BRANDS' TRABALHO A desigualdade de género no mundo do trabalho
Ana Luísa Antunes, Senior Consultant EY, People Advisory Services, fala da redução do gap entre géneros como um processo deliberado e contínuo ao longo do percurso das organizações.
Nos últimos anos, parecem ter-se aberto novas oportunidades de carreira para as mulheres, espelhadas não só no aumento da sua participação no mercado de trabalho, mas também na crescente diversidade de funções que desempenham.
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No entanto, é nos cargos de liderança que esta evolução tem vindo a revelar-se mais lenta. As mulheres continuam a estar sub-representadas nas posições de poder e este desequilíbrio reflete um problema sistémico na gestão do talento das organizações.
Por outro lado, em média, as mulheres auferem salários 14% mais baixos que os homens1, situação que se demonstra transversal a grupos etários e tipos de contrato distintos.
Estas assimetrias e preconceitos continuam a causar entraves no sucesso das mulheres ao longo das suas carreiras e a deturpar a forma como as organizações gerem as suas pessoas em todas as fases da jornada do colaborador.
"Características que geralmente são associadas a líderes, tais como o autoritarismo, a determinação e a objetividade são tipicamente ligadas ao sexo masculino. Quando as mulheres evidenciam este tipo de comportamentos, tendem a ser percecionadas como temperamentais, ou até como pessoas com quem é difícil de trabalhar.”
Para ultrapassar este impasse, as empresas precisam de identificar os padrões que as impedem de reconhecer integralmente o talento e a contribuição das mulheres e, posteriormente, usar esse conhecimento para fazer a mudança acontecer.
Ainda antes de uma empresa ter uma pool de candidatos para determinada vaga em aberto, pode já estar a inadvertidamente eliminar mulheres qualificadas para essa função. A forma como os anúncios de emprego são construídos é um dos motivos frequentes para este fenómeno, nomeadamente quando são descritos com características tradicionalmente associadas ao sexo masculino.
Assim que se inicia o processo de análise dos candidatos, o preconceito de género pode surgir de novo, começando pela forma como algumas empresas encaram as mulheres com filhos pequenos ou que se encontram na fase de vida normalmente associada à maternidade, mas também pelas diferenças nos standards sob os quais alguns gestores de equipa avaliam homens e mulheres, sobretudo perante funções tipicamente associadas ao sexo masculino. Nestas situações, as mulheres tendem a ser percecionadas como sendo menos capazes, independentemente do seu nível de qualificação.

Por outro lado, o processo de avaliação de desempenho, ainda que frequentemente sustentado por procedimentos formais, baseia-se sobretudo no julgamento dos avaliadores. Consequentemente, as suas perceções sobre o comportamento “correto” ou “expectável” das mulheres podem influenciar fortemente os resultados. Características que geralmente são associadas a líderes, tais como o autoritarismo, a determinação e a objetividade são tipicamente ligadas ao sexo masculino. Quando as mulheres evidenciam este tipo de comportamentos, tendem a ser percecionadas como temperamentais, ou até como pessoas com quem é difícil de trabalhar.
Adicionalmente, as práticas remuneratórias e de evolução na carreira são duas das áreas de especial preocupação. Para além de haver desigualdades salariais entre homens e mulheres, sobretudo em funções menos qualificadas, a maternidade (ou, aliás, a falta de normas e apoios de proteção da maternidade no trabalho) continua a constituir uma penalização para a progressão na carreira das mulheres. As áreas da prestação de cuidados à família e das responsabilidades domésticas em geral continuam, assim, a bloquear a igualdade no trabalho.
A redução do gap entre géneros deve ser um processo deliberado e contínuo ao longo do percurso das organizações. Indicadores como o turnover, as taxas de admissão, os níveis salariais e as progressões são essenciais, e todos os gestores devem procurar envolver-se neste caminho, refletindo e aprendendo sobre o tema, mas também promovendo os comportamentos corretos no seio das suas equipas. Mais do que através de políticas ou normas, a mudança é feita de e pelas pessoas. Implementar as ferramentas e os modelos certos pode ser crítico, mas sem líderes comprometidos em monitorizar os resultados e capazes de se mostrar responsáveis pelos mesmos, estas iniciativas irão ficar aquém das expectativas na luta contra a desigualdade de género no mundo do trabalho.
1Fonte: Dados do Instituto Nacional de Estatística (4º trimestre de 2020); Estudo “Salários e Discriminações Salariais das Mulheres”, do Gabinete de Estudos Sociais da CGTP-IN (15.02.2021)
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