Forte procura e juro 0% esperam por Bruxelas na primeira emissão de dívida para a “bazuca”

Operação que vai servir para financiar os planos de recuperação e resiliência chega esta terça-feira ao mercado. Após momentos de stress no mercado de dívida, acontece numa altura de confiança.

A Comissão Europeia vai pela primeira vez ao mercado para emitir dívida que vai servir para a “bazuca” europeia. O valor ainda não está fechado, mas uma procura robusta e acima da oferta é (quase) garantida devido à elevada liquidez no mercado e à segurança transmitida pela instituição. Neste cenário, a taxa de juro pedida pelos investidores por estas obrigações a 10 anos deverá ficar muito próxima de 0%.

“Não há qualquer razão para não ser uma operação bem-sucedida”, diz Filipe Garcia, economista e presidente da IMF – Informação de Mercados Financeiros sobre a emissão que vai chegar esta terça-feira ao mercado. A Comissão Europeia (CE) confirmou na segunda-feira que mandatou um grupo de bancos de investimento para recolherem junto dos investidores manifestações de interesse nestes títulos com os quais vai obter o financiamento necessário para os Planos de Recuperação e Resiliência, mas também o reforço de outros programas europeus.

Ainda não é conhecido o total a emitir, mas o ministro dos Negócios Estrangeiros de França, Clement Beaune, avançou, há duas semanas, que o montante indicativo seria de 10 mil milhões de euros. Este ano, Bruxelas pretende financiar-se em 80 mil milhões (o valor total das necessidades é 10 vezes superior) e, ao longo dos próximos cinco anos, irá financiar-se em 800 mil milhões de euros a preços correntes.

Esta emissão acontece depois de a União Europeia ter ido duas vezes ao mercado no ano passado para o programa a curto prazo de apoio ao emprego SURE, tendo conseguido juros negativos. “A emissão desta terça-feira vai ser alinhada com os juros da emissão sindicada realizada no ano passado”, considera Garcia, apontando, ainda assim, para taxas positivas, mas muito baixas. “Com o Banco Central Europeu (BCE) a desvalorizar como desvalorizou a inflação e a sinalizar até que pode aumentar a compra de dívida, não há razão para ser diferente”.

"A emissão desta terça-feira vai ser alinhada com os juros da emissão sindicada realizada no ano passado. Com o Banco Central Europeu (BCE) a desvalorizar como desvalorizou a inflação e a sinalizar até que pode aumentar a compra de dívida, não há razão para ser diferente.”

Filipe Garcia

Economista e presidente da IMF - Informação de Mercados Financeiros

Tanto Garcia como Filipe Silva, diretor de investimentos do Banco Carregosa, apontam para um spread de apenas um ponto base acima a da taxa de mid swap do euro a 10 anos, que se situa em 0,08%, ou seja, para um juro próximo de 0,09%. E concordam que a principal razão para os baixos custos será a pressão que da elevada liquidez no mercado e da confiança que o BCE irá manter-se como grande comprador de dívida.

Na última reunião do BCE, na semana passada, a presidente Christine Lagarde disse estar um pouco “mais otimista” em relação às perspetivas económicas, mas não o suficiente para recuar nos estímulos monetários. Garantiu que a abordagem política é de “mão firme”, apesar de ter havido algum “debate” no conselho de governadores em torno do ritmo de aquisições.

Investidores e analistas esperam com atenção as declarações da francesa devido à aceleração da inflação, cuja taxa anual se situou em 2% em maio na Zona Euro, contra 1,6% em abril e 0,1% em maio de 2020. Impulsionadas por um aumento anual de 13,1% nos preços da energia, as estimativas provisórias sugerem que os preços atingiram a meta do BCE. Mas Lagarde desvalorizou a situação que considera provisória, dizendo que estamos “longe” do objetivo final do banco central.

“Os dois principais riscos eram que houvesse uma inflação descontrolada — não é subir e estagnar, mas disparar de forma contínua, o que não me parece que seja o caso — ou que houvesse uma retirada de estímulos por parte dos bancos centrais, que também não espero que acontece”, diz diretor de investimentos do Carregosa. Sublinhou que “o BCE está a dar tempo aos países para recuperarem da pandemia“.

"Os dois principais riscos eram que houvesse uma inflação descontrolada — não é subir e estagnar, mas disparar de forma contínua, o que não me parece que seja o caso — ou que houvesse uma retirada de estímulos por parte dos bancos centrais, que também não espero que acontece.”

Filipe Silva

Diretor de investimentos do Banco Carregosa

A concretizar-se o juro próximo mas acima de 0%, este será superior ao das Bunds alemãs com a mesma maturidade, que negoceiam com um juro negativo de 0,3%. “O garante é a União Europeia, mas além da Alemanha, há outros países. Por isso é que não se pode olhar só para um país”, explica Silva, considerando que poderá haver um ajustamento no mercado secundário.

Cinco meses depois de concluída a ratificação da decisão dos recursos próprios por parte dos 27 Estados-membros da União Europeia, avança assim a primeira emissão de dívida em nome da UE para financiar o Próxima Geração UE. Após esta primeira transação, a Comissão realizará uma segunda em junho e uma terceira em julho.

Só depois disso é que o dinheiro irá começar a chegar aos países. “Estou confiante que as primeiras verbas poderão começar a chegar aos Estados-membros algures em agosto”, declarou esta segunda-feira o comissário europeu para o Orçamento e Administração, Johannes Hahn. Enquanto esperam pelo financiamento, os países vão trabalhando nos projetos para os próximos anos.

Espera-se que a Comissão Europeia aprove esta semana os primeiros planos de recuperação. Na quarta-feira, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, desloca-se a Lisboa para anunciar formalmente a aprovação do PRR português, ainda sujeito a aprovação pelo colégio, numa viagem que abrange também países como Espanha e depois Grécia, Dinamarca e Luxemburgo. Após a aprovação de Bruxelas, o Conselho tem mais quatro semanas para aprovar os PRR por maioria qualificada.

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