Covid-19 é “ameaça muito séria” à estabilidade financeira. Vai expor riscos dos juros baixos

Fragilidade obriga a ação conjunta de políticas monetárias, financeiras e orçamentais, diz o FMI. Alerta que mais confinamento levará a deterioração adicional nas condições económicas e financeiras.

O Covid-19 é um desafio nunca visto não só para a saúde pública, mas também ao nível económico e financeiro. Com os bancos centrais a tomarem a dianteira da resposta, o Fundo Monetário Internacional (FMI) pede mais ação aos Governos para travar o agravamento dos riscos para a estabilidade financeira global.

Esta crise representa uma ameaça muito séria à estabilidade do sistema financeiro global. No seguimento do aparecimento da epidemia, as condições financeiras restringiram-se a uma velocidade sem precedentes, expondo as falhas nos mercados financeiros globais”, refere o FMI, no Relatório de Estabilidade Financeira Global, publicado esta terça-feira.

Apesar de apontar que há uma elevada incerteza sobre o impacto desta crise para a economia global, o fundo liderado por Kristalina Georgieva projeta que o PIB mundial caia 3% este ano, ou seja, uma contração pior do que na crise financeira de 2008 e 2009. A expectativa de disparo nas falências de empresas gerou um pico de volatilidade nos mercados, bem como um agravamento dos custos de financiamento.

"O sentimento dos investidores estabilizou nas últimas semanas. No entanto, continua frágil. As condições financeiras globais continuam muito limitadas em comparação com o início do ano.”

Relatório de Estabilidade Financeira Global

Fundo Monetário Internacional

Os bancos centrais conseguiram acalmar os mercados, com medidas — incluindo empréstimos e compra de ativos — que irão aumentar os balanços em seis biliões de dólares. Em simultâneo, criaram linhas para manter a liquidez de moedas como o dólar norte-americano ou o euro e, em 13 regiões chave, as taxas de juro de referência foram cortadas entre 50 e 150 pontos base.

Estas políticas são vistas como essenciais para assegurar que a paragem temporária da produção não cria danos permanentes na capacidade da economia com impactos para o sistema financeiro.

“Como resultado destas ações, o sentimento dos investidores estabilizou nas últimas semanas. As tensões em alguns mercados diminuíram e os preços dos ativos de riscos recuperaram parte das quebras iniciais. No entanto, o sentimento continua frágil. As condições financeiras globais continuam muito limitadas em comparação com o início do ano“, alerta.

Banca posta à prova. Ações refletem preocupações

O contexto de frágil estabilidade obriga, na opinião do fundo de Bretton Woods, a uma ação concertada de políticas monetárias, financeiras e orçamentais. Defende que Governos e instituições internacionais devem assegurar uma almofada que permita preparar uma recuperação sustentável quando a pandemia estiver controlada.

Por outro lado, se o surto levar à imposição de mais medidas de confinamento e de maior duração temporal, as condições económicas e financeiras poderão deteriorar-se ainda mais. “Essa deterioração poderá, por sua vez, expor as vulnerabilidades financeiras que se intensificaram nos últimos anos, num ambiente de taxas de juro extremamente baixas“, clarificou Tobias Adrian, conselheiro financeiro do FMI, na apresentação do relatório.

Os níveis historicamente baixos das taxas de juro em algumas regiões, como a Zona Euro ou a China, permitem a Estados e empresas financiarem-se a baixos custos. Mas, por outro lado, impacta negativamente o valor dos ativos e as margens das instituições financeiras. Assim, o FMI alerta que bancos, gestoras de ativos e seguradoras vão viver tempos particularmente desafiantes.

"Fortes quedas nos preços das ações dos bancos sugerem que os investidores estão preocupados com a rentabilidade e o futuro do setor bancário. A preocupação é que os bancos e outros intermediários financeiros possam ser amplificadores, caso a crise se aprofunde.”

Tobias Adrian

Conselheiro financeiro do Fundo Monetário Internacional

Apesar de considerar que “os bancos estão mais capitalizados e têm mais liquidez do que no passado”, o FMI considera que a “resiliência” do setor vai ser posta à prova devido à forte desaceleração económica e ao longo período de stress nos mercados financeiros.

“As fortes quedas nos preços das ações dos bancos desde meados de janeiro sugerem que os investidores estão preocupados com a rentabilidade e o futuro do setor bancário. A preocupação é que os bancos e outros intermediários financeiros possam ser amplificadores, caso a crise se aprofunde“, acrescenta Adrian.

Para ultrapassar esta fase, o FMI recomenda aos bancos que renegoceiem contratos de crédito e usem as almofadas de liquidez para absorver perdas. Aconselha ainda as seguradoras a criarem planos de emergência para garantir a liquidez e, às gestoras de ativos, que mantenho um claro quadro de atuação para evitar comportamentos arriscados face às necessidades para dar resposta aos clientes.

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