Pestana negoceia com credores para evitar pagar já 15 milhões em dívida

A cadeia hoteleira quer negociar uma das condições de incumprimento do empréstimo obrigacionista de 15 milhões que realizou em 2015. E tudo devido à pandemia.

O Pestana, a maior cadeia hoteleira do país, vai chamar os obrigacionistas de um empréstimo de 15 milhões de euros para negociar a dispensa de uma das condições do financiamento contraído em 2015. Em causa está um rácio de endividamento que o Pestana afirma não conseguir cumprir em 2020, e não deverá cumprir em 2021, devido à pandemia, que se não for aprovada obriga o grupo a desembolsar já todo o dinheiro.

Foi em julho de 2015 que a cadeia hoteleira nacional emitiu 150 obrigações a 100.000 euros cada, num total de 15 milhões de euros. Este empréstimo prevê uma taxa de juro anual de 3,95% e vence em 2022. Contas feitas pelo ECO indicam que até ao momento, se contarmos com 2020, o Grupo Pestana já pagou aos obrigacionistas 2,96 milhões de euros em juros.

Mas se até aqui tudo correu normalmente, 2020 trouxe um obstáculo: a pandemia. Devido ao impacto que a crise pandémica teve, e continua a ter, no setor, a empresa diz não ser capaz de cumprir um dos critérios previstos no empréstimo: o rácio Net Debt/EBITDA (dívida financeira líquida sobre os resultados brutos) tem de ser inferior a sete vezes. Ora, de acordo com a convocatória a que o ECO teve acesso, o Pestana convocou os obrigacionistas para uma Assembleia Geral Extraordinária, onde vai solicitar a dispensa de cumprimento desse critério já que o rácio irá ser superior.

“Em face do impacto da pandemia (…) na atividade da sociedade e consequentemente nos seus rácios financeiros relativos ao EBITDA durante o ano de 2020; da elevada probabilidade desse impacto se manter, ainda que mitigado, durante o ano de 2021; e da incerteza da evolução da pandemia e dos efeitos negativos da atual segunda vaga e de uma potencial terceira vaga no setor do turismo, é necessário obter uma dispensa do cumprimento do rácio Net Debt/EBITDA (…) relativamente aos anos de 2020 e de 2021“, lê-se nessa convocatória.

Em declarações ao ECO, o CEO da cadeia hoteleira diz estar confiante na adesão dos obrigacionistas. “Este empréstimo teve uma colocação privada, são dois ou três institucionais que têm as obrigações e conhecem bem o nosso risco”, explicou, referindo que, no caso de não aceitarem, o Grupo Pestana tem de “pagar o empréstimo”. Contudo, José Theotónio não se mostra muito preocupado. “Temos condições [para pagar]. Com 15 milhões não era por aí. Mas obviamente que não era a altura ideal para pagar empréstimos adiantados”, acrescenta.

No mesmo documento, o Pestana justifica esta convocatória com dados do impacto da pandemia no setor hoteleiro, nomeadamente a redução da atividade hoteleira até setembro de 2020 em 59,4% em Portugal e em 71% em Espanha, dois dos principais mercados do grupo. “A sociedade teve um impacto significativo nas suas receitas operacionais e, consequentemente, nos seus rácios financeiros, que se continuará a fazer sentir dada a redução expressiva do turismo nacional e internacional“, refere.

Esta não é a primeira vez que a cadeia liderada por Dionísio Pestana convoca os obrigacionistas para negociar as condições um empréstimo. Em agosto do ano passado, de acordo com o Jornal de Negócios, já tinha feito o mesmo para um empréstimo de green bonds de 60 milhões de euros realizado em 2019. Nessa altura a justificação foi a mesma: os efeitos da pandemia. Aliás, como referiu José Theotónio ao ECO, o grupo hoteleiro tem adotado esta postura com todos os empréstimos, mas apenas naqueles que “têm que ver com o rácio Net/Debt”.

Novo empréstimo para liquidar este? “Temos essa possibilidade”

Questionado pelo ECO sobre a possibilidade de ser pedido um novo empréstimo para liquidar este, o CEO não a descarta. “Podemos vir a fazê-lo, temos essa possibilidade. Aliás, as instituições financeiras têm vindo a dizer que se for necessário algum apoio estão disponíveis. Até porque temos muitos ativos que não estão hipotecados e isso poderia ser feito através de uma hipoteca”.

Mas sobre essa hipótese, José Theotónio diz que tudo vai depender da segunda metade do ano. “Vai depender muito do segundo semestre. Neste primeiro semestre estamos preparados para que seja muito mau, mas se o segundo continuar assim, provavelmente teremos de ir ao mercado de capitais buscar empréstimos para pagar os que temos”.

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