Injex já pode exportar os óculos de proteção que criou durante a pandemia

Impossibilitada de crescer, a Injex procura um novo local para instalar uma a sua a fábrica. Não se cinge a Famalicão. A procura abrange os concelhos limítrofes num raio de 20 a 25 quilómetros.

A apanhar sol no jardim, “muito chateado porque tinha a empresa parada”, surgiu-lhe a ideia de desenvolver uns óculos de proteção individual que permitissem usar, em simultâneo, óculos de leitura. Esta foi a forma como José Duarte Pinheiro de Lacerda, fundador e CEO da Injex, respondeu ao desafio lançado pelas autoridades nacionais para as empresas desenvolverem produtos para a emergência do Covid que não existiam.

Um ano depois, a empresa está pronta para começar a exportar este produto, 100% nacional, que recebeu, a semana passada, o certificado europeu. Este era o passo que faltava para atacar o mercado externo. As previsões apontam para a venda de 50 mil unidades em 2021.

Cada par de óculos custa 8,45 euros (mais IVA), mas o preço desce com encomendas de maior volume. São anti-risco, transparentes, não deformam a visão, têm hastes extensíveis, são personalizáveis e, acima de tudo, resultam do processo de desenvolvimento de “uma empresa de subcontratação que faz componentes que outros pensaram”, conta ao ECO Pinheiro de Lacerda. A comercialização e distribuição da marca Looksafety está a cargo da 4Valve, parceira desde o início do projeto.

Para trás ficaram as férias forçadas e 60 dias de lay-off, no início da pandemia. A empresa teve um crescimento homólogo de 7,7% do volume de negócios — este indicador passou de 1,3 milhões de euros em 2019, para 1,4 milhões no ano passado –, de acordo com o empresário, e já está a pensar em desenvolver novos produtos.

As atividades tradicionais – fabrico de componentes técnicos em plástico, destinados à incorporação em máquinas ou até símbolos das marcas automóveis — mantêm-se e são responsáveis pelos resultados alcançados. Mas, entretanto, foi criada uma unidade, a Injex Innovation que agora desenvolve novos produtos “numa base semanal”. “Esta sexta-feira recebemos uma amostra de um cliente italiano, a Lamborghini, que quer uma determinada pecinha. Fruto de contactos cruzados que se vão fazendo ao longo da vida, pediram-nos que estudássemos uma componente de que precisam. Esta segunda-feira a Injex Innovation vai começar a tratar do assunto”, explica o CEO.

“Estamos numa mudança de paradigma”, assegura. “Já somos, muito mais, uma empresa de desenvolvimento do que apenas de fabricação de componentes”, acrescenta o fundador da Injex. Uma transformação que tem sido feita também em parceria com várias universidades.

Para desenvolver estes óculos, que têm como público-alvo trabalhadores do setor da saúde e proteção civil, a empresa investiu 90 mil euros. Contou com uma comparticipação de 41.600 euros de fundos europeus, que corresponde a 80% do investimento elegível (52 mil euros), de acordo com o Norte 2020. Mas o empresário espera conseguir um apoio adicional de mais 15%, já que considera ter cumprido as condições predefinidas: o projeto ficar concluído dois meses a contar da data da notificação da decisão favorável da autoridade de gestão. Até agora já recebeu metade do incentivo inicialmente acordado.

Mas, Pinheiro de Lacerda lamenta a complexidade da candidatura e os prazos apertados: “Tivemos de mudar a nossa cabeça do produto para os formalismos da candidatura”. Acabaram por se atrasar no desenvolvimento do produto em si, que só chegou ao mercado este trimestre e não após o verão, como inicialmente tinham estimado.

Os óculos, “que se apresentaram como um desafio técnico e de design” e “uma forma de “acudir à pandemia de forma diferenciada e diferenciadora”, levaram à contratação de mais oito colaboradores. Não foram só os óculos, garante o fundador da Injex. A necessidade de dar resposta ao “volume de vendas muito bom”, seja na área automóvel e como na não automóvel, explica a equipa de 38 funcionários.

À procura de um terreno industrial de 7.000 metros quadrados

Mas não foi só a equipa que cresceu. A empresa está, “neste momento, a ampliar o espaço de fábrica” que tem, mas não chega. “À vista do que já temos é apenas um paliativo. Andamos à procura de uma localização completamente nova”, conta o responsável.

Impossibilitados de crescer no espaço que ocupam presentemente, a procura de um novo local para a fábrica não se cinge a Famalicão — abrange os concelhos limítrofes num raio de 20 a 25 quilómetros. Não pode ser mais longe, porque Pinheiro de Lacerda faz questão de manter a mesma equipa que o fez chegar até aqui.

Com cerca de dois a três milhões de euros na carteira para ir às compras, o industrial — que se orgulha de o ser, fruto do seu trabalho e não de heranças — admite que já bateu “a 20 portas”, mas ainda não encontrou a solução com cerca de sete mil metros quadrados de terreno industrial e perto de um eixo rodoviário. Uma característica importante para receber matérias-primas, despachar mercadorias e receber clientes. A ideia é fazer um primeiro edifício de área coberta de dois mil metros quadrados, quase dobro do que tem hoje. O espaço remanescente permitirá crescer à medida das necessidades.

“Agarrar nas trouxas e mudar, é uma necessidade latente há muito tempo, mas tem sido adiada. Agora, o passo terá de ser dado”, reconhece Pinheiro de Lacerda. Ficar em Famalicão é “a solução preferida”, mas não fecha a porta “a outras possibilidades, que existem”, garante. Esta semana está na agenda uma deslocação a Amarante. A meta é encontrar um “bom local a baixo preço”, sendo que o empresário já tem como adquiridos os apoios que as autarquias “oferecem” em termos de isenções fiscais e taxas de licenciamento.

Escassez de matérias-primas

Para já a empresa, que nasceu em 2003, enfrenta uma escassez de matérias-primas. Um problema que afeta todas as empresas do setor dos moldes que usam “matérias-primas sofisticadas”. “Todos os que trabalham nesta área, neste momento, são confrontados com a ausência de matérias-primas. A escassez de matérias-primas afeta-nos muito”, reconhece do presidente executivo da Injex.

“Oferecemos produtos bastante diferenciados na nossa área e utilizamos matérias-primas bastante específicas que vêm todas do mercado externo”, detalha. “Não existem, não chegam cá. Andamos todos aflitos, a tentar inventar soluções alternativas que nunca foram possíveis porque a indústria automóvel não aceita. Neste momento, está toda a gente em pânico”, perante a falta de polímeros, derivados de petróleo, utilizados pela indústria dos moldes, conta. “Não entendo como é que os produtos, que toda a vida existiram, agora, de um momento para o outro, deixaram de existir. A verdade é que a situação é generalizada”, desabafa.

A empresa, que se assume como sendo 4.0, já que tem a maior parte dos processos todos digitalizados, sobretudo no armazém, exporta diretamente 15% da sua produção e indiretamente 95%.

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