerta

Estados aumentam a despesa para travar o vírus e impulsionar a economia, enquanto as empresas enfrentam desafios da paralisação. Há setores que já estão a sofrer revisões em baixa.

A pandemia de Covid-19 está a obrigar empresas a pararem e Estados a injetarem dinheiro na economia para tentarem travar os efeitos. Além dos problemas de saúde e económicos, há ainda uma outra preocupações: revisões em baixa dos ratings. As agências têm sublinhado o caráter temporário dos choques, mas já estão a agir.

“A gravidade do declínio do EBITDA [lucros antes de juros, impostos, depreciações e amortizações] vai por a resiliência dos ratings à prova”, alertam os analistas do Citigroup, numa nota de research.

As estimativas do Citigroup indicam que uma quebra de 30% nos resultados pode causar revisões em baixa de 25% das empresas globais que estão no último nível de grau de investimento. Ou seja, que passarão a ser avaliadas como investimento especulativo.

Ainda é cedo para perceber o impacto que a Covid-19 poderá ter nos resultados das empresas ou nas contas públicas dos países, mas multiplicam-se os alertas sobre uma recessão profunda. A principal preocupação — haver um choque simultâneo na oferta e na procura — levou a Moody’s a baixar as estimativas de crescimento económico global duas vezes em menos de um mês.

Produto interno bruto deverá recuar este ano

Recessão, falências e incumprimento no horizonte

É quase certo que este cenário vai pressionar os ratings. No que diz respeito aos ratings soberanos, a Fitch antecipa para 2020 a maior onda de descidas nas avaliações desde 2009, ou seja durante a crise financeira, devido aos efeitos da combinação entre o impacto económico do coronavírus e as respostas políticas a essa realidade.

E a onda já começou. A primeira grande economia a sofrer um corte de rating devido ao impacto do coronavírus foi o Reino Unido. Esta sexta-feira, a Fitch reviu em baixa a notação financeira do Reino Unido para AA- (do anterior nível AA), devido “ao significante enfraquecimento das finanças públicas”.

O alerta sobre o impacto global é partilhado pela Standard & Poor’s, que considera que a pandemia de Covid-19 associada à recente guerra nos preços do petróleo (que levou o valor da matéria prima a afundar) e a “extrema” volatilidade nos mercados irá ter implicações “profundas”.

“É provável que signifique um aumento nos incumprimentos, potencialmente atingindo uma taxa de falência ao nível dos dois dígitos para empresas não financeiras nos EUA e um aumento significativo, mas abaixo de 10% na Europa nos próximos seis a 12 meses”, estima.

"É provável que signifique um aumento nos incumprimentos, potencialmente atingindo uma taxa de falência ao nível dos dois dígitos para empresas não financeiras nos EUA e um aumento significativo, mas abaixo de 10% na Europa nos próximos seis a 12 meses.”

Standard and Poor's

Agências adaptam métodos para considerar efeitos

Face a este cenário, a Fitch decidiu adaptar os procedimentos de análise, nomeadamente dando maior importância aos registos históricos. Da mesma forma, a canadiana DBRS está a considerar estes efeitos extraordinários nos métodos de avaliação.

“A nossa abordagem é olhar para os fundos base das economias desenvolvidas em três momentos: antes da crise, no pico máximo ou mínimo durante a crise financeira e no fim de 2019”, explica a agência. Conclui que “a maior parte dos soberanos das economias desenvolvidas tem espaço orçamental adequado para implementar medidas temporárias“.

Estas medidas temporárias, na forma de estímulos orçamentais, têm como objetivo apoiar o setor da saúde e os doentes, bem como os trabalhadores e as empresas cuja atividade seja afetada.

"A maior parte dos soberanos das economias desenvolvidas tem espaço orçamental adequado para implementar medidas temporárias.”

DBRS

Banca, companhias aéreas e automóveis já sentem impacto

Os setores que estão na linha da frente serão, igualmente, os mais afetados nos ratings. A Standard & Poor’s aponta especialmente para os efeitos na banca, sublinhando que os efeitos da pandemia estão a pôr à prova a qualidade dos ativos, bem como a robustez das receitas e dos lucros das instituições financeiras na Europa.

“A grande maioria das instituições financeiras europeias que avaliamos possui perfis sólidos de crédito e acreditamos que estão bem posicionadas para suportar o período difícil que está por vir. No entanto, o efeito da pandemia pode prejudicar alguns bancos mais do que outros. Os mais expostos são bancos com concentrações nos setores mais atingidos, como transporte, lazer e commodities, além de bancos em países ou regiões mais afetados pela propagação do vírus“, revela a agência.

O mesmo se aplica a companhias aéreas e produtoras de automóveis. A Moody’s cortou o rating da BWN, TAP, easyJet e Lufthansa. E colocou sob vigilância, com perspetiva de downgrade, nove outras empresas dos dois setores: Daimler, Jaguar, Peugeot, Renault, Volkswagen, Volvo e McLaren, bem como a British Airways e a IAG.

“A rápida e crescente disseminação do surto de coronavírus, a deterioração da perspetiva económica global, a queda dos preços do petróleo e a queda dos preços dos ativos estão a criar um choque de crédito grave e extenso em muitos setores, regiões e mercados. Os efeitos para os ratings da conjugação destes desenvolvimentos não têm precedentes“, alerta a Moody’s.

Mapa dos setores mais afetados pela Covid-19

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