Montanha russa no petróleo. Passou de -40 a 40 dólares em apenas dois meses

Cortes na oferta pelos maiores produtores e o impacto do desconfinamento na procura estão a impulsionar os preços. Mercado parece ter esquecido dia histórico em que barril valeu menos de zero dólares.

Em dois meses, o petróleo recuperou do episódio inédito de cotar em valores negativos e negoceia próximo do preço que tinha antes da pandemia. A montanha russa levou o barril de -40 dólares a 40 dólares, mas a recuperação ainda não é certa e vai depender da retoma da aviação.

A 20 de abril, o mercado petrolífero viveu um dia histórico. Pela primeira vez, o barril de bruto norte-americano West Texas Intermediate (WTI) negociou em terreno negativo. A matéria-prima afundou mais de 300% e tocou o mínimo recorde de -40,03 dólares.

O acontecimento foi causado por uma combinação inédita de fatores: uma guerra de preços entre os produtores Rússia e Arábia Saudita por não se entenderem quanto à estratégia de resposta ao vírus, a par do efeito do bloqueio induzido pela pandemia nas economias. Com confinamento a gerar uma quebra sem precedentes na procura por combustíveis, o excedente disparou e a capacidade de armazenamento afundou.

A um dia de os contratos de maio atingirem a maturidade, os investidores desesperavam por vender os ativos. Ao ponto, de pagarem para que alguém ficasse com aquele petróleo. Como o efeito foi exacerbado pelo fim do prazo destes contratos, foi também momentâneo. Em apenas dois dias, o crude WTI voltou a negociar em valores positivos e o brent transacionado em Londres voltava a ultrapassar a barreira dos dez dólares por barril.

"À medida que nos aproximamos do próximo ano, acreditamos que a procura do setor dos transportes poderá recuperar a um ritmo mais rápido do que inicialmente previsto.”

Bank of America

Além da mudança dos contratos, os principais produtores de petróleo do mundo (da OPEP+) realinharam a estratégia e acordaram cortar a produção em 9,7 milhões de barris por dia. A estratégia entrou em vigor no início do mês, dando fôlego ao mercado e juntando-se ao entusiasmo gerado pelas primeiras medidas de desconfinamento.

“À medida que nos aproximamos do próximo ano, acreditamos que a procura do setor dos transportes poderá recuperar a um ritmo mais rápido do que inicialmente previsto”, dizem os analistas do Bank of America, numa nota de research a que a Reuters teve acesso, em que reveem em alta a projeção para o preço do petróleo.

O banco de investimento antecipa que a média do preço do WTI se situe nos 39,70 dólares por barril este ano, contra a anterior projeção de 32 dólares. Em 2021, antecipa uma recuperação até aos 47 dólares por barril e, em 2022, para 50 dólares. Já no que diz respeito ao brent de Londres, espera que o preço médio fique em 43,70 por barril este ano (face à anterior estimativa de 37 dólares), 50 dólares em 2021 e 55 dólares em 2022. O valor compara com os 43 dólares a que negoceia o barril de brent atualmente.

Barril de crude WTI já vale 40 dólares

Fonte: Reuters

O valor da matéria-prima tem conseguido suporte na estratégia dos produtores: os 23 países da OPEP+ cumpriram o pacto em mais de 90% no primeiro mês e já sinalizaram que poderão prolongar os cortes. Em simultâneo, as economias começam a reabrir, dando impulso à recuperação da procura por combustíveis.

A Agência Internacional da Energia (AIE) já vê, no horizonte, a recuperação. Nas primeiras previsões para 2021, a AIE prevê um salto sem precedentes de 5,7 milhões de barris por dia da procura mundial em relação a 2020. Apesar da recuperação esperada, os 97,4 milhões de barris por dia projetados colocam a procura mundial ainda 2,4 milhões de barris por dia abaixo do nível de 2019, “principalmente devido à atual fraca procura de combustível para reatores e querosene”.

Se as tendências recentes da produção se mantiverem e a procura recuperar, o mercado estará mais estável no final do segundo semestre do ano. No entanto, as enormes incertezas não devem ser subestimadas”, avisou a agência, apontando para a “crise existencial” que o setor da aviação vive.

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