Governo aperta cerco à zona de Lisboa, mas especialistas queriam regras mais duras

Os especialistas pedem medidas "duras" para a região de Lisboa, mas descartam que a aposta principal passe por um reforço da vacinação, apesar de esta ser a região mais atrasada na vacinação completa.

O cenário vivido no verão passado volta a repetir-se. O número de infeções por Covid-19 na região de Lisboa e Vale do Tejo (LVT) está a disparar e a tendência é para crescer. A capital já ultrapassou os 240 casos por 100 mil habitantes a 14 dias, o que levou o Governo a adotar medidas mais “apertadas” na Área Metropolitana de Lisboa aos fins de semanas. Ao ECO, os especialistas pedem medidas “duras”, mas descartam que a aposta principal passe por um reforço da vacinação nesta região, apesar de LVT ser a região mais atrasada do país ao nível da vacinação completa.

“A vacinação protege contra óbitos, internamentos/doença severa e, em alguns casos, protege também contra doença sintomática”, começa por explicar Bernardo Gomes. Contudo, o também médico de Saúde Pública aponta que quando o “propósito” é “proteger terceiros a partir do momento em que alguém está vacinado” devemos ter em conta que as pessoas demoram “duas a três semanas” a desenvolverem anticorpos contra a doença.

Assim, se o objetivo é ter o “controlo imediato” da pandemia na região de Lisboa e Vale do Tejo, a vacinação “não vai adiantar”. “A vacinação é urgente, mas é urgente em todo o território para uma resposta coesa”, afirma o especialista, em declarações ao ECO.

Em Portugal, há já mais de 4,3 milhões de portugueses vacinados com uma dose da vacina (o que representa 42% da população), dos quais mais de 2,5 milhões de cidadãos já completaram o processo de vacinação (25% da população), de acordo com o último relatório semanal divulgado pela DGS. Contudo, em termos regionais, a região LVT é a mais atrasada ao nível da vacinação completa: só 20% da população têm as duas doses da vacina. Importa, no entanto, sublinhar que no que concerne a quem tomou apenas a primeira dose, 41% da população em Lisboa e Vale do Tejo já o fez, valor superior ao Algarve (38%) e aos Açores (40%), igual à Madeira e ao Norte (41%) e apenas inferior ao Centro (48%) e Alentejo (50%).

Por forma a colmatar este atraso e para atingir as 65 mil doses administradas por semana, os centros de vacinação da cidade de Lisboa vão ter horário alargado a partir da próxima segunda-feira, anunciou a Câmara Municipal de Lisboa, em comunicado. Assim, na próxima semana, o alargamento será de apenas uma hora (de 9 para 10 horas diárias), mas, a partir da primeira semana de julho, os centros vão funcionar 14 horas por dia: das 8h00 às 22h00, incluindo sábados e domingos. “. Esta medida significa um potencial de mais 15 mil doses ministradas por semana”, sinaliza a autarquia liderada por Fernando Medina.

Se, por um lado, Bernardo Gomes é taxativo ao referir que o reforço da vacinação em Lisboa e Vale do Tejo não deve ser “a principal aposta” neste momento, já que não permite o controlo imediato da pandemia e que “tem que se aproveitar o máximo da capacidade logística em todo o país”, Carlos Robalo Cordeiro é mais cauteloso.

Para o diretor do serviço de Pneumologia dos Hospitais da Unidade de Coimbra e ex-presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, o reforço da vacinação nesta região é “uma das formas que podem ajudar a minimizar o impacto daquilo que está a surgir como uma quarta vaga” em Lisboa, mas não a única. Nesse sentido, Robalo Cordeiro defende que este reforço poderia ser feito através do alargamento do auto-agendamento “a todos os adultos”, e não apenas aos maiores de 40 anos como está a acontecer, já que “neste momento, 60% das novas infeções são em menores de 40 anos”.

Assim, para o pneumologista “faz todo o sentido” um reforço da vacinação na população mais jovem, contudo deve manter-se “a coesão na vacinação” não deixando para trás outras regiões do país. “Não devemos parar ou diminuir [o ritmo de vacinação] noutras regiões para aumentar na região de Lisboa. Uma coisa é tentar reforçar a vacinação nesta região na perspetiva de abertura de outros escalões etários, outra coisa é desfavorecer outras regiões. Isso não me parece útil nem justo”, afirma Robalo Cordeiro.

Especialistas pedem aumento da testagem, fiscalização do teletralho e restrição de horários

Apesar da elevada incidência de casos de infeção no concelho de Lisboa estar a preocupar as autoridades de saúde nacionais, ainda foi esta semana que o Governo decidiu recuar no desconfinamento — situação que só deverá acontecer na próxima semana. Ainda assim, o Executivo apertou “o cerco” nesta zona, ao proibir a circulação de pessoas de e para a Área Metropolitana de Lisboa aos fins de semana, anunciou esta quinta-feira a ministra do Estado e da Presidência. Estas medida aplica-se a partir das 15h desta sexta-feira e diz “respeito à Área Metropolitana de Lisboa como um todo e não à circulação entre concelhos”, assinalou a Mariana Vieira da Silva. Além disso, Sesimbra registou, pela segunda vez consecutiva 240 a 480 casos por 100 mil habitantes, pelo que a restauração e os estabelecimentos comerciais vão encerrar às 15h30 durante os fim de semana.

Não obstante, para o controlo da situação epidemiológica nesta região, os especialistas pedem medidas mais duras como um reforço da testagem, bem como uma melhoria da comunicação. Nesse sentido, e após o mês de maio ter sido marcado por um “um fenómeno” de “relaxamento adicional por parte de atores políticos” no que concerne à situação de Lisboa, Bernardo Gomes destaca que o Governo deve agora “assumir uma comunicação de risco congruente” com a situação nesta região e especialmente “direcionada para os mais jovens”.

Além disso, o especialista em Saúde Pública considera que deve haver um retrocesso das medidas aplicadas nesta região, dando como exemplo uma “maior fiscalização ao teletrabalho” e “uma aposta muito forte” para que as pessoas passem mais tempo ao ar livre em vez de estarem, ao invés de espaços fechados. “Tem que haver máquina logística no terreno para a fiscalização dos espaços fechados e destas agregações”, diz Bernardo Gomes, sobre os eventos ilegais que têm juntado vários jovens.

Também Robalo Cordeiro é a favor de um retrocesso imediato das medidas, referindo que “o que se está a passar em Lisboa vai ter repercussão em muito breve prazo em todo o país”. Por isso, diz que é “determinante” que se possam promover “medidas de contenção com urgência”, promover a adoção do teletrabalho, o que vai diminuir a pressão nos transportes públicos”, bem como restringir novamente os horários de algumas atividades, como a restauração e o comércio. “Esta pandemia já nos ensinou que devemos jogar em antecipação para prevenir estragos maiores“, sinaliza.

Por fim, o pneumologista defende que é “fundamental” aumentar o nível de testagem, assinalando que o certificado digital Covid poderá também ser “importante para atrair as pessoas e promover a adesão a estes processos, quer de vacinação, quer de testagem”. Nesse sentido, Robalo Cordeiro sugere que este documento passe também a ser utilizado “para a circulação interna do país”, por exemplo para permitir a entrada em certos eventos ou “em determinados espaços”. “Isso seria uma forma de promover o reforço da vacinação e da testagem e, concretamente, na região de Lisboa isso é muito importante”, conclui.

 

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