Rui Rio diz que a app StayAway devia ter alertado para o coronavírus. É mesmo assim?

O presidente do PSD criticou a aplicação StayAway Covid por não o ter alertado de que António Lobo Xavier estava infetado com Covid-19 no Conselho de Estado da semana passada. O que falhou?

“Uma vez que estive na reunião do Conselho de Estado, a aplicação StayAway Covid devia-me ter alertado. E não alertou.” O comentário partiu do presidente do PSD, Rui Rio, depois de se saber que um dos conselheiros de Estado presentes no encontro da semana passada foi depois diagnosticado com Covid-19.

A consideração do líder da oposição causou polémica e levanta duas questões. A aplicação de rastreio devia mesmo ter emitido um alerta de exposição à Covid-19? E o que significa o facto de não o ter feito, como revela Rui Rio?

Respondendo ao primeiro ponto: não necessariamente. Apesar de ter sido feita para detetar o máximo de possíveis contágios por Covid-19, recorrendo a informação da proximidade entre dispositivos, importa não esquecer que a StayAway Covid é de uso voluntário. Por esse motivo, não pode ser garantia de que todos os contactos entre o utilizador e pessoas entretanto diagnosticadas motivam um alerta.

Imaginemos o caso do Pedro e do João. O Pedro não usa a aplicação StayAway, mas o João sim. O Pedro e o João encontram-se para beber café e pôr a conversa em dia. Dias depois, o Pedro é diagnosticado com o novo coronavírus. Neste caso, o João nunca poderia ser alertado pela aplicação, pois não haveria registo desse contacto.

Num outro cenário, mesmo que o Pedro usasse a aplicação, tal não seria garantia de que o João seria alertado para o facto de ter estado próximo de alguém com Covid-19. Isso aconteceria apenas se o Pedro, enquanto utilizador da StayAway, introduzisse na aplicação o código de 12 dígitos que lhe foi, eventualmente, entregue pelos médicos aquando do diagnóstico.

Há ainda a hipótese de o Pedro e o João não terem estado suficientemente próximos para o contacto ser detetado pela StayAway e considerado “de risco”. Para tal, o Pedro e o João teriam de estar a menos de dois metros de proximidade durante, pelo menos, 15 minutos.

Em todos os casos, sendo alertado, o João saberia apenas que esteve perto de uma pessoa com Covid-19 nos últimos dias. Não receberia informação nem da identidade, nem do momento em que se deu esse contacto (dados que, aliás, também não são recolhidos pela StayAway Covid, asseguram os promotores e o Governo).

Como tem vindo a apontar o INESC TEC, que promoveu o desenvolvimento da aplicação, haveria outras formas de a tornar muito mais eficaz. Uma app que recorresse ao GPS dos telemóveis, e que obrigasse ao reporte de todos os casos de Covid-19 encontrados no país, seria muito mais eficaz a quebrar cadeias de transmissão. No entanto, tal não é sequer desejável, nem seria legalmente possível, visto levantar sérias dúvidas do ponto de vista da privacidade dos cidadãos.

E com isto se explica também o significado de Rui Rio não ter sido alertado para a exposição à Covid-19 na reunião do Conselho de Estado, como afirmou no Twitter. Ou António Lobo Xavier (o conselheiro que testou positivo à Covid-19) não tinha a aplicação; tendo, não introduziu o código; tendo introduzido o código, não houve proximidade suficiente a Rui Rio para ser considerado um contacto de risco.

Entretanto, como noticiou o ECO, o comentário do presidente do PSD mereceu resposta da equipa que desenvolve a aplicação: “A StayAway Covid alerta-o apenas se a pessoa infetada 1) tinha a aplicação ativa, 2) esteve a menos de dois metros de si por mais de 15 minutos. 3) tiver recebido do médico um código aquando o diagnóstico positivo, e 4) tiver inserido esse código na aplicação.”

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