“Hipótese de um IPO da Sonae MC poderá ser explorada no futuro”, diz CFO da Sonae

Encaixe da venda de 25% da dona do Continente à CVC será usado para novos investimentos. "Seremos muito rigorosos na identificação de oportunidades e não temos pressa", garante João Dolores.

Não foi no IPO em 2018, devido às condições no mercado bolsista, foi agora. No primeiro dia de agosto, a Sonae anunciou o acordo para a venda de 24,99% da Sonae MC à CVC Capital Partners por 528 milhões de euros, acrescidos de um pagamento contingente diferido de até 63 milhões, num negócio que vinha a ser preparado nos últimos dois meses. Mas porquê agora e com que objetivo? E o que ganha em troca o gigante europeu do private equity?

“Através da entrada de um investidor estratégico como a CVC, atingimos muitos dos objetivos que tínhamos quando explorámos o IPO mas com condições mais atrativas para a Sonae, nomeadamente uma avaliação substancialmente superior e a possibilidade de contar com um acionista de referência que contribuirá com o seu know-how e experiência para o sucesso da empresa”, sublinha João Dolores, administrador financeiro (CFO) da Sonae, em resposta ao ECO.

A Sonae SGPS avançou a 4 de outubro de 2018 com um IPO de até 25% do capital, que avaliava a empresa entre 1,4 e 1,6 mil milhões, mas abandonou a operação no dia 11 perante a forte turbulência nos mercados. O mês terminaria como o pior para o índice S&P500 desde setembro de 2011. O negócio com a CVC avalia o retalho num intervalo entre 2,1 e 2,36 mil milhões. Ainda assim, João Dolores não afasta a venda de novas parcelas do capital em bolsa: “A hipótese IPO poderá ainda vir a ser explorada no futuro”. As ações da holding reagiram em alta na segunda-feira, mas acabaram por corrigir.

O “timing” e a avaliação foram elogiados pelos analistas. Quer a JB Capital Markets, quer o CaixaBank BPI assinalaram que o negócio avalia a Sonae MC acima do valor que era por eles atribuído. “Cristaliza parte do valor da unidade central da Sonae com uma avaliação atraente”, sublinha a primeira, acrescentando que “o momento não poderia ser melhor”, dado o impacto positivo da covid-19 no consumo de alimentos e o desempenho acima dos pares. A retalhista conseguiu um crescimento de 5,4% das receitas no primeiro trimestre e de 7,3% no EBITDA, em relação aos primeiros seis meses de 2020.

O que motivou o negócio?

O administrador financeiro da Sonae SGPS salienta que a “operação melhora a posição financeira do grupo”, isto é, permite encolher a dívida, que no final de junho era de 1,5 mil milhões. Mas esse não será o principal motivo, nem o destino final do dinheiro. A venda “permite que analisemos novas oportunidades de investimento com mais ambição e confiança”, explica.

"O que podemos assegurar é que seremos, como sempre, muito rigorosos e disciplinados na identificação e análise de oportunidades.”

João Dolores

CFO da Sonae SGPS

Nos tempos que correm ter 528 milhões parados em cash faz pouco ou nenhum sentido. Mas João Dolores não abre o jogo sobre os planos da Sonae: “É cedo para dizer exatamente onde iremos investir no futuro. O que podemos assegurar é que seremos, como sempre, muito rigorosos e disciplinados na identificação e análise de oportunidades e que não temos pressa. A Sonae tudo fará para se manter fiel ao historial de sucesso de criação de valor para os seus acionistas e restantes stakeholders“.

A Sonae fez uma conference call com analistas na segunda-feira para dar algumas explicações sobre o negócio. O analista financeiro António Seladas, da AS Independent Research, enviou uma nota aos clientes, onde dá conta do que foi dito e assinala que a empresa disse não ter planos para usar o encaixe em dividendos extra ou programas de compra de ações.

O reforço na Nos, onde a Sonae SGPS tem, direta e indiretamente, cerca de 33% do capital, é um cenário admitido por António Seladas. Recorde-se que a maior fatia (52,15%) é detida a meias com Isabel dos Santos, que tem as ações arrestadas. As ações dispersas no mercado (free-float) equivalem a cerca de 40%. No entanto, na conference call, o CFO afirmou que a empresa está “satisfeita” com as participações atuais na Sonae Sierra e na Nos.

Dividendo atrativo para a CVC

Para a CVC, o investimento permite ganhar exposição a uma retalhista que gera “cash flows” elevados e paga este ano 140 milhões em dividendos relativos aos resultados de 2020, o que tendo em conta a avaliação implícita no negócio com a Sonae equivale a uma rentabilidade de 6,6%. Uma yield difícil de encontrar no atual contexto de taxas de juro.

Na conference call, João Dolores referiu que existe uma política de dividendos definida para a Sonae MC, mas não adianta qual. “Não podemos comentar os termos do acordo efetuado entre as partes, que, compreensivelmente, é confidencial. O que poderemos afirmar é que a CVC terá os direitos habituais de um acionista minoritário com uma participação desta magnitude”, responde ao ECO.

"Não esperamos que esta transação represente qualquer constrangimento ou limitação à flexibilidade financeira da Sonae MC.”

João Dolores

CFO da Sonae SGPS

O CFO garante, no entanto, que a remuneração aos acionistas não irá criar entraves aos planos de investimento da dona do Continente. “Relativamente aos dividendos, não esperamos que esta transação represente qualquer constrangimento ou limitação à flexibilidade financeira da Sonae MC.”

Tal como a CVC espera valorizar a sua participação, João Dolores também acredita que “a experiência significativa que o novo parceiro tem nos mercados de retalho internacionais e a forma disciplinada como perspetiva a criação de valor a longo prazo podem traduzir-se em novas ideias que podem ser exploradas pela Sonae MC, contribuindo para o sucesso da empresa no futuro. A estratégia da empresa não irá mudar, mas a forma de a executar pode beneficiar muito do desafio e contributos do nosso novo parceiro.”

Aos analistas, o CFO admitiu a possibilidade de a CVC vir a desinvestir através de um IPO, mas acredita que a Sonae encontrou um parceiro de longo prazo para o retalho. A conclusão da operação está prevista ainda para o mês agosto, momento em que o private equity passará a ter representação no conselho de administração da Sonae MC.

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