Como é que as famílias encaram a “difícil” missão de ensinar os filhos a poupar?

No dia em que se comemora o "Dia Mundial da Criança", o ECO mostra as estratégias de duas famílias para ensinarem aos filhos o valor do dinheiro e a importância de poupar.

Na educação financeira das crianças e jovens é importante que os pais tentem, desde os primeiros anos, transmitir a importância do dinheiro e a sua gestão, para que, no futuro, se tornem pessoas financeiramente responsáveis. Na data em que se celebra o “Dia Mundial da Criança”, o ECO reuniu as estratégias a que recorrem duas famílias que levam esta missão bastante a sério.

Nyembetti Fernandes e Rui Pinto são pais de duas meninas — Margarida, de 11 anos, e Matilde, de nove. Sendo ambos bancários, as temáticas relacionadas com a poupança sempre estiveram nas suas mentes e, claro está, não podiam deixar de ter a preocupação de transmitir alguns ensinamentos às filhas.

“Digo-lhes sempre que ‘um dia elas podem não ter aquilo que nós hoje lhes conseguimos dar”, conta Nyembetti. Por essa razão, a família tenta passar a mensagem de que é importante “saber maximizar os recursos” e não “haver desperdício”. E, além do mais, de que o dinheiro não é “ilimitado” e é preciso saber tomar opções, como em tudo na vida. “Às vezes dou o exemplo: se gastarem 100 euros num pacote de Legos, deixam de poder comprar 10 calções de ginástica ou três pares de ténis”, refere a mãe.

A este propósito, Natália Nunes, responsável pelo Gabinete de Proteção Financeira da Deco, defende que os pais devem sempre ajudar os seus filhos a “diferenciar o necessário do supérfluo, o que são necessidades e o que são sonhos”, algo que pode começar a ser trabalhado a partir dos “quatro ou cinco anos” de idade. As questões relacionadas com a poupança e com a gestão do dinheiro podem, assim, começar a ser pensadas em contexto familiar a partir dessa altura.

Na casa da família Pinto, essa realidade é trabalhada de formas bem específicas. Até porque se a mais velha, a Margarida, “é muito gastadora”, a Matilde é “uma criança que, por si só, é poupada”. Aliás, apenas com sete anos de idade, a mais nova das irmãs pediu aos pais uma “barra de ouro” como prenda de Natal, dando como justificação o facto de querer “ser rica”. “E eu dei-lhe uma barra de ouro, pequenina e simbólica, porque acho que esta personalidade deve ser fomentada”, conta a mãe.

Nyembetti Fernandes, Rui Pinto e as filhas Margarida e Matilde.

Uma das estratégias a que os pais de Matilde e Margarida mais recorrem passa pela realização de certas tarefas em troco de uma compensação monetária. “Por exemplo, […] a Margarida dá aulas de piano ao pai para ganhar dinheiro” e, em casa dos avós, que são ambos “contabilistas”, elas “abrem as cartas” dos clientes e depois “contam” e “juntam as faturas de um mesmo contribuinte”, em troco de uma recompensa simbólica. E, “com o que lhes pagam, elas juntam esse dinheiro”, revela Nyembetti. Algo que também acontece quando as crianças cumprem certas tarefas domésticas de uma “lista” previamente definida. “Arrumam-me as compras, quando eu chego a casa, e eu dou-lhes uma moeda“, exemplifica a mãe, que justifica esta prática com o facto de as filhas precisarem de entender que o dinheiro “custa a ganhar e que não cai do céu”.

Para a especialista da Deco, trata-se de uma prática “aconselhada” para que as crianças e os jovens “aumentem os seus rendimentos” e trabalhem a “questão da gestão do dinheiro”. No entanto, Natália Nunes refere que essa recompensa não deve acontecer pelo mero cumprimento “daquilo que devem ser as suas próprias tarefas” no contexto familiar, mas sendo uma estratégia válida a aplicar em “tudo aquilo que seja adicional”.

Como nos explica a especialista, esta é uma boa forma das crianças e jovens angariarem um rendimento adicional à dita semanada e mesada — que é, de acordo com Natália Nunes, “uma excelente medida” a ter em conta. “A partir dos seis anos, é possível os pais começarem a dar uma semanada aos mais pequenos“, que é de “mais fácil gestão” do que uma mesada. E, nestes casos, deve-se estimular que os filhos guardem essas notas ou moedas num “mealheiro transparente”, para que possam ter uma ideia do “dinheiro em crescimento”.

Mais tarde, “a partir dos 10 ou 11 anos”, é tempo de se passar “para a mesada”, pois já sendo “mais velhos” e tendo “outras noções” no que toca às temáticas do dinheiro e da poupança, chega a altura “de lhes passar mais responsabilidade”, defende a especialista da Deco. A administração destes montantes deve também ser sempre “acompanhada” pelos pais, ajudando a criança a “tomar decisões” relativamente aos seus gastos e a ir ganhando algumas noções no que toca à poupança.

Este passo está também a começar a ser tido em consideração no seio da família Pinto. Neste momento, Matilde e Margarida não têm mesada nem semanada, mas isso é algo que pode estar para breve. No início, o processo deverá começar pela atribuição de uma “semanada” a cada uma delas, cuja gestão estará à sua responsabilidade, transitando depois para a mesada numa altura em que elas comecem a ter uma maior independência e “começarem a sair mais sozinhas”, destaca Nyembetti Fernandes.

A responsável pelo Gabinete de Proteção Financeira da Deco dá ainda um outro conselho: “é importante” que a mesada ou semanada seja dada, tanto a crianças como a jovens, “em moedas e notas”, e não por transferência bancária. Isto numa altura em que as transações são cada vez mais digitais e em que se tem um cada vez menor “contacto” com as formas físicas de transação. Esta é, assim, uma forma de fazer com que as crianças ganhem uma maior perceção do “dinheiro” e do “valor” que lhe está associado.

Este é também uma das dificuldades mais sentidas pela família Pinto. “Elas têm de ter dinheiro na mão para perceberem” que o dinheiro não é “ilimitado”, conta a mãe. Isto porque o “dinheiro que temos” é, hoje em dia, quase na sua totalidade “virtual”, sendo para as “miúdas” difícil compreender como tudo isto funciona de uma outra forma.

Ensinar a poupar – uma tarefa que “não é nada fácil”

À conversa com o ECO, a família Barroso revelou as práticas a que recorre para tentar motivar os filhos a poupar, algo que “não é nada fácil”, embora seja um “tema que surge com facilidade”, fruto dos próprios percursos profissionais dos pais. Iolanda e José Barroso, também eles bancários, enfrentam a difícil missão de fazer com que Constança, de 16 anos, e Inês e Manuel, ambos de 12, ganhem o gosto pela gestão ponderada do seu dinheiro.

Para isso, o pai fez uma proposta pouco usual aos seus filhos. Propôs-se a acrescentar, ele próprio, 10% a cada montante que cada um deles fosse capaz de poupar “ao longo do ano” para colocar na sua conta-poupança — algo que eles já têm “desde que nasceram” –, embora os filhos apenas pudessem ter acesso a esse valor assim que completassem 18 anos. Porém, a medida não foi tão bem recebida como esperado.

Inicialmente, os seus descendentes “acharam piada aos 10%, mas depois quando foram fazer contas, perceberam que 10% de 20 euros são apenas dois euros”, com José Barroso a relatar que, a partir daí, a adesão não foi a melhor. Mesmo sabendo que o “juro” que está a ser oferecido pelo pai “é uma brutalidade” no que toca a este rendimento.

Natália Nunes, da Deco, diz que se trata de uma prática que “não é muito habitual”, mas que “é boa”, pois promove uma “remuneração da poupança […] que é feita pelo próprio pai e que está livre de impostos”. Mas, para que seja bem aceite pelos filhos, é importante que esta seja “bem explicada”, de forma a entenderem que “dificilmente vão conseguir encontrar uma aplicação no mercado que lhes dê esse rendimento” através das suas poupanças. É, assim, um “bom exercício”, capaz de “demonstrar como a aplicação do dinheiro pode criar riqueza”.

A família Barroso tem assim esta preocupação de estimular os seus filhos a “não gastarem no dia a dia para poderem ter algo melhor” no futuro. Ou seja, tentam ensiná-los a não gastarem o seu dinheiro “em bugigangas”, para que possam depois ter dinheiro “para um projeto maior”. Algo que, para a especialista da Deco, é também imprescindível, pois é “fundamental” que os mais novas “tenham a perceção de que têm de tomar opções e o que é que essas opções representam para o seu dinheiro, para o seu saldo no final”.

O Monopólio foi também uma das ferramentas utilizadas por José Barroso para começar a familiarizar os filhos com os conceitos de gestão do dinheiro e do valor associado ao mesmo. “O Monopólio é um jogo muito interessante nesse sentido“, defende o pai, sendo capaz de ajudar as crianças a perceberem “o efeito do dinheiro” e os “custos” das ações quotidianas. Um jogo que tem, também, um significado especial para o próprio José, pois foi ele que o fez querer “ser bancário”, conta ao ECO.

Natália Nunes, da Deco, concorda com o uso desta estratégia, esclarecendo que se trata de “um dos jogos que pode ser utilizado por, de uma forma lúdica, explicar o que é que se tem de fazer para atingir determinados objetivos”, dando também certas noções importantes acerca da “gestão do dinheiro”. Porém, a especialista defende que tal também pode ser feito numa série de situações do nosso quotidiano.

“Se levarmos a criança às compras”, com “uma lista de compras” e definindo “previamente o valor a gastar”, é possível fazer um trabalho semelhante, alertando acerca dos “cuidados a ter”, da “necessidade de fazermos comparação de preços” e da existência de “promoções”. Mas também ensinando como fazer essa comparação de “preços” e o controlo do que “vamos colocando no carrinho, em termos de custo”, de forma a garantir que o “dinheiro que tínhamos previamente definido chega” para aquilo que queríamos efetivamente comprar.

Algo que também não é deixado ao acaso no seio da família Barroso. Por exemplo, no supermercado, as três crianças “não tiram nada sem olhar para os preços”. E, além do mais, sabem que a fatura deve vir sempre “com fatura de contribuinte”, por dar depois “um benefício fiscal no IRS”. “Eles próprios até já dizem os nossos números de contribuinte”, revela José.

Considerando que é também importante estarem cientes da realidade financeira que os rodeia, a família Barroso aposta em explicar a mesma aos seus filhos. José Barroso conta até como já recorreu a uma apresentação antiga que fez na turma da filha mais velha, Constança, quando ela tinha “oito ou nove anos”, a propósito da crise económica que assolou o país entre 2010 e 2013.

“A Constança ficou bastante interessada e percebeu efetivamente o que se estava a passar ao redor dela”, conta o pai, que mais tarde viria a passar esses ensinamentos à Inês e ao Manuel. “Já usei esse trabalho “para apresentar aos mais novos, para terem uma noção daquilo que se vai vivendo e que as crises são periódicas”, salienta.

Para Natália Nunes, da Deco, é muito importante que os pais, “em conjunto com a escola”, transmitam “competências de literacia financeira”, na medida em que a falta destas se apresentam como um dos principais fatores na base dos “problemas financeiros das famílias”. Portanto, tudo o que fomente a “educação financeira” dos mais jovens é uma prática a aplaudir, defende a especialista da Deco.

Para as crianças perceberem como funcionam, por sua vez, as próprias “dinâmicas dos bancos”, José Barroso revela ainda ter feito a experiência de levar os filhos ao balcão da instituição bancária para depositarem dinheiro nas suas próprias contas. “Para eles perceberem que não estavam a dar o dinheiro ao pai e que o pai tinha desaparecido com o dinheiro“, conta. Ideia esta que podia existir por causa da dimensão “virtual” do dinheiro, cada vez mais presente no nosso quotidiano.

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