“Há uma cerca sanitária à volta dos senhorios”. Lojistas pedem intervenção do Estado

A associação que representa os lojistas dos centros comerciais continua a pedir medidas para compensar o tempo em que as lojas estiveram fechadas e, desta vez, pede a intervenção do Estado.

Os lojistas dos centros comerciais continuam a pedir medidas de apoio, nomeadamente ao nível das rendas, para compensar as quebras na faturação durante o tempo em que estiveram encerrados. Desta vez recorreram ao Parlamento para se fazerem ouvir, onde voltaram a sublinhar a necessidade de existir uma “partilha de sacrifícios” entre senhorios e lojistas. Referindo que “já não é possível manter mais diálogo” com os proprietários, a associação que representa os lojistas diz que a única forma de resolver o problema passa pela intervenção do Estado.

“Em julho vai começar uma pequena desgraça”, começou por dizer Miguel Pina Martins, um dos fundadores da recente Associação de Marcas de Retalho e Restauração (AMRR), durante uma audição na Comissão de Economia Inovação Obras Públicas e Habitação. O também CEO da Science4You referiu o “problema da retoma” que se vai sentir após a reabertura de portas dos centros comerciais e com os custos com o pessoal que têm de ser suportados.

As críticas da associação aos proprietários dos centros comerciais não são de agora, com os lojistas a acusá-los de “falta de solidariedade”. Esta quarta-feira, Miguel Pina Martins sublinhou que “a partilha de sacrifícios é zero”, no que diz respeito às rendas, afirmando mesmo que “há uma cerca sanitária à volta dos senhorios, em quem não se toca” e que estes “vão receber por inteiro”. “Há uma disparidade de custos atirados para os arrendatários e lojistas, mas não para os senhorios”, completou.

Há dias, a Associação Portuguesa de Centros Comerciais (APCC) veio pedir medidas de apoio aos proprietários, justificando com os “investimentos significativos” e os “custos de operação elevados”. Sobre estas declarações, Paulo Andrez, outro dos fundadores da associação que representa os lojistas, reconheceu que os shoppings “estão a fazer grandes sacrifícios e investimento, mas na realidade esses custos são todos imputados” às lojas.

“Na realidade não há um grande sacrifício por parte do senhorio”, reiterou o também presidente da Toys R Us Iberia, explicando que “o condomínio é que lhes paga e esse condomínio está a ser debitado aos lojistas”. Paulo Andrez referiu ainda que nunca houve realmente um fecho dos centros comerciais, porque os supermercados continuavam abertos. “E essas despesas comuns, (que se estivessem realmente encerrados andariam nos 10%) que foram de 70% ou 80%, foram os lojistas que estiveram fechados e a subsidiar o retalho alimentar”, afirmou.

“Lojistas estão completamente ao abandono e sob pressão psicológica”

O fundador da associação foi ainda mais longe e falou em casos de “bullying”. Os centros comerciais dizem que perdoaram as rendas. É verdade. Mas não foi um perdão”, começou por explicar Paulo Andrez, para depois admitir que “há casos em que perdoaram 50% das rendas, desde que [os lojistas] assinem um contrato de renovação de cinco anos, nas mesmas condições”.

E continuou: “É justo que nos deem 50% das rendas durante dois meses e meio, mas a termos de assinar um contrato de cinco anos, com condições que não se alteram, e a proibirem-nos de irmos a tribunal? Há um abuso claro dos centros comerciais“, acusou. “Os lojistas estão completamente ao abandono, sob pressão psicológica e bullying”.

“Só há uma forma: tem de haver intervenção do Estado”

Assim, na visão desta associação, a melhor solução passa pela aplicação de uma moratória de seis meses na renda, tal como já tinha referido Miguel Pina Martins ao ECO. Até ao momento, há centros comerciais que optaram pelo diferimento de três meses de renda, como a Sonae Sierra e a Square Asset Management, outros perdoaram mesmo as rendas durante o período de encerramento, como a Merlin Properties, a Mundicenter e a Ingka.

O ECO questionou a associação que representa os centros comerciais sobre estas acusações, ao que esta respondeu que “enquanto interlocutor deste setor em Portugal, não se revê nas acusações (…) por não se enquadrarem no perfil” dos seus associados. “A APCC congrega um total de 93 conjuntos comerciais, que representam 8.600 lojas, com as quais mantém uma postura de cooperação e diálogo permanente, no sentido de encontrar soluções equilibradas, com a finalidade de assegurar a sustentabilidade dos negócios dos seus centros comerciais e das operações dos respetivos lojistas”.

Os lojistas admitem outras alternativas, mas apenas para os “senhorios pobres”. Uma delas passa pela suspensão, durante dois anos, da taxa deliberatória de 28% aplicada aos proprietários de centros comerciais. “Isso teria um efeito semelhante a estar os tais seis meses sem pagar renda e para o senhorio pobre não tem nenhum impacto”, explicou Paulo Andrez. Outra alternativa seria a criação de um fundo — como os empréstimos cedidos pelo Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IRHU).

Mas, como referiu o presidente da Toys R Us Iberia, “não é possível manter mais diálogo”, até porque 80% dos proprietários dos centros comerciais no país são fundos de investimento internacionais, e os lojistas dizem não ter interlocutor. “Só há uma forma: o Parlamento legislar para toda a gente seguir a lei. Não temos interlocutor e tem de haver intervenção do Estado”, afirmou Paulo Andrez.

Os centros comerciais em território nacional reabriram portas esta segunda-feira, naquela que é a terceira fase de desconfinamento, contudo, de fora ficaram aqueles localizados na região de Lisboa, devido ao elevado número que casos de coronavírus que se tem registado. Assim, os centros comerciais da capital têm abertura marcada apenas para esta sexta-feira, 5 de junho, mas só amanhã é que o Governo vai avaliar essa decisão.

(Notícia atualizada com a reação da APCC)

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