35 anos depois, EDP abandona carvão em Sines e aposta tudo no hidrogénio

Na cidade alentejana, o negro do carvão vai dar lugar ao verde do hidrogénio. Nada será como antes. Até os banhistas terão de dizer adeus ao mar quente. O "esquentador" de São Torpes apaga-se de vez

A partir desta sexta-feira, 15 de janeiro, nada será igual em Sines, ao fim de 35 anos de atividade da gigante termoelétrica que a EDP ali construiu, mesmo à beira mar. A maior central a carvão do país vai fechar portas para sempre, deixando os cerca de 500 trabalhadores diretos e indiretos “numa situação delicada” para enfrentarem um futuro que dizem ser incerto. O presidente da Câmara Municipal de Sines, Nuno Mascarenhas, considera mesmo que “havia margem para que a central continuasse a laborar por mais algum tempo, até porque o país continua a importar energia”.

Mas a transição energética está em marcha e não pode parar. Para Sines está já destinada uma nova energia limpa, de futuro: o hidrogénio verde, que ali há de fazer nascer em 2022 um mega polo industrial e atrair milhares de milhões de euros de investimento nacional e estrangeiro.

Os olhos da Europa estão agora virados para Sines (e para Portugal) e para o seu potencial para produzir e exportar hidrogénio produzido a partir da energia solar e da água, por eletrólise, para os países do norte, como a Holanda e a Alemanha. Na cidade alentejana, o negro do carvão vai dar lugar ao verde do hidrogénio e nada será como dantes.

Que o digam os banhistas da praia de São Torpes, que terão de dizer adeus às temperaturas tropicais do mar. “Com a central a carvão em atividade, o mar registava um aumento de temperatura na ordem dos 3 graus Celsius. Este fenómeno, que sempre atraiu banhistas àquela praia na costa alentejana, deve-se à proximidade com a zona de rejeição de água do oceano usada para refrigerar a central”, explica a EDP, que nos verões de 2019 e 2020 (quando a queima de carvão era já residual) ou nula chegou mesmo a receber telefonemas na central com reclamações dos veraneantes porque o mar estava inexplicavelmente frio. Agora, o “esquentador” de São Torpes, vai desligar-se de vez.

Recuando três décadas e meia no tempo, até ao século passado, a termoelétrica a carvão começou a ser construída em 1979 e entrou em funcionamento em 1985, tendo destronado a unidade a fuelóleo da EDP em Setúbal (que chegou a abastecer 25% do consumo nacional) como a maior central de produção de energia em Portugal. Construir a central de Sines custou 650 milhões de euros (a preços de 1983).

Na altura as preocupações climáticas estavam ainda bem longe: Portugal queimava 5.280 toneladas de fuelóleo por dia para garantir o abastecimento de energia elétrica ao país. Mas as crises petrolíferas da década de 70 fizeram entrar o carvão em cena para assegurar um nível de “potência instalada” no país necessária à satisfação dos consumos nacionais e permitir a diversificação das fontes de energia primária.

Depressa, um terço da energia elétrica consumida em Portugal passou a vir de Sines, e do carvão: 29% nos anos 90, 20% na década de 2000 e 15% na década de 2010. Em 2020 o carvão foi responsável por apenas 4% da eletricidade produzida em Portugal. A central de Sines tem 4 grupos geradores. Inicialmente cada grupo tinha 300 MW de potência, reforçada mais tarde para 314 MW, somando um total de potência instalada de 1.256 MW e de produção (potência disponível/emissão para a rede nacional) de 1.180 MWh.

Ao longo da sua vida, a maior central de produção de energia do país produziu 294 TWh, tendo emitido para a rede nacional 274 TWh (5,5 vezes o consumo nacional do ano de 2019, segundo dados REN), o que equivale a abastecer uma população de 60 milhões de pessoas durante um ano.

Já o parque de carvão tinha capacidade para cerca de 1,3 milhões de toneladas. A central recebia 24 a 25 navios de carvão por ano. Ao longo da vida da central foram consumidas (e passaram pelo parque de carvão) 105 milhões de toneladas, o equivalente a 699 navios de 150 quilotoneladas. Cada tonelada de carvão dava para produzir cerca de 2,7 MWh, diz a EDP, a mesma energia que permite, por exemplo, numa hora manter acesas 273.043 lâmpadas LED com 10W de potência.

O carvão que abastecia Sines e as casas dos portugueses com eletricidade vinha da Colômbia (60/70%) e dos EUA (5/10% – sendo que ultimamente chegou aos 20%, após o impacto do shale gas que permitiu aos EUA comercializar carvão de melhor equilíbrio técnico/ambiental/económico). O restante provinha da África do Sul ou Rússia e, em anos anteriores, também da Indonésia, mas com o conflito com Timor-Leste esse carvão deixou de fazer parte do cabaz de aquisições.

Apesar de responsável por 15% das emissões poluentes de Portugal, a EDP garante que “a central cumpriu sempre os seus compromissos de sustentabilidade e, após vários investimentos em tecnologia e sistemas de proteção ambiental – que somaram mais de 400 milhões de euros investidos ao longo dos anos – tornou-se numa das mais eficientes centrais a carvão na Europa”.

O futuro de Sines será verde mas a central não será reconvertida

A poucas horas do fecho final dos portões (a central tem licença de operação até às 23h59 de 14 janeiro de 2021 e encerra definitivamente às 00h00 de 15 de janeiro de 2021 com o “sentimento” de missão cumprida, diz a EDP), a empresa diz que a decisão de antecipar o fim do carvão – “enquadrada na estratégia de descarbonização do grupo EDP e alinhada com as metas de transição energética do país – foi tomada num contexto em que a produção de energia depende cada vez mais de fontes renováveis. Além disso, com o crescente aumento do custo da produção a carvão e do preço das licenças de emissões de CO2, aliado a um agravamento da carga fiscal, e com a maior competitividade do gás natural, as perspetivas de viabilidade das centrais a carvão diminuíram drasticamente”.

A empresa estima que o encerramento das centrais a carvão a nível ibérico da EDP (uma em Portugal e duas em Espanha, nas Astúrias) tenha um custo extraordinário de cerca de 100 milhões de euros em 2020.

Após o fecho, inicia-se a fase de descomissionamento e, posteriormente, os trabalhos de desmantelamento da central que levarão cerca de cinco anos a estar concluídos”, garante a elétrica, que vai ainda receber uma parte dos 200 milhões do Fundo de Transição Justa que vem para Portugal para ajudar na transição energética. “A EDP desconhece ainda os valores que poderão ser destinados a Sines nesse contexto”, diz a empresa. A decisão poderá ser conhecida no final do primeiro semestre de 2021, disse já o ministério do Ambiente e Ação Climática.

Quanto à central propriamente dita, com as suas imponentes chaminés com 225 metros de altura, fonte oficial da EDP tinha já revelado ao ECO/Capital Verde que a mesma não será reconvertida para “queimar” nenhum outro combustível, poluente ou não poluente, para a produção de energia elétrica. As razões são técnicas, explica a empresa, mas acima de tudo económicas.

“A avaliação feita não aponta para uma reconversão da central termoelétrica (nomeadamente dos equipamentos industriais de queima de carvão e produção de energia) – tanto por motivos técnicos, como económicos – mas sim para o aproveitamento das infraestruturas associadas à central (por exemplo de tomada e restituição de água, caminho para terminal de GNL ou edifícios administrativos) para o projeto de hidrogénio verde que poderá usar a mesma localização”, disse fonte oficial.

Já António Mexia, quando ainda era CEO da EDP, tinha descartado uma possível reconversão da histórica central a carvão para trabalhar a hidrogénio: “A central, em si, não. A central a carvão tem uma escala e uma configuração muito diferente do que é o projeto de hidrogénio, que inclui centrais de eletrólise mais pequenas”, disse ao Capital Verde, do ECO. Sobre uma eventual compensação financeira à empresa pelo fecho antecipado da central a carvão, que o Governo já garantiu que não pagará, Mexia afirmou que “o setor da energia não pode ser o único negócio do mundo onde as pessoas são obrigadas a operar e a perder dinheiro”.

O processo de descomissionamento e desmantelamento do colosso energético que entrou em funcionamento em 1985 “implica agora várias etapas que terão agora de ser avaliadas e executadas, previsivelmente, num período de cerca de cinco anos”, explicou a mesma fonte.

E se em Setúbal os terrenos da velhinha central a fuelóleo na península da Mitrena (encerrada em 2013) estão hoje limpos e prontos a receber novos projetos de energias renováveis, hidrogénio incluído, em Sines tudo aponta para o “aproveitamento das infraestruturas associadas à central para o projeto de produção de hidrogénio verde”.

“A EDP está empenhada em trabalhar para a descarbonização da economia e para o cumprimento das metas de sustentabilidade, mantendo entre os seus objetivos ter 90% da energia produzida a partir de fontes renováveis e reduzir em 90% (face a 2005) as emissões de CO2. Analisou-se por isso, um conjunto de alternativas, sempre dentro de opções sustentáveis, e neste momento o único cenário considerado adequado e com maior potencial é o do hidrogénio verde. A EDP espera que o projeto de produção de hidrogénio verde possa dar início a um novo ciclo no atual processo de transição energética. A expectativa é que possa também ser um novo polo de dinamismo para a economia local e também do país”, disse fonte oficial da EDP.

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