Culpa do excesso de mortalidade não é do calor. Explicação “plausível” é menos cuidados de saúde

Covid-19 só explica 32,5% do excesso de mortalidade em Portugal. Escola Nacional de Saúde Pública conclui que serviços "reduziram o nível de cuidados prestados a doentes agudos e crónicos sem Covid".

O Barómetro Covid-19 da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa analisou os óbitos entre os dias 16 de março, dia em que Portugal notificou o primeiro óbito de Covid-19, e 30 de setembro, e chegou à conclusão que houve um excesso de mortalidade de 12% (mais 7.529 óbitos do que aqueles que seriam de esperar com base na mortalidade média dos últimos cinco anos).

O excesso de mortalidade, segundo o barómetro que foi publicado hoje, afetou essencialmente os mais idosos. Na faixa etária acima dos 85 anos, o excesso de mortalidade foi de 18% face à média dos últimos 5 anos (ver tabela em baixo).

Do excesso de mortalidade (7.529), 6.072 foram por causas naturais, dos quais 4.101 mortes ou 67,5% não foram causadas pela Covid-19.

Não foi a onda de calor a provocar o excesso de mortes

Uma das razões que tinha sido apontada por este Barómetro em julho era uma possível subnotificação dos óbitos de Covid-19, mas agora a Escola Nacional de Saúde Pública descarta essa explicação: “Neste momento, a explicação de o excesso de mortalidade por causas naturais não Covid-19 ser causada por subnotificação não é credível porque a política de testagem é extremamente abrangente e inclui até testes em cadáveres”.

Outra explicação possível, e que foi aventada pelo Governo e pela Direção Geral de Saúde (DGS), foi o calor que se fez sentir nalgumas semanas do verão e que terá contribuído para o aumento de mortes, sobretudo “nos grupos etários acima dos 65 anos de idade”.

Este argumento não convence o grupo de investigação que realizou este estudo. Refere que a explicação desse excesso ser causado por ondas de calor “pode ser considerada para determinados segmentos, mas não em todo o segmento”. Os investigadores escrevem que, “no período de maio, a temperatura não ultrapassou 32ºC e em julho não ultrapassou os 36ºC, temperaturas que dificilmente podem explicar alterações fisiológicas que causem excessos de mortalidade desta magnitude”.

Sobram duas explicações:

  1. Por um lado, os investigadores indicam que, em 2020, se observou uma queda de cerca de 8% na procura de cuidados pré-hospitalares, mais acentuada para os cuidados de alta prioridade. “Isto sugere que doentes com sintomas graves, que justificariam acionar meios de assistência pré-hospitalar de suporte imediato ou avançado de vida, terão tido relutância fazê-lo, com medo de se infetarem com Covid-19”.
  2. Por outro lado, este Barómetro Covid-19 da Universidade Nova de Lisboa conclui que “a explicação de que os serviços de saúde reduziram o nível de cuidados prestados a doentes agudos e crónicos sem Covid-19 continua plausível”.

E dá vários exemplos. Em 2020, observou-se uma redução de consultas presenciais e domiciliares em cuidados de saúde primários (-53% e -49% respetivamente), de consultas em hospitais (-11%), de meios complementares de diagnóstico e terapêutica (-50%), de episódios cirúrgicos em ambulatório e de intervenções cirúrgicas (-21%) considerando as médias dos anos anteriores.

Até as intervenções cirúrgicas de natureza urgente tiveram uma redução de 9% (ver tabela em baixo).

No Barómetro Covid-19 lê-se ainda que os cuidados de saúde primários mudaram significativamente o seu modelo de prestação, substituindo as consultas tradicionais por consultas não presenciais e não específicas que aumentaram 116%, fazendo com que o total de consultas médicas nos cuidados de saúde primários só tenha caído cerca de 4%.

Os autores sugerem inclusivamente que “valerá a pena estudar o impacto desta mudança na qualidade dos cuidados prestados”.

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