Patrões preocupados com fatura do hidrogénio verde para as empresas

"A CIP não está nada descansada quando ao equilíbrio dos custos da estratégia nacional para o hidrogénio", disse Jaime Braga. O Governo anunciou a realização de "futuros leilões de hidrogénio"

A Confederação Empresarial de Portugal não está confortável nem “descansada” com o conteúdo do documento da Estratégia Nacional para o Hidrogénio que está neste momento em consulta pública e que até meados de julho será alvo dos comentários por parte dos vários setores envolvidos. As preocupações foram levantadas por Jaime Braga, assessor da direção da CIP para as áreas de Ambiente e Energia, na terceira sessão de esclarecimento promovida pelo Governo, esta quarta-feira, e dedicada à indústria.

“Não houve uma negação da estratégia. Há muitas interrogações sobre o impacto financeiro” dos projetos relacionados com o hidrogénio, frisou Jaime Braga, sublinhando que “a proposta de estratégia nacional não deixa a CIP nada descansada”. Sobretudo porque a mesma será financiada sobretudo pelo Fundo Ambiental, que por seu lado “é alimentado pela indústria” via pagamento das emissões de carbono. “Primeiro vamos dar com uma mão, para depois receber com a outra”, disse o responsável lembrando que “o hidrogénio é uma matéria-prima da indústria”.

É preciso clarificar “o que são fundos europeus e o que são fundos nacionais”, disse Jaime Braga.

Em resposta, no final da sessão, o secretário de Estado da Energia, João Galamba, reconheceu que “sim, o preço do hidrogénio é hoje muito maior do que o do gás natural”, mas lembrou outro custo importante na ótica do Governo: “O hidrogénio pode ser caro, pode haver incertezas tecnológicas. Mas há um elemento que é o custo de não fazer nada” em prol da descarbonização da economia e suportar multas pesadas da União Europeia no futuro. “As metas existem e a estratégia nacional de hidrogénio existe para as fazer cumprir, como alternativa à eletrificação para a descarbonização”, disse Galamba.

Ao seu lado, Jerónimo Meira da Cunha, conselheiro do secretário de Estado da Energia, também foi pondo água na fervura, e lembrou que em vez dos 80 milhões iniciais do Fundo de Transição Justa da Comissão Europeia (para pôr fim ao carvão), Portugal vai agora receber mais de 400 milhões de euros, vocacionados sobretudo para a descarbonização da indústria. Meira da Cunha falou também em “futuros leilões de hidrogénio, que terão em conta as preocupações das empresas” e poderão mesmo vir a beneficiá-las. Sobre o preço do hidrogénio, disse ainda não deverá ser um encargo para os consumidores e garantiu a “paridade” de valor com o gás natural a curto prazo.

José Sousa, da Efacec, defendeu que o hidrogénio é uma “oportunidade única para criar valor”, mas também se mostrou preocupado com a disparidade entre “Capex e Opex. O número não fecha. É preciso um empurrão e tem de haver subsídios a fundo perdido”. Paulo Rocha, da Cimpor, falou dos “níveis avultados de investimento no hidrogénio como um risco para setor”, sendo que a estratégia nacional também não deve ser “encargo para consumidores”.

Álvaro Alvarez, do grupo Megasa, espera que “o hidrogénio não faça desfocar de outros projetos de eficiência energética e descarbonização”. Da Renova, António Andrade Tavares, questionou o Governo sobre o preço futuro do hidrogénio e da sua combinação com o gás natural na rede nacional. “Não vi este valor na estratégia. Quanto custaria esse gás? Sem um número certo não podemos ainda avaliar”. A. Silva Matos – Metalomecânica, Altri, Bondalti, Central de Cervejas, Vista Alegre, Martifer, Smartenergy, Renova, Solvay, Super Bock Group e Ultimate Power foram outras empresas que participaram na sessão dedicada à indústria.

Fazendo ecoar a visão do tecido empresarial, Jaime Braga, assessor da direção da CIP, assumiu-se como uma voz bastante crítica, e até “pouco simpática”, e voltou a repetir, depois de ter ouvido as intervenções de muitas empresas na sessão online promovida pelo Ministério do Ambiente e da Ação Climática: “A CIP não está nada descansada quando ao equilíbrio dos custos da estratégia nacional para o hidrogénio. Se o financiamento entra por um lado, já teve de sair por outro. A indústria terá sempre um balanço negativo nesta equação”.

Além da parte financeira, deixou avisos sobre os perigos do uso não profissional do hidrogénio, defendendo a formação profissional neste campo e desaconselhando o “amadorismo de particulares e empresas”. Outro risco do hidrogénio, defende, passa pela “armadilha de poupar nas emissões de CO2, mas aumentar a emissão de outros gases poluentes”. Para o responsável da CIP, em vez de o Governo apostar todas as fichas no hidrogénio seria ideal haver um maior equilíbrio entre a eletrificação e os combustíveis de origem renovável.

A CIP alertou também sobre a escassez de água (indispensável para a produção de hidrogénio por eletrólise) e para os custos elevados do eventual tratamento da água do mar.

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