Central de Sines não queima carvão há 100 dias. EDP mantém turbinas paradas mas não fecha portas

Desde 14 de março que não se se queima carvão em Portugal para produzir eletricidade. Central da EDP em Sines parou há mais tempo, logo no final de janeiro, mas a elétrica ainda não decidiu encerrar.

Desde 26 de janeiro, pelo menos, o mar está mais frio na praia de São Torpes, na costa vicentina, bem longe das temperaturas tropicais que costuma marcar. A razão está mesmo ali ao lado: há 100 dias seguidos que a central termoelétrica da EDP em Sines está parada sem queimar carvão para produzir energia elétrica, revelou a associação ambientalista Zero com base em dados da REN. Apesar disso, fonte oficial da EDP voltou a garantir que fechar porta não é, para já, uma opção.

O ECO/Capital Verde sabe, no entanto, que a EDP está a estudar o cenário de avançar, já em 2020, com o fecho de dois dos quatro grupos da central a carvão de Sines.

Questionada sobre se os 100 dias de paragem significam que a central de Sines poderá encerrar já este ano ou no próximo, a EDP continua a garantir que não tomou ainda “nenhuma decisão de encerramento e acompanharemos a evolução do mercado para avaliar as perspetivas de geração de cash flow positivo nas nossas centrais a carvão”, disse fonte oficial.

Os dados mais recentes da elétrica (que esta quinta-feira, 7 de maio apresenta os resultados do primeiro trimestre de 2020) mostram que entre janeiro e março a produção de eletricidade a partir do carvão caiu 77% na Península Ibérica, quando no ano passado tinha já recuado 50%. Já o fator médio de utilização das centrais a carvão caiu 32 pontos percentuais, para apenas 34%, em 2019.

“No primeiro trimestre de 2020, as condições de mercado na Península Ibérica levaram a que as centrais de ciclo combinado se mantivessem mais competitivas do que as de carvão (preços baixos de gás natural e preços elevados de CO2 no mercado europeu), pelo que as centrais a carvão não funcionaram no mercado diário. Em Espanha, algumas centrais a carvão operaram neste período, em casos especiais, por necessidade do operador de rede naquele país” acrescentou fonte oficial da EDP.

Portugal livre de carvão há 52 dias

A 14 de março foi a vez da central do Pego, da Trustenergy e da Endesa, desligar as turbinas, resultando num recorde: nos últimos 52 dias Portugal não usou carvão para produzir eletricidade. Tal não acontecia há 35 anos, desde que a central de Sines entrou em funcionamento no país.

Questionado sobre se este cenário pode fazer antecipar as datas de encerramento das centrais a carvão em Portugal já anunciadas pelo Governo para 2021 e 2023 (ano em que ficarão concluídas as novas barragem da Iberdrola no Alto Tâmega), o Ministério do Ambiente e da Ação Climática não avançou previsões.

Contas feitas, diz a Zero, estes quase dois meses sem carvão levaram a uma “redução inédita e sem precedentes das emissões de gases com efeito de estufa em Portugal”: menos um milhão de toneladas de toneladas de dióxido de carbono — mais precisamente 960 mil toneladas (370 mil toneladas em março e 590 mil toneladas em abril). Já as emissões associadas à produção de eletricidade caíram 58%: de 28 mil toneladas por dia em 2019, para apenas 12 mil toneladas este ano.

“A produção de carvão, que já era muito reduzida, foi mesmo nula em abril, o que acontece pela primeira vez desde a existência das atuais centrais a carvão do Pego e Sines”, disse a REN esta terça-feira, numa altura em que se perspetiva o encerramento das duas centrais (em 2021 e 2023, respetivamente).

Na opinião de Pedro Amaral Jorge, presidente da APREN, as centrais as carvão já são hoje “economicamente inviáveis quando comparadas com outras fontes, sobretudo as renováveis”. “Se houver produção renovável suficiente e não se registarem grandes picos de consumo”, Portugal pode a partir de agora prescindir do carvão, argumenta.

Quanto custa uma central a carvão parada?

António Mexia, CEO da EDP, já disse e repetiu que a central de Sines vai continuar a operar “enquanto as margens permitirem”. Na apresentação das contas de 2019, Mexia confirmou que Sines “operou muito menos horas, mas muito menos, em 2019 do que em 2018. É provável que ainda opere menos horas este ano”. E apontou a “imparidade de Sines” (94 milhões de euros) como uma das causas para a queda dos lucros em 2019, ano em que a atividade em Portugal deu prejuízo à EDP.

Em dezembro, a EDP informou que a perda de competitividade das centrais elétricas a carvão teria um custo extraordinário de 300 milhões de euros e um impacto negativo nos resultados de 2019 de 200 milhões de euros. Ainda assim, Mexia mantém a posição: “Se considerássemos que as margens não estavam lá até já tínhamos pedido para que Sines não operasse. Ainda não o fizemos. Consideramos que Sines ainda faz parte desta transição energética. Se não libertar cash, anteciparemos o encerramento”, confirmou em entrevista ao ECO. A decisão pode até não estar ainda tomada, “mas é uma coisa monitorizada de forma permanente”, garante o CEO.

Sobre uma eventual compensação financeira à empresa pelo fecho antecipado da central a carvão, que o Governo já garantiu que não pagará, Mexia afirmou que “o setor da energia não pode ser o único negócio do mundo onde as pessoas são obrigadas a operar e a perder dinheiro”. O CEO da EDP garantiu que a empresa vai respeitar as decisões do Governo em relação ao carvão, mas lembrou que as mesmas “têm custos”.

Em fevereiro, a Comissão Europeia pôs preto no branco uma proposta para Portugal fechar de vez as centrais de Sines e do Pego, oferecendo em troca quase 80 milhões de euros ao país para fazer esta transição. Poderá ser este o “cheque” que falta para a EDP tomar a decisão definitiva de encerrar Sines. De acordo com Bruxelas, as termoelétricas “são as maiores emissoras de gases com efeito de estufa em Portugal”.

Em cima da mesa está assim a proposta relativa ao Fundo de Transição Justa, criado pela Comissão Europeia para apoiar o desmantelamento de indústrias poluentes e a descarbonização de regiões dependentes de combustíveis fósseis, no âmbito do qual deverão ser alocados 79,2 milhões de euros a Portugal (1,1% de um total de 7,5 mil milhões de euros).

Carvão ainda é garantia de segurança energética em Portugal?

Nestes dois últimos meses de março e abril, de acordo com a REN, verificou-se também em Portugal um aumento de 14,5% das renováveis na produção de eletricidade, passando de 62,6% para 77,1%. “As atuais paragens das centrais do Pego e de Sines mostram que é possível a sua retirada do sistema sem pôr em causa a segurança do abastecimento de eletricidade no país. A Zero considera porém que é fundamental realizar os dois investimentos propostos pela REN, nomeadamente na construção de linhas para a região Sul, os quais já se encontram previstos no Plano de Desenvolvimento e Investimento da Rede Nacional de Transporte”, disse a associação.

A alternativa passa, para já, pelas centrais a gás natural (Ribatejo, Pego, Lares e Tapada do Outeiro), que têm permitido substituir o fornecimento de eletricidade das centrais a carvão com menores custo e emissões de carbono. “Os investimentos para a produção de eletricidade a partir de fontes de energia renovável conseguirão assegurar uma fração progressivamente significativa da geração de eletricidade, com custos mais reduzidos para o consumidor e sem emissões diretas de gases de efeito de estufa”, remata a Zero.

De acordo com a análise da Zero, a pandemia de Covid-19 não tem uma relação direta com a paragem das centrais a carvão, “exceto por exemplo na redução do consumo de eletricidade [-12%] mais significativo em abril de 2020”. A saída de cena deste combustível fóssil poluente deve-se, acima de tudo, diz a associação ambientalista “a uma consequência dos preços de mercado do carvão, dos custos associados às emissões — quer via o preço das licenças de emissão de carbono à escala europeia, quer da taxa de carbono e do imposto sobre os produtos petrolíferos [ISP a 50% no carvão] à escala nacional –, e da competitividade e disponibilidade de outras alternativas, em particular da eletricidade de fontes renováveis, mas também das centrais a gás natural que apresentam uma maior eficiência comparativamente às centrais a carvão”.

Em 2019, o carvão apresentou um preço médio de 62 dólares por toneladas, uma queda de 33% face aos 92 dólares de 2018. O mercado prevê para 2020 um valor médio de 61 dólares por tonelada de carvão. Quanto às licenças de emissão de CO2, passaram a custar no ano passado mais 58% (aumentando de uma média de 15,7 euros por tonelada para quase 25 euros, valor que se deve manter em 2020.

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