Central de Sines vai fechar? Governo já estuda alternativas para garantir segurança energética do país

Questionado sobre se as centrais de Sines e Pego voltarão a queimar carvão para produzir energia, num cenário pós Covid-19, o Governo garante que "será muito pouco provável que tal volte a acontecer".

Perante a forte possibilidade de a central a carvão de Sines, da EDP, encerrar muito antes da data estabelecida por António Costa, em 2023, o Governo admitiu que já estão a ser estudadas alternativas para fazer face a este cenário do ponto de vista da manutenção da segurança do abastecimento”, preferindo não revelar ainda que alternativas são estas, em concreto. Confirma-se assim que o fecho de portas antecipado de Sines é uma variável que está neste momento em cima da mesa tanto para o Executivo como para a EDP.

“Face a notícias que vieram a público sobre o possível encerramento da central de Sines antes do prazo previsto, estão a ser estudadas alternativas para fazer face a este cenário do ponto de vista da manutenção da segurança do abastecimento”, disse ao ECO/Capital Verde fonte oficial do Ministério do Ambiente e Ação Climática (MAAC). No entanto, para já não há alterações nas datas previstas para o encerramento das duas centrais termoelétricas a carvão, Pego em 2021 e Sines em 2023″, sublinha a mesma fonte.

No início de maio, e de acordo com dados da REN, a associação ambientalista Zero deu conta do facto de há mais de 50 dias (desde 14 de março) não se produzir eletricidade a partir de carvão em Portugal e de a central de Sines não funcionar há mais de 100 dias, desde 26 de janeiro, o que permitiu evitar emissões de quase um milhão de toneladas de CO2 nos últimos dois meses. “Uma trajetória que é para manter”, diz o Governo.

Questionado sobre se o carvão poderá voltar a ser queimado em Sines e no Pego quando o consumo de energia voltar aos níveis normais pós Covid-19, o Governo garante que “será muito pouco provável que tal volte a acontecer. O facto de Portugal ter reduzido os benefícios fiscais associados à produção de eletricidade a partir do carvão, tornou este negócio muito menos competitivo, pelo que é hoje evidente que produzir eletricidade a partir de fontes renováveis é mais barato e gera ganhos para os consumidores”, sublinhou fonte oficial do MAAC.

EDP estuda fechar Sines parcialmente já este ano

Do lado da EDP, há algum tempo que a empresa está estudar o fecho já em 2020 de metade da central a carvão de Sines (dois dos quatro grupos de produção), sabe o ECO/Capital Verde, um cenário que ganha agora mais força com a saída definitiva de cena do carvão da produção de eletricidade em Portugal.

A elétrica já confirmou que está a acompanhar ao minuto “a evolução do mercado para avaliar as perspetivas de geração de cash flow positivo nas centrais a carvão”, mas ainda não tomou “nenhuma decisão de encerramento”.Se não libertar cash, anteciparemos o encerramento”, tinha já garantido António Mexia em entrevista ao ECO. A decisão pode até não estar tomada, “mas é uma coisa monitorizada de forma permanente”, garantiu o CEO.

No primeiro trimestre do ano, as energias renováveis foram responsáveis por 79% da produção de eletricidade da EDP, com o carvão em sentido oposto, a cair a pique (-77%), para apenas 6%. “Em Portugal, a central de carvão operou apenas por um breve período em janeiro, apresentando um decréscimo de 98% com um fator médio de utilização de 2%” face a igual período do ano passado. “Este efeito foi parcialmente mitigado pelo aumento da produção das centrais de ciclo combinado a gás (+71% em termos homólogos), informou a EDP na sua recente apresentação de resultados.

Na opinião de Pedro Amaral Jorge, presidente da APREN, as centrais a carvão já são hoje “economicamente inviáveis quando comparadas com outras fontes, sobretudo as renováveis”. “Se houver produção renovável suficiente e não se registarem grandes picos de consumo”, Portugal pode a partir de agora prescindir do carvão, argumenta.

Todos os riscos parecem estar afastados. “As atuais paragens das centrais do Pego e de Sines mostram que é possível a sua retirada do sistema sem pôr em causa a segurança do abastecimento de eletricidade no país. A Zero considera porém que é fundamental realizar os dois investimentos propostos pela REN, nomeadamente na construção de linhas para a região Sul, os quais já se encontram previstos no Plano de Desenvolvimento e Investimento da Rede Nacional de Transporte”, disse a associação.

Que alternativas ao carvão estão em cima da mesa?

Para já, a alternativa passa sobretudo pelas centrais a gás natural (Ribatejo, Pego, Lares e Tapada do Outeiro), que têm permitido substituir o fornecimento de eletricidade das centrais a carvão com menores custo e emissões de carbono. No futuro, “os investimentos para a produção de eletricidade a partir de fontes de energia renovável conseguirão assegurar uma fração progressivamente significativa da geração de eletricidade, com custos mais reduzidos para o consumidor e sem emissões diretas de gases de efeito de estufa”, argumenta a Zero.

Apesar de o Governo não revelar ainda que alternativas a Sines está a estudar para garantir a segurança no abastecimento de energia elétrica em Portugal, o secretário de Estado da Energia, João Galamba, tinha já afirmado no final do ano passado que “todas as situações de segurança de abastecimento e estabilidade de rede” estarão acauteladas até ao fecho da central termoelétrica de Sines. O governante admitiu mesmo que a data de 2023 é meramente indicativa “para garantir que só se prescindirá de Sines quando se estiver em condições”.

Segundo Galamba, o Relatório de Monitorização de Segurança de Abastecimento do Sistema Elétrico Nacional, publicado pela Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) em articulação com a REN, “acompanha esta possibilidade há vários anos e a questão está totalmente acautelada”.

Até agora, o fecho da central Sines daqui a três anos estava dependente de várias obras cuja conclusão ainda se adivinha longínqua: uma nova linha de muito alta tensão da REN, que deve ser concluída até 2022; a entrada em funcionamento das novas barragens da Iberdrola no Alto Tâmega, em 2023; e o início da produção de um eletrolisador, também em 2023, na nova mega fábrica de hidrogénio verde que o Governo quer fazer nascer em Sines. Até 2030 o objetivo é ter 1.000 MW de capacidade de produção de hidrogénio.

O ECO recusou os subsídios do Estado. Contribua e apoie o jornalismo económico independente

O ECO decidiu rejeitar o apoio público do Estado aos media, porque discorda do modelo de subsidiação seguido, mesmo tendo em conta que servirá para pagar antecipadamente publicidade do Estado. Pelo modelo, e não pelo valor em causa, cerca de 19 mil euros. O ECO propôs outros caminhos, nunca aceitou o modelo proposto e rejeitou-o formalmente no dia seguinte à publicação do diploma que formalizou o apoio em Diário da República. Quando um Governo financia um jornal, é a independência jornalística que fica ameaçada.

Admitimos o apoio do Estado aos media em situações excecionais como a que vivemos, mas com modelos de incentivo que transfiram para o mercado, para os leitores e para os investidores comerciais ou de capital a decisão sobre que meios devem ser apoiados. A escolha seria deles, em função das suas preferências.

A nossa decisão é de princípio. Estamos apenas a ser coerentes com o nosso Manifesto Editorial, e com os nossos leitores. Somos jornalistas e continuaremos a fazer o nosso trabalho, de forma independente, a escrutinar o governo, este ou outro qualquer, e os poderes políticos e económicos. A questionar todos os dias, e nestes dias mais do que nunca, a ação governativa e a ação da oposição, as decisões de empresas e de sindicatos, o plano de recuperação da economia ou os atrasos nos pagamentos do lay-off ou das linhas de crédito, porque as perguntas nunca foram tão importantes como são agora. Porque vamos viver uma recessão sem precedentes, com consequências económicas e sociais profundas, porque os períodos de emergência são terreno fértil para abusos de quem tem o poder.

Queremos, por isso, depender apenas de si, caro leitor. E é por isso que o desafio a contribuir. Já sabe que o ECO não aceita subsídios públicos, mas não estamos imunes a uma situação de crise que se reflete na nossa receita. Por isso, o seu contributo é mais relevante neste momento.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

Central de Sines vai fechar? Governo já estuda alternativas para garantir segurança energética do país

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião