Da City para os Alpes: 5 desafios de Horta Osório no Credit Suisse

Gestor português começou este sábado a nova aventura no banco suíço, cuja reputação tem sido chamuscada por casos como da Greensill e da Archegos.

António Horta Osório já está habituado a desafios. Há dez anos, foi chamado pelo Governo britânico para salvar o Lloyds que, como o banqueiro português reconheceu, esteve perto de desaparecer. Este fim de semana marca o arranque das novas funções de chairman do Credit Suisse, em Zurique. Não terá funções executivas, essas pertencem a Thomas Gottstein, mas nem por isso o português deverá esperar um mandato tranquilo no banco suíço.

Colapso da Archegos

O Credit Suisse foi um dos bancos mais afetados pelo colapso da Archegos Capital Management, um family office americano gerido por Bill Hwang que foi à ruína num abrir e fechar de olhos devido a apostas alavancadas e arriscadas no mercado acionista. O banco suíço assumiu desde logo um impacto de 4,7 mil milhões de dólares. E avisou que o problema se refletirá nos resultados dos próximos trimestres e já avançou com medidas de contenção do problema: cortou dividendos em dois terços, voltou atrás com o plano de recompras de ações, foi ao mercado levantar dinheiro (1,5 mil milhões de euros) para reparar o balanço.

Mais do que um executivo do banco abandonou a instituição na sequência deste caso, isto enquanto a instituição se encontra a apurar as razões para mais um escândalo financeiro em que se envolveu em poucos meses.

Falência da Greensill

A queda da Archegos surgiu quando o Credit Suisse ainda estava a digerir os efeitos da falência da Greensill. A implosão deste grupo vai abrir uma frente legal que Horta Osório terá de enfrentar desde o primeiro dia. Já há ações contra o banco por parte de um grupo de lesados que compraram obrigações que financiaram as operações da Greensill.

Esta companhia financeira, com sede no Reino Unido e Austrália, que explorava o negócio de reserve factoring e factoring (antecipação de faturas às empresas) colapsou depois de seguradoras e outros bancos (incluindo o Credit Suisse) terem interrompido o seu apoio financeiro aos fundos que financiavam a sua atividade. De acordo com os responsáveis do banco suíço, as perdas com linhas de fundos operados juntamente com a Greensill poderiam atingir os três mil milhões de dólares – o que não é de um valor irrelevante tendo em conta que os lucros de 2020 foram de 2,9 mil milhões de dólares.

Restabelecer confiança

Os episódios da Archegos e da Greensill são os últimos de uma coleção de escândalos (Luckin Coffee, Wirecard, Softbank, por exemplo) envolvendo o banco suíço nos últimos anos e que expõem os problemas que enfrenta internamente. Os trabalhadores não estão contentes, os clientes e investidores também não. As ações do banco perderam quase 80% do seu valor na última década. Por outro lado, o Credit Suisse também está na mira do regulador suíço.

A reputação do Credit Suisse já teve melhores dias e casos como os que teve nos últimos dois meses poderão levar a retiradas de fundos, limitar a capacidade do banco de atrair novos clientes e talento. Um banco também funciona com rácios de confiança e Horta Osório vai ter de ajudar a repô-los.

Reestruturação à vista?

Os primeiros tempos de Horta Osório em Zurique deverão ser ocupados com dossiês quentes como da Archegos e Greensill. O gestor português vai querer perceber o que correu mal, reforçar as linhas de defesa do banco, fazer um exame crítico sobre o funcionamento da instituição e deixar orientações estratégias para o que deve ser o futuro e que deverá passar por uma reestruturação e a venda de negócios.

A unidade de gestão de ativos – que tem dado dores de cabeça ao banco – estará na linha da frente neste processo de alienação de operações. Outras divisões do Credit Suisse, como o mercado de capitais, também. No final do dia, o banco poderá encontrar a mais-valia dentro de fronteiras e abandonar operações que têm fora.

Por outro lado, se Thomas Gottstein for a próxima vítima dos escândalos recentes do banco, Horta Osório terá uma palavra a dizer no CEO seguinte.

Concorrência e tecnologia

No meio das mudanças que o Credit Suisse deverá promover, dois temas vão ganhar importância se quiser manter a sua relevância: a concorrência e a tecnologia. O banco suíço não terá os mesmos recursos que têm os grandes bancos americanos para investir pesadamente em inovação tecnológica. Dentro dessas limitações, a instituição terá de fazer escolhas: manter os negócios que tem, sem acrescentar valor, ou dedicar-se a menos áreas de negócio e a fornecer melhor serviço ao cliente.

Ainda há pouco tempo se falou numa fusão com outro gigante financeiro suíço, o UBS. Poderá ser outro caminho para o banco suíço manter-se em destaque.

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