Crise leva proprietários a baixar rendas. Já há descontos de 10% a quase 20%

Crise está a deixar as famílias com menos rendimentos. Perante esse facto, os proprietários estão a adaptar os preços das rendas às possibilidades financeiras do mercado. Já se notam descidas de 12%.

A crise está a afetar o imobiliário e o setor já antecipa descidas dos preços das casas nos próximos meses. Estas são boas notícias para quem quer comprar casa, mas também para quem quer arrendar. E esses “descontos” já estão à vista. Nas várias imobiliárias e plataformas, as rendas pedidas já são mais baixas, com as descidas a superarem os 10%. Isto porque o rendimento disponível das famílias vai ficar mais reduzido e os proprietários reconhecem que baixar as rendas é das poucas alternativas que têm para conseguir dar a volta a esta crise.

“Dos proprietários com quem tenho falado, todos já perceberam que as rendas vão baixar. E vão baixar nas casas que já estão para arrendar, mas também nas casas que ainda estão por arrendar”, diz ao ECO João Caiado Guerreiro, presidente da Associação Portuguesa de Proprietários (APPROP). Dos mais de dez mil proprietários associados da APPROP, muitos já tomaram a iniciativa de negociar as rendas com os inquilinos. Há senhorios não habitacionais a praticar reduções de 80% e 90%, enquanto nos imóveis habitacionais as reduções são mais baixas. Mas, de um modo geral, “os proprietários são pessoas razoáveis”, diz o presidente da associação.

Mas a iniciativa de baixar o valor das rendas não parte só de quem já tem os imóveis arrendados. Os senhorios que procuram inquilinos também optam pelo mesmo caminho. E isso já é notório nos anúncios de casas para arrendar. Uma pesquisa pelo portal Idealista mostra vários exemplos, assim como este, um apartamento T2 para arrendar na Misericórdia, cuja renda passou de 1.100 para 950 euros. Ou seja, uma redução de 14%. Ou este T1 em Belém, que antes estava disponível por 1.200 e agora está por 1.000 euros por mês, menos 17%.

Mais a norte, no Porto, embora menos, também se encontram “descontos”. Um T2 na freguesia de Paranhos estava para arrendar por 1.200 euros por mês, mas está agora por 1.000 euros, ou seja, menos 17%. Enquanto isso, outro T2 em Nevogilde viu a renda baixar de 1.200 para 1.060 euros, menos 12%. O mesmo se observa em Coimbra: um T3 na Adémia passou de 600 para 500 euros de renda (-17%) e este T3 na Pedrulha baixou 9% para 500 euros.

Comparando o período entre 15 de fevereiro e 15 de março com o mês de abril, os novos imóveis que entraram [no site] para arrendamento estão 12% mais baratos.

António Marques

Diretor Comercial do Idealista

Em declarações ao ECO, o diretor comercial do Idealista explica, com base nos anúncios publicados na plataforma, que esta é uma tendência que se alastra a praticamente todas as zonas do país. “Comparando o período entre 15 de fevereiro e 15 de março com o mês de abril, os novos imóveis que entraram [no site] para arrendamento estão 12% mais baratos”, detalhou António Marques, salientando que no mercado de venda, a tendência é oposta. “Os imóveis que entraram estão 15% mais caros”, referiu, explicando que se trata de construção nova que ainda não estava no mercado.

Na Century21 (C21) também se regista a mesma tendência. Cerca de 30% das casas anunciadas na imobiliária tiveram uma redução nas rendas. “Os proprietários já atualizaram os preços. Foram reduções de 12%”, indica o CEO da C21, em declarações ao ECO. Já no mercado de venda de casa, diz Ricardo Sousa, “só 6% dos imóveis tiveram redução de preço e as descidas foram entre os 6% e os 8%, em média”. “No mercado de arrendamento há uma realidade diferente. É um mercado mais elástico e mais reativo a estes acontecimentos de curto prazo”, enquanto no mercado de venda os “proprietários estão a demonstrar confiança e não estão a alterar preços”.

Os dados recolhidos pela C21 permitem perceber as descidas de preços em Lisboa e no Porto. Na capital, em março e abril, 30% dos imóveis que estavam anunciados no site da C21 viram as rendas baixar, em média, 12%. Já no Porto, apenas 9% dos imóveis ficaram com rendas mais baratas. Contudo, em compensação, a descida média foi de 18%. “Em Lisboa, o mercado de arrendamento está claramente a reagir mais. No Porto, o impacto é marginal, o mercado está mais estável no segmento do arrendamento, mas na Invicta os preços também estavam mais alinhados com o poder de compra das famílias, nesta região”, explica Ricardo Sousa.

Os proprietários têm de reagir mais rapidamente, porque quem está no mercado para arrendar casa está a ver o seu rendimento disponível diminuir e está com mais receio quanto ao futuro.

Ricardo Sousa

CEO da Century21 Portugal

Para o CEO da C21, esta descida das rendas está a acontecer por vários motivos, um em especial. “Os proprietários têm de reagir mais rapidamente, porque quem está no mercado para arrendar casa está a ver o seu rendimento disponível diminuir e está com mais receio quanto ao futuro”, explica Ricardo Sousa, notando que quem procura uma casa para arrendar está numa “fase de transição da vida” em que “a capacidade económica é mais limitada”. Isto acaba por levar o proprietário a “ajustar-se para conseguir colocar as suas casas no mercado com mais facilidade e melhores inquilinos”.

Mas, ainda assim, houve quem não notasse qualquer alteração nos preços praticados. “Nós, Remax Portugal, notamos que ainda não há descidas de preços nem em arrendamentos, nem de venda”, disse fonte oficial da imobiliária ao ECO. Isto porque a empresa liderada por Beatriz Rubio comparou os preços praticados em abril do ano passado e em abril deste ano em todo o país e em Lisboa e verificou que “em determinadas tipologias e zonas os preços diminuíram, já noutras os preços registaram um aumento”.

Crise no alojamento local também traz rendas mais baixas

Estas descidas das rendas também acontecem devido a situações relacionadas com o alojamento local, apontam os especialistas. Isto porque, com a quebra acentuada do turismo, estes proprietários estão a recorrer a outras formas de rentabilizarem os seus imóveis, tal como já tinha noticiado o ECO.

No Idealista, António Marques dá conta da entrada de “muitos imóveis que estavam em alojamento local, especialmente em Lisboa e no Porto” e que começaram a ser anunciados nestas plataformas. “Muitos imóveis que estão a entrar [no site] vêm de alojamento local. Há várias empresas que começaram a praticar alojamento local de longa duração. É uma tendência que está a acontecer”, diz o diretor comercial.

E Ricardo Sousa, da C21, confirma essa tendência. “Muitos dos pequenos proprietários que estavam no alojamento local estão a transitar para o arrendamento de longa duração. Este movimento é positivo porque acaba por criar mais oferta e oferta mais ajustada ao poder de compra e de arrendamento” de quem está à procura de casa.

E mesmo sem ter notado uma tendência de descida nas rendas, a Remax admite que, no caso do alojamento local, poderá haver alguma influência. “Pontualmente, a entrada de alguns imóveis vindos do alojamento local poderá reduzir alguns preços, mas até existir uma massificação dessa hipótese, ainda não dispomos de dados conclusivos”, disse fonte oficial da imobiliária.

Há proprietários que “vão preferir não arrendar e vender o imóvel”

Da parte da APPROP, João Caiado Guerreiro vai ainda mais longe e diz mesmo que “muitos proprietários vão preferir não arrendar e vender o imóvel”. E aponta o dedo ao Governo e às medidas que têm sido tomadas e que têm prejudicado o mercado de arrendamento. “Os senhorios não são a Segurança Social. E esta decisão violenta de fazer dos senhorios a Segurança Social” tem consequências, diz o presidente da associação ao ECO. “O Governo tem estado sempre contra os proprietários”, afirma, criticando os recentes apoios às rendas criados pelo Executivo, como as moratórias e os empréstimos. Medidas que, diz, são “pensadas em cima do joelho”.

Sobre as moratórias nas rendas, que permitem aos inquilinos com perda de rendimentos adiarem estes pagamentos, João Caiado Guerreiro nota que “quem não consegue pagar a renda agora, não vai ser daqui a seis meses que a vai conseguir pagar”. Já sobre os empréstimos concedidos pelo Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), o advogado diz que os associados da APPROP não têm demonstrado muito interesse. “É melhor passar mal. Vão meter-se numa situação pior”, diz. Estes empréstimos estão disponíveis para inquilinos, mas também para senhorios que percam mais de 20% dos seus rendimentos devido à perda de rendas. Contudo, os números adiantados pelo IHRU confirmam a visão do presidente da APPROP. Em duas semanas, foram recebidos 1.144 pedidos de empréstimos, dos quais apenas seis vieram de senhorios.

Estou certo de que vamos observar uma redução muito significativa do valor das rendas. Mas o Governo tem tomado muitas decisões para destruir o mercado de arrendamento.

João Caiado Guerreiro

Presidente da Associação Portuguesa de Proprietários (APPROP)

Neste sentido, João Caiado Guerreiro defende que Portugal podia “copiar” as medidas adotadas por outros países da Europa e afirma que “se o dinheiro da Segurança Social fosse bem gasto não havia um problema destes”. Porque, justifica, estas medidas do Governo estão a “empobrecer dramaticamente uma parte significativa da população” e vão “destruir o mercado de arrendamento”.

Ainda assim, o presidente da APPROP diz estar “certo de que se irá observar uma redução muito significativa do valor das rendas” mas que, por outro lado, “haverá menos casas disponíveis no mercado”. Por quanto tempo? Essa é a grande questão. O diretor comercial do Idealista diz que vai depender da retoma do mercado e, principalmente do turismo. Já o CEO da C21 está confiante de que as descidas nas rendas é um cenário “inevitável” e que vai “marcar claramente o ano de 2020”.

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