Portugal e Holanda selam aliança para o hidrogénio verde, com Alemanha na mira

Os dois países formalizaram finalmente o acordo para o "desenvolvimento de uma cadeia de valor estratégica de exportação-importação, garantindo a produção e o transporte de hidrogénio verde".

Tal como o ECO/Capital Verde já tinha avançado, Portugal e os Países Baixos assinaram esta quarta-feira, 23 de setembro, um memorando de entendimento para o hidrogénio verde que reforça a cooperação bilateral e oficializa a intenção dos dois países em ligar os seus planos de produção deste gás renovável até 2030, anunciou o Ministério do Ambiente e da Ação Climática em comunicado.

O secretário de Estado da Energia, João Galamba, tinha já anunciado que iria ser “formalizada muito em breve a parceria com a Holanda”, sublinhando também as conversações em curso com a Alemanha, o Japão, o Canadá para novas parcerias no hidrogénio.

“Estamos muito atentos às parcerias internacionais no hidrogénio. Somos membros da UE, mas para acelerar esta transição temos de nos associar a países “leves” e descomplicados, que estão interessados em apostar no hidrogénio. Temos uma parceria com a Holanda, que vai ser formalizada muito, muito em breve, e estamos em conversações com a Alemanha, o Japão, o Canadá, que envolvem os governos, empresas e outras entidades”, disse Galamba numa intervenção durante o debate online dedicado ao tema “Oportunidades para o hidrogénio verde ser o motor da recuperação sustentável e transição energética num mundo pós-Covid-19”, inserido na 11ª Cimeira de Energia Limpas da Arábia Saudita.

O memorando com os Países Baixos foi assinado pelo ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes, e o ministro holandês dos Assuntos Económicos e da Política Climática, Eric Wiebes. O documento, que há meses estava já para ser assinado pelos governos dos dois países prevê o “desenvolvimento de uma cadeia de valor estratégica de exportação-importação, garantindo a produção e o transporte de hidrogénio verde de Portugal para os Países Baixos e o seu hinterland, através dos portos de Sines e de Roterdão”, explica o MAAC no mesmo comunicado, sublinhando o “reforço da cooperação bilateral no domínio da energia”.

Depois da assinatura do documento, um dos primerios passos será unir esforços na candidatura junto de Bruxelas ao estatuto Important Project of Common European Interest (IPCEI) para o hidrogénio, incluindo a colaboração relacionada com o “projeto âncora” de âmbito industrial para a produção de hidrogénio verde em Sines e também os projetos previstos para o Porto de Roterdão.

Neste memorando ficou escrito que “Portugal e os Países Baixos reconhecem a importância crescente que os gases renováveis, em particular o hidrogénio verde, irão desempenhar na descarbonização da Europa. Ambos os países promoverão e incentivarão a cooperação institucional, para ajudar a desenvolver cadeias de abastecimento para a exportação de hidrogénio verde”. Uma “cooperação reforçada” que visa contribuir para os objetivos climáticos da UE com a “criação de um verdadeiro mercado internacional do hidrogénio, com regras de mercado que tornem a exportação de hidrogénio uma realidade”.

Diz o MAAC que a parceria com os Países Baixos reforça os compromissos da Estratégia Nacional do Hidrogénio e a vontade de promover uma “política industrial baseada em políticas e estratégias públicas que possam ajudar a mobilizar e orientar o investimento público e privado em projetos de hidrogénio, criando assim oportunidades para as empresas e para a indústria”.

Fulcrais para esta parceria vão ser precisamente os portos marítimos de Sines e Roterdão, como ponto de partida e de chegada, respetivamente, do hidrogénio produzido em território português e exportado para a Holanda, de onde depois será distribuído pelo norte da Europa. “Não iremos a lado nenhum se desenvolvermos o hidrogénio sozinhos e temos consciência disso, por isso temos falado com outros países, participado em fóruns internacionais. No hidrogénio, o compromisso político e a colaboração entre diferentes stakeholders é tão ou mais importante que o desenvolvimento das tecnologias de produção”, disse galamba na semana passada.

O governante português sublinhou as metas nacionais para o hidrogénio verde — 2,5 GW de capacidade instalada de eletrólise até 2030 — e o valor de investimento entre os sete e os nove mil milhões de euros com que já se comprometeras as empresas portuguesas e internacionais que responderam à call do Governo para desenvolverem projetos de produção de hidrogénio, além dos 40 milhões anuais que o Governo atribuirá também ainda em 2020 (e consecutivamente nos próximos anos, até 2030).

De acordo com a Estratégia Nacional para o Hidrogénio, os apoios públicos ao rondarão os 900 milhões ao longo de dez anos, dos quais 500 milhões através do Fundo Ambiental, via leilão, para cobrir o sobrecusto e apoiar a produção e o preço do hidrogénio associado aos mais de 2 GW de potência instalada. E ainda mais 400 milhões de fundos comunitários para apoiar diretamente o investimento: 40 milhões do POSEUR e 360 milhões do Portugal 20-30.

Sobre o porto de Sines, o governante assumiu que se trata ainda de um hub de energia fósseis — carvão e gás natural — mas que no futuro vai evoluir para energia mais limpas, tendo em conta o mega pólo industrial de produção de hidrogénio que irá nascer na região e que começará a sua produção já no próximo ano. O objetivo do Governo é criar uma nova rota marítima energética entre Sines e Roterdão, sem esquecer os países do norte de África. De acordo com a Estratégia Nacional para o Hidrogénio, o investimento previsto no projeto industrial de produção de hidrogénio verde em Sines poderá ser superior a 1,5 mil milhões de euros.

Em Roterdão, Stijn van Els, diretor comercial do maior porto marítimo da Europa, garantiu que a ambição é tornar-se num hub central de hidrogénio verde (uma espécie de “espinha dorsal” energética), recebendo-o de Portugal, Chile ou Arábia Saudita, e distribuindo-o para países como a Alemanha e outros do norte da Europa.

Do lado da Alemanha, a secretária de Estado da Economia e Energia da Alemanha ,Elisabeth Winkelmeier-Becker preferiu frisar o acordo que o país europeu já assinou com o Chile para a produção de hidrogénio e o projeto-piloto em curso, sem mencionar as conversações em curso com Portugal. Berlim aprovou a sua estratégia nacional para o hidrogénio em junho, com um pacote de estímulo do Estado de 9 mil milhões de euros. Isto tudo para terem 5 GW de capacidade instalada até 2030 (com mais 5 GW adicionais até 2040). No que diz respeito à procura, a Alemanha estima que a procura nacional de hidrogénio já chegar aos 90 a 110 TWh. OU seja, tendo em conta que o país só terá capacidade de produzir cerca de 14 TWh em 2030, entre 76 – 96 TWh não estarão cobertos pela produção interna.

“Temos de estabelecer parcerias com países terceiros, porque muito do hidrogénio vai ter de ser importado”, disse a responsável, sublinhando as parcerias com a Arábia Saudita e o Chile.

Já o ministro dos Recursos Naturais do Canadá, Seamus O’Regan, garantiu que o hidrogénio faz parte do caminho do país para a neutralidade carbónica e frisou a parceria em desenvolvimento com Portugal, entre outros países do mundo.

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