Escola à distância? Autarquias e empresas juntam-se para dar computadores

O ensino à distância é a nova realidade dos alunos, contudo, trouxe à tona as desigualdades sociais existentes. Por isso, empresas e autarquias estão a doar computadores para promover o ensino.

A pandemia de Covid-19 em Portugal trouxe mudanças ao ensino em Portugal. Os professores foram obrigados a reformular os métodos de ensino e as plataformas digitais, como o Zoom in, passaram a ser as novas salas de aula desde que as escolas encerram, a 16 de março. Contudo, o ensino à distância exacerbou as desigualdades sociais entre alunos, que a escola tradicional tentava combater. Por isso, empresas e autarquias colocaram mãos à obra para colmatar esse fosso, através da doação de equipamentos tecnológicos para os estudantes.

Em Portugal, estima-se que cerca de 50 mil alunos não terão computadores nem acesso à internet. Segundo um inquérito do Centro de Economia da Educação da Nova SBE, os professores reportam que 23% dos alunos não têm um computador com acesso à internet, sendo que os valores são mais elevados no ensino público do que no privado. “Por exemplo, no 1.º ciclo do ensino público, a média da percentagem de alunos sem computador com acesso à Internet é de 31%, enquanto que em escolas privadas este valor cai para 10%“, assinala o inquérito.

Mesmo entre as escolas públicas, o estudo aponta para realidades muito diferentes. A título de exemplo, no 1.º ciclo, “20% dos professores indica que praticamente todos os seus alunos (>90%) tem computador com internet. Mas também existem muitos professores (cerca de 25%) que indicam que mais de metade da turma não tem computador”, lê-se.

Autarquias com meta comum: colmatar as desigualdades no ensino à distância

Com o intuito de colmatarem estas desigualdades entre alunos e a fim de promoverem o ensino à distância durante o terceiro período escolar, várias são as autarquias que estão a reunir esforços para oferecem equipamentos tecnológicos aos seus alunos. É o caso da Câmara Municipal de Oeiras, que, em parceria com a Altice, decidiu disponibilizar equipamentos por forma a “universalizar a igualdade de oportunidades”, aponta o município em comunicado. Assim, depois de identificar através das escolas, os alunos e professores sem os meios tecnológicos necessários, o município garantiu o equipamento para quem não tinha.

Num universo de 20 mil alunos e dois mil professores, entre as doações constam 1.944 equipamentos entre tablets, computadores portáteis e smartphones, sendo que a maioria foi entregue a alunos (1.914) e os restantes 30 a professores.

Além disso, a autarquia distribuiu também 200 câmaras, 200 microfones e 1.185 routers para o acesso à internet, para 1.158 para alunos e 27 para professores. Por forma a promover uma maior facilidade de contacto entre professores e alunos, “serão também disponibilizados dois números de telefone com chamadas totalmente gratuitas”, através do serviço Service Desk, informou ainda a Altice em comunicado. Este projeto, que terá um investimento de cerca de 140 mil euros, além da Altice, tem como parceiros a Cisco, que permite criar salas de aulas virtuais.

Ainda pelo distrito de Lisboa, após um levantamento em conjunto dos agrupamentos de escolas, a Câmara de Cascais deparou-se com o facto de 194 alunos do secundário não possuírem internet nem meios informáticos para poderem aceder às aulas virtuais. Face a estas circunstâncias, o presidente da autarquia, Carlos Carreiras, decidiu realizar “a entrega simbólica dos primeiros tablets que o município vai ceder, em regime de empréstimo, aos alunos do 10 ao 12.º anos de escolaridade”, informa o município em comunicado.

Além disso, a Câmara Municipal de Cascais cedeu, de forma gratuita, acesso à internet via wi-fi, através de equipamentos hotspot com capacidade 60 Gb/mês.

Da mesma forma, a Câmara Municipal de Odivelas disponibilizou 360 computadores e 30 tablets aos agrupamentos de escolas para que estes sejam entregues aos alunos que não têm meios para acompanhar o ensino à distância. “Os alunos foram sinalizados pelos respetivos professores titulares e diretores de turma, cabendo a cada unidade organizacional gerir os equipamentos em função das necessidades da sua população escolar e do plano de ensino à distância que está a implementar“, informa autarquia em comunicado publicado nas redes sociais.

Além disso, foi ainda lançada uma campanha de recolha de equipamentos informáticos dirigidas às empresas e à comunidade em geral, apelando à doação de computadores, monitores, portáteis ou tablets fora de uso. A recolha é assegurada pela Câmara, podendo ser solicitada através do número 967 080 505 ou pelo email geral@cm-odivelas.pt.

Pela região centro, a Câmara de Coimbra vai disponibilizar “670 tablets e 400 bandas largas acesso móvel à internet”, a título de empréstimo, aos alunos do 1.º ciclo, que não disponham deste tipo de equipamentos, informa a autarquia. Além disso, vai fornecer o acesso gratuito a uma plataforma de ensino, para alunos e docentes daquele nível de ensino. A iniciativa acontece depois de a autarquia ter verificado que dos quase quatro mil alunos que frequentam o 1.º ciclo de ensino público do município, cerca de quatro centenas ainda não têm acesso (ou não têm acesso em condições) à internet.

A história repete-se a norte do país. A Câmara Municipal de Matosinhos anunciou que estão a ser distribuídos 800 tablets e 500 computadores para os estudantes do concelho. “É um investimento muito considerável. São 480 mil euros para fornecer também routers e hotspots para que todas as casas possam ter acesso à internet, mas assim garantimos a equidade”, referiu Luísa Salgueiro, presidente da Câmara Municipal de Matosinhos, em declarações transmitidas pela Sic Notícias.

Ao mesmo tempo, ao abrigo do programa Gaiaprende+, um programa educativo promovido pela autarquia de Gaia em articulação com os agrupamentos de escolas do concelho, o município comprou 400 computadores com internet e mil tablets para emprestar aos estudantes do 1º ciclo, que não tenham estes equipamentos, informou a Câmara de Gaia num vídeo no Facebook.

Além disso, as juntas de freguesia de Gaia vão distribuir 300 pontos de acesso à internet, para apoiar o ensino à distância. O empréstimo funciona durante um período de três meses. “A gestão dos empréstimos dos aparelhos informáticos será gerida pelos agrupamentos do concelho, pelo que os(as) encarregados(as) de educação interessados deverão contactar o respetivo agrupamento”, aponta a autarquia no Facebook.

Ainda pela área Metropolitana do Porto, a Câmara de Paredes vai adquirir 725 computadores portáteis, 602 tablets e 1.016 ligações à internet de banda larga, num investimento a rondar os 366 mil euros. Tal como acontece em Gaia, os equipamentos serão disponibilizados pela autarquia aos agrupamentos, no decorrer deste mês, e as escolas farão chegá-los aos encarregados de educação por empréstimo.

Para o presidente da autarquia, Alexandre Almeida, “nenhum aluno pode ficar para trás”, e por isso, a medida visa apoiar os alunos que necessitem de “ferramentas informáticas” para que possam acompanhar as atividades letivas e prosseguir o ensino à distância no terceiro período, sem “haver desigualdades em contexto escolar”, sublinha em comunicado publicado no site do município.

A realidade é semelhante no Alto do Minho, mais concretamente no município de Arcos de Valdevez. A Câmara Municipal aprovou um apoio no valor de 40.000 euros para aquisição de computadores e acesso à internet para alunos do agrupamento de escolas da região. “Desta forma pretende-se criar mais e melhores condições aos alunos no acesso às aulas que, em parte, irão recorrer ao modelo de ensino à distância por computador e internet devido à pandemia do novo coronavírus”, aponta a autarquia em comunicado.

Também o Governo Regional dos Açores vai disponibilizar 1.900 computadores a alunos do ensino básico e secundário, da região autónoma. O anúncio foi feito por Avelino Meneses, responsável pela pasta da Educação, avançou o Diário de Notícias da Madeira.

Galp oferece mais de 300 computadores para ensino à distância

Mas a ideia de que “nenhum aluno pode ficar para trás” durante a pandemia do novo coronavírus, bem como a preocupação de possibilitar um ensino regular para todos os alunos, não se cinge às autarquias. Tal como a Alice, também a Galp vai doar “cerca de 300 computadores à comunidade escolar com o objetivo de assegurar que os alunos com recursos mais escassos possam continuar as atividades letivas à distância”, informa a petrolífera em comunicado.

A iniciativa conta com o apoio de vários parceiros, e em articulação com o Ministério da Educação, é destinada a alunos do 1.º 2.º e 3.º ciclos dando primazia aos agrupamentos de escolas de Sines e Matosinhos. Os primeiros 100 computadores deverão chegar a casa dos alunos no decorrer desta semana.

Estes são alguns exemplos de iniciativas a decorrerem de norte a sul do país, sendo que já foi criado um grupo de Facebook intitulado “Todos pelos Alexandre de Portugal”, com o intuito de incentivarem empresas e até particulares a doarem equipamentos informáticos de que não precisem para as famílias mais necessitadas. A ideia surgiu pelas mãos de Carla Santos Dias, agente imobiliária, depois de a Sic ter transmitido uma reportagem a alertar para estudantes, que tal como o Alexandre, não têm um computador para acompanhar o ensino à distância.

As associações de pais do Agrupamento de Escolas da Portela e Moscavide resolveram lançar uma campanha de crowdfunding, tentar angariar 12 mil euros, para disponibilizar equipamentos e acesso à net aos alunos já que, neste agrupamento, composto por cinco escolas e cerca de 2550 alunos, aproximadamente 10% não tem acesso a um computador e 3% não tem acesso a qualquer meio nem à Internet.

Outra iniciativa foi levada a acabo por uma rede de empresários do norte, a Network Marketing Portugal (NMP), que se associou a uma instituição de solidariedade social, a Qualificar para Incluir (QPI) para disponibilizar equipamento informático a crianças e jovens com maiores fragilidades financeiras. Para além do fornecimento das ferramentas informáticas, o objetivo é também acompanhar diariamente e de forma personalizada o estudo de cada criança.

Certo é que a situação só deverá ficar resolvida no início do próximo ano letivo, já que o primeiro-ministro, — aquando do anúncio do prolongamento do ensino à distância até ao final do ano letivo para os estudantes até ao 10º ano –, comprometeu-se a lançar um programa que garante acesso a computadores e internet, a alunos do ensino básico e secundário.

Até lá, e por forma a combater as desigualdades entre alunos, a Telescola, emitida a partir desta segunda-feira na RTP Memória, vai tentar tornar o ensino mais universal. Ainda assim, e tal como António Costa sublinhou, este modelo funciona apenas como complemento aos conteúdos lecionados pelos professores.

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