Banca usa cashback para roubar clientes do crédito à habitação

Guerra por captar clientes para o crédito da casa está a ditar estratégias mais sofisticadas na banca. Até já vale usar sistemas semelhantes aos cashbacks dos cartões nas transferências de créditos.

A banca voltou a intensificar a guerra para captar mais clientes para o seu crédito à habitação. Após quebrada em baixa a barreira de 1% nos spreads mínimos dos empréstimos da casa, algo que não era visto há uma década, intensifica-se também a aposta no “roubo” de clientes à concorrência. O suporte dos encargos para a transferência de empréstimos da casa voltou a ganhar força entre os bancos, mas as “armas” usadas estão a tornar-se mais sofisticadas. Chegam a estratégias semelhantes às dos cashback dos cartões de crédito.

O Banco Montepio é só mais um a entrar numa “guerra” em que já existem muitos bancos: a de captar novos clientes do crédito à habitação junto de outras instituições financeiras. É o mais recente, mas também o que adota a estratégia mais “agressiva”, indo além do que habitualmente se faz nestas operações. Como? Acenando com “dinheiro” em troca do crédito.

A instituição financeira liderada por Pedro Leitão acaba de lançar uma campanha em que se dispõe a oferecer ao cliente o equivalente a 1% do valor do crédito à habitação contratado num cartão para ser utilizado na Worten. Ou seja, a título de exemplo, se transferir um financiamento de 120 mil euros, vai receber um vale de 1.200 euros para gastar na loja da Sonae.

Além de recorrer ao modelo de cashback, ou seja, a devolução ao cliente de uma parcela do valor da operação, também faz o que muitos outros fazem: suporta os custos específicos associados às transferências, nomeadamente, pela amortização antecipada do crédito.

É isso que estão a fazer bancos como o BPI, Santander, Bankinter o Banco CTT e o Abanca. Questionados pelo ECO sobre campanhas do género, CGD, BCP e Crédito Agrícola não responderam atempadamente, enquanto o Novo Banco e o Eurobic disseram não estar a levar a cabo nenhuma campanha de promoção de transferências do crédito à habitação.

O Abanca faz o mesmo que o Montepio, mas o seu o foco não é o crédito, mas sim os investimentos. Está a “seduzir” novos clientes a transferirem ativos depositados noutras instituições prometendo-lhes uma devolução de 1% na conta, desde que invistam a totalidade ou parte num ou mais produtos que tem em campanha. O valor mínimo a transferir são 15 mil euros.

Um déjà vu da anterior crise

Aquilo que se está a assistir no crédito à habitação trata-se de um regresso ao passado, até antes ainda da crise financeira, altura em que os bancos se digladiavam por capturar o máximo de clientes possível para as suas soluções de financiamento. E a justificação para o que se passa atualmente não será muito diferente, apesar de o volume de concessão de crédito à habitação se manter em níveis elevados em plena pandemia.

Num contexto de juros historicamente baixos, a palavra de ordem para os bancos é de libertarem dinheiro na economia, sendo que o crédito à habitação constitui atualmente uma das melhores fontes de retornos para o setor.

“Este produto tem duas características muito importantes para os bancos. Primeiro porque tem uma rentabilidade certa bastante significativa, não muitas vezes pela própria taxa em si, mas mais pela forma como os produtos associados — seguros e produtos de cross-selling — que são vendidos junto com o crédito. Em segundo lugar porque é um produto que fideliza o cliente ao banco durante muitos anos“, dizia recentemente ao ECO Nuno Rico, economista da Deco Proteste.

Poupanças podem chegar aos milhares

Se os bancos ganham em “roubar” clientes à concorrência, também os clientes podem procurar tirar partido disso, o que é válido sobretudo no caso do crédito à habitação. Transferir o crédito é uma oportunidade para conseguirem fazer baixar os custos do financiamento para a compra de casa, sobretudo para aqueles clientes que os contrataram com spreads mais altos. Em particular no período anterior a 2018, ou seja, antes de os bancos terem intensificado o rumo descendente dos spreads até aos valores mínimos atuais que cabem no intervalo entre 0,95% e 1,25%.

Spreads mínimos em dez bancos

“Neste momento, em que o dinheiro está mais barato, já é possível conseguir spreads próximos de 1%. A conjuntura atual, de juros historicamente baixos e de grande concorrência no setor, leva a que os bancos apresentem melhores condições de financiamento. E isto não se aplica apenas para quem vai fazer um crédito habitação pela primeira vez, mas também para os que procuram transferir o seu crédito para conseguir acompanhar a evolução do mercado, conseguindo assim poupar milhares de euros no final do contrato“, justifica Rui Bairrada, diretor executivo da Doutor Finanças, empresa especializada em finanças pessoais.

Neste contexto, a “comparticipação” dos custos de transferência também constitui um alívio na carteira dos clientes e um incentivo suplementar a mudarem o crédito de banco.

As regras determinam a cobrança por parte do banco de origem de uma comissão de até 0,5% do valor do capital a transferir, no caso do crédito de taxa variável, o tipo de financiamento em que os bancos estão a focar as suas atenções nas campanhas de transferência. Assumindo o exemplo de um crédito em que ainda falta abater 50 mil euros de capital, o custo da mudança poderá chegar até aos 250 euros no caso da taxa variável.

Mas os clientes não devem focar as suas atenções só nos spreads mais baixos e nas isenções de comissões nas transferência do crédito. Há também que olhar para as condições como um todo, nomeadamente se não implicam a adesão a produtos cujo custo pode tornar o crédito mais caro face à origem.

O que têm os bancos a oferecer nas transferências do crédito?

  • BPI cobre custos da transferência, mas isenções vão mais longe

O BPI suporta os custos pela transferência do crédito com origem noutro banco, para propostas aprovadas até 30 de setembro e contratadas até ao final deste ano. Nas despesas abrangidas estão a comissão de dossiê, de avaliação e preparação de minutas e despesas relativas ao Documento Particular Autenticado. Inclui ainda a comissão de amortização antecipada total a liquidar junto da outra instituição de crédito, com o limite máximo de 0,5% do valor a transferir.

  • Santander suporta todos os custos das transferências

Também o Santander confirma ter em vigor uma campanha de intensivo às transferências do crédito da casa. “São suportados os custos associados ao processo de transferência do crédito habitação dos empréstimo com taxa de juro variável”, confirmou fonte oficial da instituição.

  • Montepio assume custo de transferência e dá cashback

O Banco Montepio devolve ao cliente o equivalente a 1% do valor do crédito à habitação contratado num cartão para poder ser utilizado na Worten, bem como suporta os custos específicos associados à amortização antecipada nas transferências do crédito, correspondente a 0,5% do capital transferido. Ao abrigo desta campanha válida até ao final do ano, o banco oferece ainda um spread mínimo de 1,1%, inferior aos 1,175% que vigoravam até agora.

  • Bankinter suporta custo da transferência

O Bankinter reembolsa ao cliente o total dos custos de transferências de créditos de taxa variável com origem noutras instituições financeiras. Ou seja, pressupõe assim devolver os 0,5% habitualmente exigidos nestes processos de transferência pela instituição de origem. Esta campanha é válida para propostas aprovadas até 30 de setembro e contratadas até ao final deste ano.

  • Banco CTT assume 0,5%. Créditos mais altos com mais vantagens

“Mude o crédito habitação para o Banco CTT e pagamos a sua transferência”, é o mote da campanha que o banco tem no seu site. O Banco CTT assume sempre 0,5% do montante do crédito transferido, em financiamentos acima de 50 mil euros. Compromete-se ainda a reembolsar as comissões de abertura de processo e formalização, após contratação do crédito. Em créditos com capital acima de 100 mil euros, o banco assume ainda as despesas de avaliação do imóvel e paga os custos notariais com a formalização do crédito (escritura). Todas estas condições são válidas para transferências formalizadas até ao final desde ano em modelo de Documento Particular Autenticado.

  • Abanca “comparticipa” 0,5% do capital em dívida

O Abanca confirma que também tem uma campanha de incentivo à transferência de crédito à habitação com origem noutros bancos. “Através desta campanha, os clientes que transfiram Créditos Habitação Própria Permanente, Secundária ou para Arrendamento para o Abanca beneficiam de uma comparticipação de 0,5% do seu capital em dívida”, explica o banco.

(Notícia atualizada às 10h59 com informação sobre a oferta do Abanca)

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