Banco Montepio quer transferir 1.000 milhões em ativos problemáticos para a mutualistapremium

Montepio está a preparar-se para transferir uma carteira de mil milhões de euros em crédito malparado e imóveis do balanço do banco para um veículo financeiro que será gerido pela mutualista.

Virgílio Lima, Carlos Tavares e Pedro LeitãoECO

O Banco Montepio e a Associação Mutualista Montepio Geral (AMMG) estão em discussões para transferir cerca de mil milhões de euros em crédito malparado e ativos imobiliários do banco para um veículo financeiro que será gerido pela mutualista, de acordo com informações recolhidas pelo ECO junto de várias fontes.

A instituição financeira liderada por Pedro Leitão está a ser pressionada pelo Banco de Portugal para encontrar uma solução estrutural para reduzir a elevada exposição a ativos problemáticos.

A resposta a esta pressão do regulador deverá passar pela desconsolidação de uma grande carteira de NPL (non performing loans) e de REO (real estate owned) do seu balanço, transferindo-a para uma sociedade-veículo gerida pela mutualista, a maior do país e que conta com mais de 600 mil associados. Desde o final do ano passado que este assunto tem vindo a ser debatido internamente.

A proposta está a ser discutida com o supervisor, com o banco (e a mutualista) na expectativa de que esta solução venha a ser viável e a permitir libertar capital necessário para o negócio de crédito. De acordo com uma das fontes, o Banco Montepio não vai ter qualquer unidade de participação neste veículo, ao contrário do que acontece com outros fundos de reestruturação detidos pela banca, como os fundos ECS ou Explorer. Isto implicará que a sociedade-veículo venha a ter de procurar financiamento externo a preços de mercado para comprar os ativos ao banco, acrescentou a mesma fonte.

Por outro lado, enquanto esta solução visa baixar o malparado do banco e libertar capital, os responsáveis do Montepio também acreditam que desta forma conseguem rentabilizar melhor estes ativos considerados tóxicos, ao invés de vendê-los apressadamente no mercado em grandes pacotes e em transações que poderiam resultar em perdas substanciais para o banco.

Contactado pelo ECO, o Banco Montepio recusou comentar a informação. "O banco preza as relações de confiança que estabelece e o direito à sua reserva institucional e entende por isso não comentar", disse fonte oficial. Já a AMMG confirmou que "os estudos relativos a este projeto prosseguem". "Caso venha a concluir-se pela sua viabilidade, o projeto terá que ser submetido aos supervisores e auditores, pelo que só depois destes procedimentos estaremos em condições de prestar informação pública", adiantou fonte oficial da mutualista.

A ideia de criar um veículo para albergar os ativos problemáticos do banco já tinha sido adiantada pelo próprio Montepio ao Jornal de Negócios em novembro passado.

Com esta operação “visa-se a saída destes ativos do Banco Montepio, a sua integração no veículo e a liderança do processo pela Associação Mutualista, com o envolvimento de investidores externos”, explicou fonte da mutualista na altura. A mesma fonte acrescentou ao jornal: "A incorporação do veículo no âmbito da Associação, em moldes a definir com exatidão no final do processo, procura que parte das mais-valias que estes ativos geram a quem os comprar possam ser apropriadas pelos associados da AMMG".

O malparado tem sido um dos grandes problemas da banca nacional que acumulou crédito em incumprimento e milhares de imóveis através da dação em pagamento depois da última crise e ameaça novamente a estabilidade do setor por causa do potencial impacto da pandemia de Covid-19.

Se bancos como a Caixa Geral de Depósitos, o Novo Banco e o BCP aceleraram a limpeza dos seus balanços nos últimos anos à boleia do bom momento da economia e estão hoje numa posição mais confortável para enfrentar o fim das moratórias, o Banco Montepio teve uma evolução insatisfatória na redução do malparado e continua a ter rácios elevados, uma situação tem levantado sérias preocupações junto do supervisor e também das agências de rating.

O Banco Montepio encerrou 2020 com um rácio NPE (non performing exposure) de 10,4% do crédito bruto. Ou seja, da carteira de crédito de 12,35 mil milhões de euros, quase 1,3 mil milhões de euros são ativos problemáticos. Os prejuízos no ano passado situaram-se na ordem dos 80 milhões de euros.

O ano de 2021 adivinha-se novamente desafiante para o banco, e não só por causa da pandemia e dos potenciais impactos que poderão surgir no setor após o fim das moratórias.

Pedro Leitão está a executar um plano de reestruturação que vai levar à saída até 900 trabalhadores nos próximos anos, e já obteve luz verde do Governo para promover até 400 saídas com direito a subsídio de desemprego. O ajustamento que é visto como crucial para o banco voltar aos lucros.

Mais imparidades à vista?

A AMMG é a maior mutualista do país e vai a eleições no final do ano, sendo que os potenciais candidatos vão já preparando terreno nos bastidores. As contas de 2020 ainda estão por revelar, mas poderão trazer uma surpresa negativa para os associados. Fonte oficial da mutualista informou que "assim que o quadro pandémico o permita, e que as autoridades de saúde autorizem", será convocada de imediato a assembleia geral de associados.

O Banco Montepio é o principal ativo da instituição, e estava contabilizado em cerca de 1.500 milhões de euros no balanço da mutualista em dezembro de 2019.

No ano passado, a administração liderada por Virgílio Lima travou longo um braço-de-ferro com a auditora PwC por causa da avaliação atribuída ao banco. Os auditores forçaram uma desvalorização do banco em quase 400 milhões de euros para fazer corresponder a avaliação do ativo no balanço da AMMG aos capitais próprios do banco. Virgílio Lima contestou os argumentos da PwC, mas, no final, aplicou a desvalorização, o que gerou nova imparidade com o banco.

Agora, por causa dos resultados do banco do ano passado, a mutualista pode voltar a ter de registar mais imparidades com o Banco Montepio. Os capitais próprios do banco desceram em cerca de 125 milhões de euros no ano passado, para 1.327 milhões de euros. Nessa medida, a PwC poderá exigir a Virgílio Lima uma nova revisão em baixa do valor do ativo nas contas da instituição mutualista.

Os auditores já tinham deixado reservas às contas do ano passado, citando, designadamente, as divergências em relação à avaliação atribuída ao banco (que continua a estar sobrevalorizado, na opinião dos auditores) e ainda em relação aos ativos por impostos diferidos, os chamados créditos fiscais.

Assine para ler este artigo

Aceda às notícias premium do ECO. Torne-se assinante.
A partir de
5€
Veja todos os planos