Rent-a-car baixa preços para sobreviver e é cada vez mais “last minute”

CEO da Hertz Hertz Portugal defende que vai ser preciso continuar a apoiar as empresas e que é de esperar uma onda de falências. Mas Duarte Guedes garante que já se sente uma retoma, embora lenta.

A pandemia, o confinamento e a lenta retoma do turismo fazem de 2020 um ano perdido para o negócio da Hertz. Com uma perda de 50% do volume de negócios, Duarte Guedes conta ao ECO que a solução foi ajustar a frota, mas também os preços. E como as orientações dos países estão sempre a mudar, o negócio que já tinha um cariz de last minute, tornou-se ainda mais last minute.

Os meses piores foram abril e maio, com quebras de faturação de 88% e 85%, respetivamente, o que se traduz numa perda acumulada do ano de 50%, calcula o presidente executivo da Hertz Portugal, na nova rubrica do ECO, chamada “Dar a Volta ao Turismo”. “É um ano perdido”, sublinha, mas nem tudo é negativo porque já “há retoma”.

É uma retoma lenta, mas já há retoma, com a receita um pouco atrás do volume de negócios, com o fator preços a sofrer”, afirma. O modelo de negócio do rent-a-car tem “uma vantagem”, já que permite fazer um ajustamento mais rápido, ao reduzir a frota automóvel. A Hertz Portugal não foi a tempo de o fazer em março, para responder à esperada procura da Páscoa, mas já foi possível fazê-lo no verão. Assim, a frota foi reduzida a metade e isso permite à empresa “entrar em 2021 com a frota ajustada”.

Por agora, os níveis de ocupação são “bastante aceitáveis”, garante Duarte Guedes, mas os preços tiveram de baixar um pouco.

Mas a incerteza é muito grande. Com os países a alterarem sistematicamente as suas orientações em termos de abertura de corredores aéreos, o negócio que “já era last minute agora ficou ainda last minute“. Duarte Guedes não inveja o trabalho diplomático que as autoridades nacionais têm vindo a desenvolver e, apesar de admitir que possam existir alguns problemas ao nível de saúde pública, diz que “colocar Portugal ao nível da Suécia, e pior do que Itália e Espanha, onde as coisas de descontrolaram como nunca aconteceu em Portugal.” não é correto.

“Há um jogo de narrativa. Não podemos ser ingénuos”, frisa, pedindo às “autoridades para fazerem o seu trabalho” para dominarem essa “narrativa que tem um impacto económico muito sério”.

E para contrariar esse impacto, as medidas de apoio económico têm sido fundamentais, desde as moratórias, passando pelos diferimentos fiscais e pelo lay-off. A empresa tem vindo, sucessivamente, a renovar o lay-off simplificado e agora está “a fazer contas” para ver qual será o passo seguinte. [A conversa com Duarte Guedes foi gravada a 20 de julho quando ainda não estava decidido qual seria o desenho final deste apoio]

Mas de uma coisa Duarte Guedes tem certeza: vai ser preciso continuar a apoiar as empresas. “‘Não tivemos uma guerra e os equipamentos turísticos estão todos disponíveis’ é um argumento que costuma ser dado. Mas quando a retoma chegar podem estar os equipamentos, mas não as empresas que os operam”, alerta. “Há que arranjar uma ponte para aguentar isto tudo. As ajudas foram positivas mas não podem parar no fim de julho“, frisa.

Para o presidente executivo da Hertz é “bastante provável” que haja uma onda de falências: “Quando as ajudas acabarem, seguramente. Tenho relatos que essas insolvências já começaram” e não vai ser só em Portugal.

De facto, a Hertz nos Estados Unidos já recorreu ao designado capítulo 11 da lei da bancarrota, ao fim de mais de um século de existência, e isso tem naturalmente tem impacto deste lado do Oceano Atlântico. Ainda que já haja um grau de autonomia bastante elevado face à ‘casa mãe’, o efeito sente-se sempre, nem que seja a nível reputacional e por haver sistemas partilhados.

“Somos um franchise que pertence ao grupo Hipogest, de um empresário português com capital português. Há 22 anos comprámos a operação à Hertz Internacional e temos um modelo de negócio separado. Somos nós que decidimos que carros compramos, como os compramos, que preços fazemos para o nosso mercado”, explica Duarte Guedes. Com o processo de falência, semelhante ao Processo Especial de Revitalização (PER), a Hertz Internacional “pretende reorganizar a empresa e chegar a acordo com os credores para ter uma nova vida”, explica.

E para dar a volta ao turismo? A solução está em primeiro lugar controlar a saúde pública, a narrativa negativa que é feita contra Portugal, apostar no teletrabalho, nas estadias prologadas e no interior, defende. Elogiando o trabalho que o Turismo de Portugal tem vindo a desenvolver, o responsável defende que é necessário dar uma especial atenção aos mercados brasileiro e norte-americano. “Focar-nos nestes dois mercados, quando foi possível, e onde a TAP foi fundamental. Tenho uma grande preocupação no futuro da TAP, porque estes mercados emissores têm um grande valor acrescentado”, explica.

E com uma pandemia que exige distanciamento social, o CEO da Hertz Portugal defende que “é uma excelente altura para nos focarmos no interior do país e na grande parte da costa por desbravar” que Portugal tem, assim como sublinhar a qualidade dos equipamentos hospitalares que “tranquiliza os viajantes”. Além disso, com tantos profissionais em regime de teletrabalho, e com as boas comunicações que o país tem, a “aposta nas estadias mais longas” seria um caminho a seguir.


O ECO arrancou em julho com uma rubrica nova chamada “Dar a Volta ao Turismo“, em que entrevista empresários e governantes do setor para perceber os impactos que a pandemia trouxe para o turismo e de que maneira se poderá dar a volta por cima.

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