Dos agregados familiares aos testes à Covid, as recomendações dos especialistas para o Natal

Especialistas ouvidos pelo ECO concordam que o Natal deve ser comemorado, mas em segurança. Juntar menos pessoas, usar quase sempre máscara e reduzir os contactos, são algumas das recomendações.

Em meados de outubro, o Presidente da República já tinha alertado para a necessidade de “repensar o Natal em família”, para que os portugueses adaptassem esta época festiva às circunstâncias da pandemia. Depois de ter anunciado preliminarmente um alívio das medidas para o Natal e Ano Novo, o Governo manteve as medidas para a época natalícia, mas acionou o “travão de emergência” para a passagem do ano, antecipando o recolher obrigatório de dia 31 de dezembro para as 23h00 e a partir das 13h00 para os dias 1,2 e 3 de janeiro. Também os horários dos restaurantes sofreram alterações, com o Executivo a determinar que encerrem às 22h30 no dia 31 e às 13h00 nos dias 1, 2 e 3 de janeiro.

O primeiro-ministro assumiu que não impôs medidas mais duras para o Natal pelo facto de ter confiança de “que todas as famílias farão esforço para se organizarem”, mas referiu que “o travão teve de ser puxado para a passagem de ano”, considerando ser este “o equilíbrio certo, apontou em declarações transmitidas pelas televisões, a partir do Palácio de São Bento. António Costa já tinha deixado claro que não hesitaria em “puxar o travão de emergência”, caso fosse necessário, nesta reavaliação.

Especialistas ouvidos pelo ECO estão divididos quanto ao alívio das restrições para a época de Natal, mas concordam que o Governo deveria, pelo menos, ter dado algumas orientações relativamente ao número de pessoas por agregado familiar. Além disso, avisam que é preciso dar “recomendações muito claras e objetivas” aos cidadãos para que possam ter um Natal em segurança, com o mínimo risco possível.

Carlos Robalo Cordeiro, diretor serviço de Pneumologia dos Hospitais da Unidade de Coimbra e ex-presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, tinha “esperança” de que medidas fossem reavaliadas, dado que considera que as orientações são “um convite ao convívio” e “uma porta aberta para termos em final de janeiro, fevereiro um aumento significativo do número de casos”.

“É a porta aberta para a terceira vaga”, aponta Carlos Robalo Cordeiro, diretor serviço de Pneumologia dos Hospitais da Unidade de Coimbra e ex-presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, em declarações ao ECO. Para o também diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, isto não significa que as medidas devessem ser agravadas, mas que, pelo menos “não houvesse um aligeiramento”, mantendo-se as medidas atualmente em vigor, dado que “não estamos com números que estejam a permitir uma abertura”. Nesse contexto, o pneumologista pede que se olhe “para os bons exemplos” que se estão a verificar “um pouco por toda a Europa”, com um “acréscimo de medidas restritivas”.

Mais comedido, Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANMSP), considera que “é muito importante que as pessoas percebam que o problema não está resolvido”, mesmo tendo em conta a “potencial solução que é a vacina”, que ainda que seja aprovada pela Agência Europeia do Medicamento (EMA, na siga em inglês) antes do que era expectável, “ainda vai demorar algum tempo” até que se consiga “vacinar uma proporção suficientemente elevada da população”, de modo a proteger “os mais vulneráveis e evitar que a doença se propague”. Dado que Portugal continua a registar “um número elevado de casos a nível nacional”, o médico defende que não é “altura de baixar a guarda”.

Aquilo que foi anunciado é um convite ao convívio, é uma porta aberta para termos em final de janeiro, fevereiro um aumento significativo do número de casos. É a porta aberta para a terceira vaga.

Carlos Robalo Cordeiro

Diretor do serviço de pneumologia dos Hospitais da Unidade de Coimbra e antigo presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia

Já Francisco George, presidente da Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) e antigo diretor-geral da Saúde, mostra-se confiante de que “as autoridades de saúde tudo farão para definir melhor a situação no futuro próximo”, pelo que considera que as medidas “serão certamente as mais indicadas para este período”.

Certo é que as previsões elaboradas por diversos especialistas não são animadoras. Segundo uma estimativa realizada pelos investigadores do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, que foi apresentada na última reunião do Infarmed, citada pelo Expresso (acesso pago), se os números continuarem a descer ao ritmo das últimas semanas, haverá, no mínimo, cerca de 20 mil portugueses infetados durante o período de Natal, a maioria sem saber, já que poderão estar assintomáticos ou com sintomas ligeiros. Ao mesmo tempo, a mortalidade tem sido uma das maiores preocupações, com os números a dispararem de dia para dia. Nesse sentido, o mesmo instituto dá ainda conta de que Portugal poderá registar um acréscimo de 800 a 1.500 óbitos no mês de janeiro, caso as restrições sejam levantadas como planeado.

Estas projeções são uma chamada de atenção para o que poderá suceder, contudo, é importante sublinhar que os resultados podem ser diferentes se os pressupostos mudarem. Um dos grandes entraves ao combate desta pandemia é o facto de o contágio ser silencioso e dado que na quadra natalícia os contactos são consideravelmente superiores ao habitual, o número de pessoas que integram os agregados familiares são uma das grandes preocupações dos especialistas.

Governo devia definir número de pessoas por agregado familiar?

Nesta reavaliação, o Governo acabou por não definir um número de pessoas que se podem juntar em cada habitação, tendo o António Costa justificado a decisão pelo facto de os portugueses terem “demonstrado um enorme bom senso nesta pandemia”, baseando-se, portanto, numa relação de confiança. Mas deixou o aviso: “as pessoas têm de ter consciência disso. Não é por acaso que os grandes momentos de contaminação têm sido os convívios sociais”, alertou o primeiro-ministro.

Neste âmbito, Ricardo Mexia admite que é “difícil” dar um número relativamente ao número de pessoas que se possam reunir por agregado, já que o risco não é “0 ou 100%”, mas não tem dúvidas de que “quantos mais agregados maior é o risco, quanto menos menor”, pelo que esta situação pode “multiplicar” o risco. Assim, o ideal seria “não convivermos com alguém que não coabitamos”, mas dado que esta é uma época particularmente ligada à família, o presidente da ANMSP aconselha a que os contactos fora do agregado familiar sejam minimizados ao máximo, bem como, as famílias optem pelos desfasamentos dos encontros. A opinião é partilhada por Francisco George que justifica que quando há menos pessoas à mesa “o espaço é ocupado por menos membros”, pelo que “há mais ventilação” e, portanto, “menos riscos”. “É uma questão de lotaria, quanto maior for o número de cautelas adquiridas, maior é a probabilidade de sair a lotaria”, exemplifica ao ECO.

Quanto maior for o grupo, maior é a probabilidade de um deles estar infetado e, portanto, transmitir. É uma questão de lotaria, quanto maior for o número de cautelas adquiridas, maior é a probabilidade de sair a sorte grande.

Francisco George

Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa e antigo diretor-geral da Saúde

Em contrapartida, Carlos Robalo Cordeiro é ainda mais taxativo e alerta para o “preço” a pagar pelo facto de se aligeirar as medidas. “Deveríamos privilegiar o encontro de agregados familiares, que normalmente que se encontram, isto é, que já vivam na mesma casa ou que estão juntos regularmente”, aponta, acrescentando que os encontros de pessoas que não estão normalmente juntas poderão “não conhecer o risco umas das outras”, agravando, por isso, a possibilidade de transmissão do vírus.

A verdade é que, segundo os especialistas, tudo pode ser “criativamente” planeando. O antigo diretor da DGS sugere, por exemplo, que as famílias façam “as refeições em regime buffet“, o que permite ter um maior distanciamento do que se estiverem sentados à mesa. Além disso, os especialistas recomendam que nestes encontros familiares todos os membros utilizem máscara, tirando-a apenas no período da refeição, bem como tomem todas as outras três “regras de ouro” bem conhecidas pelos portugueses: distanciamento social, higienização das mãos e etiqueta respiratória.

Não obstante, e ainda no que toca as refeições, Ricardo Mexia considera “útil” que “a própria disposição à mesa” respeite os “agregados familiares de origem”, já que “ajuda a diminuir o risco nos momentos em que as pessoas não têm a máscara posta”, e apela a que as famílias reduzam o “tempo das refeições”, tal como recomendado pela DGS nas dez orientações divulgadas na passada terça-feira. Ao mesmo tempo, Carlos Robalo Cordeiro alerta que deve ser mantida a “máxima distância possível enquanto estão à mesa”.

Quanto a orientações mais genéricas, todos concordam que é “fundamental” assegurar que todas as pessoas que estão infetadas ou que desenvolvem sintomas não devem participar nestas reuniões familiares e que os contactos devem ser reduzidos ao máximo, aconselhando por isso que se evitem “todos os encontros não essenciais”. “Se as pessoas tiverem possibilidade de reduzir de forma quase total esses contactos seria útil, mas não estamos a propor isolamento pré-festividades”, explica Ricardo Mexia. Por outro lado, os espaços devem ser frequentemente arejados, de preferência através da ventilação natural, isto é, as janelas. “A ventilação é fundamental é tão importante como usar máscara”, avisa Francisco George. Além disso, se possível, os encontros devem também ser realizados no exterior ou em “espaços mais amplos e mais arejados”.

Testes rápidos antes do Natal? Especialistas estão divididos

Outro dos pontos que não reúne consenso entre os especialistas relaciona-se com o facto de muitos portugueses estarem a marcar testes de despiste à Covid-19 para os dias que antecedem o Natal para se poderem reunir com a família. Se, por um lado, o presidente da ANMSP diz que estes testes podem “ajudar a identificar alguns casos que existam na comunidade e que não estejam ainda diagnosticados”, alerta que este mecanismo deve ser utilizado como “complemento” a todas as medidas anteriormente mencionadas “e não como alternativa”. Também Francisco George concorda com Ricardo Mexia, admitindo que “é um fator de segurança”, contudo, avisa que a capacidade instalada de testes rápidos “não é universal”, podendo existir, por isso, um “estrangulamento entre a procura e a oferta”.

No polo oposto, Carlos Robalo Cordeiro defende que esta tendência “é um engano brutal”, uma vez que os testes de antigénio (chamados testes rápidos) “não têm a mesma fiabilidade dos testes de PCR” (os de zaragatoa) e são sobretudo mais eficazes quando as pessoas têm sintomas ou quando a carga viral é maior. “Podemos ter alguém que está assintomático, com dois, três dias de contacto com alguém que teve a infeção — que tem ainda, portanto, uma carga viral baixa — faz o teste no dia 23, mas no dia 24 e 25 já não tem a segurança de que possa não estar já com uma carga viral que possa fazer com que seja contagioso”, sublinha ao ECO.

Além das regras, deve haver recomendações muito objetivas que as pessoas possam adotar para reduzir os riscos. Acho que isso é fundamental. Apelar ao bom senso é demasiado genérico e não permite efetivamente que as pessoas percebam o que podem e devem fazer para reduzir o risco.

Ricardo Mexia

Presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública

Neste contexto, há ainda algumas incertezas quanto ao que poderá suceder, mas os especialistas defendem que é fundamental que o Executivo seja claro na comunicação neste período. Carlos Robalo Cordeiro considera que deve existir um “claro aconselhamento” que seja “pragmático, muito transparente e muito claro” para que possa ser entendido pela população relativamente aos riscos que acarretam estes períodos festivos.

Já Ricardo Mexia defende que “nem só de medidas restritivas se faz o combate à pandemia”, pelo que apela ao reforço da capacidade resposta do Serviço Nacional de Saúde, salientando ainda a importância de interromper as cadeias de transmissão, “Além das regras, deve haver recomendações muito objetivas que as pessoas possam adotar para reduzir os riscos. Acho que isso é fundamental. Apelar ao bom senso é demasiado genérico e não permite efetivamente que as pessoas percebam o que podem e devem fazer para reduzir o risco“, conclui.

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