Roubini: “A recessão está de volta a Portugal, mas haverá recuperação”

O economista conhecido por ter antecipado a crise financeira de 2008 veio a Portugal para anunciar que a "recessão está de volta", mas mostrou otimismo face ao futuro da economia portuguesa.

Nouriel Roubini é mais famoso por ter um discurso pessimista sobre a economia do que otimista e quem o ouviu esta quinta-feira no warmup do QSP Summit, no Porto, confirmou essa expectativa. Contudo, o economista norte-americano conhecido por ter antecipado a crise financeira de 2008 mostrou-se otimista quanto ao futuro “brilhante” de Portugal por causa das características do país. Antes disso, a economia portuguesa terá de enfrentar uma “recessão dupla” por causa do novo confinamento.

“A recessão está de volta a Portugal, mas haverá recuperação”, disse o economista numa apresentação sobre o estado da economia enquanto o mundo enfrenta uma pandemia, equilibrando o discurso entre o que pode correr mal e as razões para acreditar que vai correr bem. No caso de Portugal, após a recessão no segundo trimestre de 2020, a expectativa é que a economia volte a contrair no primeiro trimestre de 2021 por causa do novo confinamento.

Roubini começou por descrever o estado da economia portuguesa antes da Covid-19: “A economia estava forte, havia criação de emprego, a taxa de desemprego estava bastante baixa e tinha sido alcançado um equilíbrio orçamental“, disse, elogiando diversas vezes Portugal pela sua beleza, mão-de-obra qualificada e boas infraestruturas. “Portugal continuará a ser um grande destino para fazer negócios e para o turismo”, disse, referindo que “os investidores acreditam” no país.

Contudo, a pandemia provocou uma “recessão muito severa” (-8%) em 2020, levando a um aumento da taxa de desemprego para os 9% e a uma “crescente pobreza” da população. No caso do mercado de trabalho, Roubini citou estimativas que apontam para o perigo de dois terços dos 360 mil postos de trabalho criados nos últimos quatro anos serem “destruídos” em 2020 e 2021, principalmente nos setores ligados ao turismo.

O economista elogiou a resposta à primeira onda do vírus, mas criticou a gestão da segunda vaga por se ter feito uma “reabertura no outono demasiado cedo, levando a uma recessão dupla por causa do novo confinamento draconiano” — o que acontecerá também no resto da Europa, acrescentou. O economista norte-americano disse estar preocupado com o curto prazo, mas com esperança para o médio prazo: “O futuro do país é brilhante”.

O problema da dívida pública… outra vez?

Ao falar da dívida pública portuguesa, o discurso do economista torna-se mais sombrio. Primeiro fez um aviso geral para países muito endividados da Zona Euro, como é o caso de Portugal mas também de Itália, Grécia e Espanha: “Quando o Banco Central Europeu (BCE) retirar gradualmente os estímulos [monetários], o problema da dívida pode ressurgir“, avisou.

Sobre Portugal em particular, Roubini disse que o nível de endividamento público “pode eventualmente tornar-se insustentável”, mas ressalvou que tal não significa que o Governo deva retirar os estímulos orçamentais. O economista concorda que estes ainda “são necessários” e até ajudarão à recuperação do PIB (a dívida pública é medida em % do PIB), além de parte ser financiado pela União Europeia.

Contudo, “eventualmente”, Portugal precisará de voltar à “consolidação orçamental” caso contrário a dívida pública “pode tornar-se insustentável”, uma vez que o “BCE não pode fazer quantitative easing [política monetária expansionista através da compra de dívida pública e taxas de juro muito baixas] para sempre”. O economista antecipou que não será este ano que a compra de ativos vai diminuir, mas em 2022 tal acontecerá “de forma gradual”.

“Mesmo com crescimento económico, o qual leva a um défice menor, será sempre necessária consolidação orçamental”, disse, concluindo que “se o país não o fizer, irá ter problemas“. O aviso é o mesmo para o resto dos países europeus mais endividados: “O legado e a sustentabilidade das dívidas altas será um problema de longo prazo que terá de ser resolvido mesmo que as atuais taxas de juro e spreads tornem as dívidas sustentáveis“, alertou.

Mesmo com a política monetária do BCE a todo o gás, o economista avisou ainda que poderá haver um “credit crunch” (“contração de crédito”, numa tradução livre) se houver um aumento significativo do crédito malparado (NPL). Roubini prevê que os próximos tempos sejam caracterizados por uma “aversão ao risco e uma desalavancagem das empresas e dos agregados familiares”, o que é agravado na Europa pelo “crescimento potencial baixo”, o qual só será resolvido com “reformas estruturais, tecnologia e inovação”. Nesse campeonato, a Europa está atrás dos EUA e da China, lembrou.

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