Do primeiro caso à vacina, a história da Covid-19 em Portugal

A 2 de março a Direção-Geral da Saúde anunciou o primeiro caso de Covid-19 no país. A ciência avançou e a 27 de dezembro estava a começar a vacinação em cinco centros hospitalares.

As notícias chegavam da China primeiro, de Itália e de França depois, mas Portugal parecia impune. Ou pelo menos assim foi até 2 de março, o dia em que foi diagnosticado o primeiro caso de Covid-19 no país, seguido no Hospital Curry Cabral, em Lisboa. Desde então, houve o primeiro confinamento, o fecho da economia seguido de fortes medidas de apoio a empresas e trabalhadores, o relaxamento no verão até ao dia em que foi administrada a primeira vacina, a 27 de dezembro. Entre avanços e recuos, foi assim que evoluiu a pandemia em Portugal.

A 18 de março, 16 dias depois de ter sido confirmado o primeiro caso de Covid-19 em Portugal, o país contava no total 642 casos, um crescimento de cerca de 3.000% desde o primeiro e o Presidente decretou estado de emergência e as fronteiras com Espanha encerraram. Foi o primeiro de três quinzenas seguidas. As pessoas foram para casa, tanto o trabalho como a escola passaram para os computadores e até para a televisão.

Lisboa deserta durante a pandemia de Covid19 - 31MAR20
Lisboa deserta durante o estado de emergência. Hugo Amaral/ECOHugo Amaral/ECO

Os casos multiplicavam-se, e houve inclusivamente uma cerca sanitária em Ovar (Aveiro), a única cerca sanitária em território continental que durou um mês. Além desta, viria mais tarde a houver também outra em Rabo de Peixe, em São Miguel (Açores).

O Centro e Norte do país foram as regiões mais afetadas da primeira vaga em Portugal, em parte por casos importados de Itália e Espanha, maioritariamente. O pico desta primeira vaga aconteceu entre 23 e 25 de março, isto é, a altura em que a taxa de transmissibilidade (Rt) foi mais elevada. No entanto, o maior número de casos diários deu-se a 10 de abril, quando foram diagnosticados 1.516 casos.

Em maio os casos começaram a diminuir e em junho a pandemia parecia estar quase controlada na Europa, mas não em Portugal. Apesar do decréscimo de casos, o verão foi marcado por surtos na região de Lisboa e Vale do Tejo. No final do verão, os casos começavam novamente a aumentar.

Era o preâmbulo da tão falada segunda vaga. Portugal voltou à situação de calamidade em outubro e a 9 de novembro à emergência. A segunda vaga foi mais mortífera e preocupante. Segundo as autoridades de saúde o pico foi atingido a 25 de novembro e o dia com mais casos, até ao início da vacinação, foi a 19 de novembro, com 6.994 casos (exceto acerto laboratorial no início de novembro).

Número de novos casos de Covid-19 por dia

Foi na segunda vaga, especificamente a 13 de dezembro, que foi atingido o maior número de mortes diárias da pandemia: 98. Ainda na segunda vaga o número de internamentos subiu a pique, levantando preocupações quanto à capacidade dos hospitais.

A maioria da vítimas do SARS-CoV-2 têm mais de 70 anos e são do sexo masculino. No entanto, há mais mulheres que homens infetados e a faixa etária que mais contraiu o vírus foi entre os 40 e os 49 anos.

Regiões do país à lupa

Na região Norte, a mais afetada pela Covid-19, é difícil dividir os momentos da pandemia. Apesar dos primeiros casos terem sido identificados em Lisboa, foi no Norte que a Covid-19 se propagou mais rapidamente, ligado aos casos que vinham do estrangeiro e dos surtos em fábricas. Tendo atingido os 795 casos na região a 10 de abril (quase metade dos diagnosticados no total).

Depois do abrandamento no verão, o Norte voltou a ser o foco da segunda vaga. Os surtos em lares e nas universidades tomaram especial atenção das autoridades de saúde. A 19 de novembro o Norte registou mais de 4.400 casos, o maior número diário da região (exceto dias com acerto de contas). Em especial o centro hospitalar de Tâmega e Sousa viveu dias difíceis, com a sua capacidade de internamento no limite.

O Centro teve uma evolução da pandemia semelhante à do Norte, mas com números diários inferiores. O maior número de casos diários na região, até ao dia da primeira vacina, foi registado a 26 de novembro, com 964 novos casos. No entanto, a situação mais grave deu-se logo no início, em Ovar.

Por outro lado, em Lisboa e Vale do Tejo a tendência seguiu o caminho inverso, tendo atingido o pico apenas em junho, quando representava sistematicamente mais de 80% dos novos casos do país. A região foi das últimas a sair dos estados de exceção.

As autoridades de saúde associaram os surtos à dinâmica entre trabalhadores, como as pausas no trabalho sem regras sanitárias. No final de maio houve surtos associados às fábricas na zona da Azambuja. Outro motivo que foi dado foi as condições habitacionais em alguns concelhos da Área Metropolitana de Lisboa, onde seria difícil isolar quem ficasse infetado.

No Alentejo consegue-se identificar dois grandes momentos da pandemia de Covid-19. O primeiro associado ao surto de Reguengos de Monsaraz, em junho. Nesta altura a região chegou a contabilizar 59 casos num dia, a 20 de junho. Já na segunda vaga, chegou aos 322 casos a 23 de dezembro. Os surtos em lares e no hospital de Évora têm preocupado as autoridades de saúde nesta segunda vaga. Portalegre tem sido o distrito mais afetado no final do ano, tendo seis concelhos na lista de risco extremo, segundo a ultima atualização da DGS.

Já no Algarve, a pandemia começou ligeira, tendo sofrido algumas subidas durante o verão — altura em que muitos portugueses rumaram a sul para férias. Alguns dos picos na segunda vaga são atribuídos a surtos em lares, em zonas agrícolas e até a festas ilegais.

Nas regiões autónomas a pandemia de Covid-19 foi mais calma do que no continente. Em abril a Madeira deixou Câmara de Lobos em cerca sanitária. Foi ainda na Madeira que se encontrou pela primeira vez, em Portugal, a nova estirpe de Covid-19, original do Reino Unido. Já nos Açores, seis municípios da ilha de São Miguel estiveram em cerca sanitária em abril e, mais recentemente, em dezembro, foi a vez de Rabo de Peixe.

O início do fim: começa a vacinação

O médico António Sarmento, diretor do serviço de infecciologia do Hospital de São, foi o primeiro a ser vacinado. JOSE COELHO/LUSAJosé Coelho/LUSA

O maior esforço científico conjunto do mundo, que se viveu nos últimos anos, acabou por resultar no desenvolvimento de uma série de vacinas. Ainda em 2020, chegou a tão ansiada primeira aprovação da vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela Pfizer e BioNTech. A Agência Europeia do Medicamento aprovou a vacina da farmacêutica a 21 de dezembro e a vacinação começou nos países da União Europeia, incluindo Portugal, a 27 do mesmo mês.

A União Europeia já assinou sete acordos com diversas farmacêuticas e, depois da Pfizer a próxima vacina que poderá ser aprovada é da Moderna. O Reino Unido já aprovou a vacina da AstraZeneca-Oxford, mas a Agência Europeia do Medicamento deu um passo atrás e disse precisar de mais informações

Em Portugal os profissionais de saúde foram os primeiros a ter acesso à vacina. Os primeiros a receber vacinas foram os centros hospitalares de São João, do Porto, de Coimbra, de Lisboa-Norte e de Lisboa-Central. A primeira pessoa a ser vacinada foi o médico António Sarmento, diretor do serviço de infecciologia do Hospital de São João.

A seguir aos profissionais de saúde, numa primeira fase, serão vacinadas também pessoas com 50 ou mais anos com algumas patologias e residentes em lares e internados em unidades de cuidados continuados e os respetivos profissionais. Depois haverá mais duas fases de vacinação.

Com o início da vacinação, espera-se o regresso à normalidade e também a retoma económica do país, mas o combate ao vírus sofreu, recentemente, um novo revés. Já depois de a vacinação ter começado — e uma semana após as medidas menos restritivas do Natal –, Portugal atingiu o maior número de casos diários no dia 31 de dezembro (7.627), levantando dúvidas quanto ao efeito do levantamento de restrições no Natal.

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