Erros na campanha alemã fizeram a diferença. E Scholz errou menos

O ciclo eleitoral alemão é o mais imprevisível em quase 20 anos. A dias das eleições mais de 60% dos alemães diziam que nenhum candidato era “convincente” e que iam votar no “mal menor”.

Uma gargalhada pode ter desviado o candidato do partido de Angela Merkel da chancelaria em Berlim. Armin Laschet, em julho, aparecia tranquilo e bem posicionado nas sondagens face ao experiente ministro das Finanças do SPD, Olaf Scholz, e à popular líder dos Verdes, Annalena Baerbock, os outros protagonistas das legislativas deste domingo, 26 de setembro.

Mas vieram as cheias e a estratégia do democrata-cristão Laschet dizer pouco até ao fim da campanha, e ganhar como o candidato da continuidade do legado de Merkel, foi por água abaixo. Sob uma bateria de críticas pela gestão errática da tragédia no estado em que é presidente — Renânia do Norte-Vestefália –, foi ainda apanhado pelas câmaras, ao fundo, a rir durante um direto com o presidente alemão consternado com a perda de mais de 160 pessoas nas inundações.

Laschet, 60 anos, pediu várias vezes desculpas pelo deslize. Mas era tarde demais. O vídeo tornou-se viral nas redes sociais e coincidiu com o empalidecer dos democratas-cristãos (CDU) nas intenções de voto. De 29% nas sondagens passou para 22% na reta final da ida às urnas.

O social-democrata Scholz, que rapidamente apresentou um pacote financeiro de emergência para a reconstrução das zonas afetadas, descolou de 16% para 25 % e tornou-se mais ‘chancelarizável’ nas sondagens até à véspera das legislativas.

Esta não foi a primeira reviravolta na linha da frente das sondagens. Antes, entre abril e maio, os alemães tiveram umas semanas de encanto com Baerbock, ao ponto de os Verdes passarem para a frente da corrida, com mais de 25% nas intenções de voto, ultrapassando a CDU. Sem experiência governativa, Baerbock acabou por ceder ao elevado escrutínio de que foi alvo.

Um livro, da sua autoria, com partes plagiadas, um currículo maquilhado e um rendimento esquecido na declaração do Bundestag fizeram a líder dos Verdes perder credibilidade. Os Verdes recuaram para terceiro — 15% nas últimas sondagens. Mas nem por isso o partido deixa de ser uma peça chave na futura coligação em Berlim, tal como os liberais (FDP) de Christian Lindner.

Fonte: Politico.eu

O sobe e desce dos favoritos para ocupar o cargo de chanceler mostra um eleitorado volátil e indeciso perante a escolha do sucessor da mulher que esteve 16 anos à frente da quarta economia mundial. O ciclo eleitoral de 2021 é mesmo o mais imprevisível em quase 20 anos quando uma titubeante Merkel venceu, por pouco, o carismático social-democrata Gerhard Schröder, castigado pelas reformas da Agenda 2010 que aprovou.

A cerca de uma semana da ida às urnas, 82% dos inquiridos numa consulta do PolitBarometer, para a ZDF, dizia não saber quem iria vencer as eleições. Em outra sondagem do AllensbachInstitute, para o FrankfurterAllgemeineZeitung, 53% dos inquiridos respondia que iria votar no “mal menor” e 63% consideravam que nenhum dos candidatos principais era “convincente”.

Com um resultado incerto, tudo indica que seja preciso uma aliança de três partidos para assegurar a maioria parlamentar, uma solução que já não é vista desde os anos 50 em Berlim. “Os eleitores votam cada vez menos em programas políticos e mais em personalidades”, explica ao ECO, Friedrich Heinemann, do instituto ZEW, antes de acrescentar que “os erros de comunicação na campanha eleitoral podem fazer uma grande diferença. Scholz, simplesmente, cometeu o menor número de erros”.

Durante a campanha, o ministro das Finanças colou-se, o mais possível, à imagem de Merkel, não só imitando o seu gesto de mãos numa foto para a revista do Süddeutsche Zeitung, como adotando a mensagem “Er kann Kanzlerin” – “Ele pode ser a chanceler”, no feminino.

A menos de duas semanas das eleições, no entanto, o ministério de Scholz foi alvo de um raid policial e o ministro teve ir a uma audição, à porta fechada no Bundestag, explicar a sua responsabilidade nas falhas de regulação de casos financeiros mediáticos, entre os quais o colapso da Wirecard e a fraude CumEx. A agulha das intenções de voto voltou a mexer e a distância entre Scholz e Laschet encurtou para três pontos.

Continuidade ou rutura política?

A maioria dos partidos surge como potencial parceiro numa coligação. O único pária no leque partidário alemão é a extrema-direita do AfD (11,1% nas sondagens, menos que há quatro anos). Laschet recusa, igualmente, qualquer entendimento com o Die Linke, da extrema-esquerda.

Já Scholz, 63 anos, e também Baerbock, 40, não excluem trazer pela primeira vez o partido mais à esquerda — formado por ex-comunistas e dissidentes do SPD — para um futuro Governo, por mais ceticismo que cause a coligação ‘geringonça’. “Não acredito. A agenda do Die Linke é muito radical”, afirma ao ECO, Francisco Seixas da Costa, antigo secretário de Estado dos Assuntos Europeus e embaixador aposentado.

"Se existir uma maioria confortável da coligação SPD-Verdes-Die Linke é o que pode acontecer. O programa é similar nos impostos, no maior papel do governo, na regulação do mercado do trabalho, política climática, maiores transferências sociais.”

Friedrich Heinemann

Instituto ZEW

A coligação SPD-Verdes-Die Linke, considerada uma rutura política em relação às tradicionais alianças, é a menos popular de todas as combinações possíveis, de acordo com uma consulta popular do FG Wahlen, para a ZDF: 56% dos inquiridos consideram esta aliança “má” contra 27% que disseram ser “boa”. O cenário de uma ‘grande coligação’ é quase tão impopular: 55% dizem ser “má” e 30% “boa”.

Se a ‘geringonça’ era um cenário hipotético, ou apenas uma forma de convencer os liberais a negociar uma coligação com o SPD e os Verdes, está a ganhar terreno e a causar menos estranheza. “Se existir uma maioria confortável da coligação SPD-Verdes-Die Linke é o que pode acontecer. O programa é similar nos impostos, no maior papel do governo, na regulação do mercado do trabalho, política climática, maiores transferências sociais”, aponta Heinemann, que assinala ainda que o Die Linke já deu a entender que “não vai insistir nas posições anti-NATO”.

As prioridades e medidas dos partidos mais à esquerda têm, numa primeira leitura, muitos pontos em comum. Scholz defende o aumento do salário mínimo dos atuais 9,6 euros/hora para 12 euros em 2022, a subida do IRS para os rendimentos mais altos, um alívio fiscal para quem ganhe menos de 35 mil euros/ano e a construção de 400 mil casas por ano, cem mil delas sociais.

Em sintonia com estas medidas, os Verdes juntam ainda uma agenda verde ambiciosa: um programa de investimentos de 50 mil milhões de euros ao ano, para a transição climática, digital e social do país, para ter uma Alemanha neutra em carbono nos próximos 20 anos. O Die Linke assina por baixo destas prioridades e inclui mais despesas sociais, o aumento do imposto sobre heranças e uma taxa Tobin.

"Não vai haver mudanças significativas. O atual número dois é o provável chanceler, que faz parte da ala moderada do SPD. Será um governo mainstream confortável e de continuidade.”

Francisco Seixas da Costa

Embaixador aposentado e antigo Secretário de Estado dos Assuntos Europeus

Os liberais e conservadores estão no campo oposto. Não querem ouvir falar em subida de impostos, preferem reduzir a carga fiscal para as empresas e os rendimentos baixos e médios e defendem metas climáticas que, como diz Laschet, “mantenham empregos” no país. E insistem no regresso rápido às contas certas, ao défice zero e ao travão da dívida — que limita o défice estrutural do país, ajustado do ciclo, a 0,35% do PIB –, suspensos durante a pandemia.

As finanças públicas podem ser uma dor de cabeça para formar uma coligação semáforo. Se Scholz e Lindner aceitam alguma margem de manobra no défice zero, para permitir mais investimento verde, os liberais avisam que o travão da dívida é uma linha vermelha, até porque enviaria “um sinal fatal” para a União Europeia. “A maioria dos eleitores apoia o travão da dívida e está preocupada com o aumento da dívida, dos impostos e uma maior redistribuição europeia”, diz Heinemann.

A Europa olha para as eleições alemãs, mas na campanha ignora-se a Europa

O grau de flexibilidade do futuro Governo em relação às suas próprias contas é um barómetro para perceber o quão frugal vai continuar a ser a posição germânica no debate económico europeu.

Sobre as regras económicas e orçamentais da zona euro, congeladas durante a pandemia, Laschet, tal como Lindner, representam o status quo no regresso ao Pacto de Estabilidade e fim da mutualização da dívida europeia. Um Governo com CDU e FDP iria “acelerar o regresso à normalidade” na União Europeia, diz Paulo Sande, professor convidado da Universidade Católica.

Scholz está disposto a ceder na mutualização da dívida europeia, a abrir a porta a um debate sobre um fundo europeu de subsídio de desemprego, mas dificilmente aceitaria mexer no Pacto de Estabilidade. Pode até ter uma interpretação flexível do Pacto, como a que vingou no último ano, mas dificilmente um líder alemão pode transferir dinheiro dos contribuintes para projetos europeus, a menos que seja do interesse da Alemanha. Os Verdes, por seu lado, defendem regras europeias menos rígidas para o défice e dívida e maiores poderes orçamentais para a União Europeia.

“Os eurobonds não estarão em cima da mesa nos próximos quatro anos. A decisão sobre a renovação do NextGeneration EU e a emissão permanente de dívida da UE deve ser tomada em 2026/2027 e, portanto, será co-decidida pelo Governo alemão eleito em 2025”, desvaloriza Heinemann.

A maioria dos partidos alemães foi, no entanto, pouco clara sobre a sua posição, com a política europeia e externa a entrar apenas no último debate desta quinta, dia 23 de setembro, e a ficar diluída na troca de argumentos entre sete candidatos. Em termos estratégicos, pouco separa o SPD, CDU, Verdes e liberais nesta área: todos se definem como europeístas, comprometidos com o euro e a aliança transatlântica, com algumas variações.

"Sem a CDU, a presidente da Comissão Europeia perde o apoio, ainda que simbólico, do governo alemão.”

Paulo Sande

Professor convidado da Universidade Católica Portuguesa

Scholz, no último debate, disse que “entendia a irritação do Governo francês” com nova parceria estratégica entre os EUA, Reino e Austrália, conhecida como AUKUS e saiu em defesa de uma “Europa soberana e forte, que fale a uma só voz”. Os Verdes e os liberais criticaram o acordo de investimento entre a União Europeia e a China e defenderam menos dependência da Alemanha do gigante asiático.

O candidato da CDU reconheceu que o país precisa do “projeto económico” Nord Stream 2 — o gasoduto que une diretamente, através do mar báltico, a Alemanha e a Rússia — “porque se se pára outras formas de energia, necessitamos de gás”. Antes, num artigo de opinião, Laschet tinha avançado com outras ideias, entre as quais uma “união de segurança forte”, liderada pela parceria franco-alemã, uma política externa comum para as alterações climáticas e a evolução do Europol para um “FBI europeu”, com competências para combater o cibercrime. “Precisamos de uma união autoconfiante e independente lá fora e que tenha capacidade para agir internamente”, defendeu o candidato da CDU.

Em Bruxelas, há um acompanhamento atento das eleições alemãs e em particular do bloco conservador PPE, que pode perder um assento essencial à mesa do Conselho Europeu. “Sem a CDU, a presidente da Comissão Europeia perde o apoio, ainda que simbólico, do governo alemão”, lembra Paulo Sande.

Ursula von der Leyen, então ministra da Defesa alemã, foi conduzida para a liderança da instituição comunitária pela chanceler Merkel em 2019, atropelando o candidato do partido europeu mais votado nas eleições para o Parlamento Europeu nesse ano. No discurso do Estado da União, há pouco mais de uma semana, von der Leyen foi por exemplo vaga sobre o debate das regras do euro e nem tocou na subida dos preços da energia, dois temas que aguardam por uma maior definição em Berlim.

“Tivemos uma coincidência de ter Von der Leyen saída de um Governo da CDU. Isso foi vital para a Europa no ano 2020” durante a pandemia, concorda Seixas da Costa, que acredita ainda assim que os alemães “são pragmáticos” e “não vai haver mudanças significativas. O atual número dois é o provável chanceler, que faz parte da ala moderada do SPD. Será um Governo mainstream confortável e de continuidade”.

O embaixador prefere assinalar o “vazio” pós-26 de setembro e “uma Europa mais ou menos parada”, primeiro pelas negociações de uma coligação alemã, que podem arrastar-se durante meses, e depois pelo novo processo eleitoral em França, com as presidenciais marcadas para abril de 2022.

“Se o SPD formar Governo com o FDP e Verdes não teremos grandes mudanças, mas deixaremos de ter uma referência da política europeia e mundial”, acrescenta Paulo Sande. Merkel, que um dia chegou a ser considerada a líder do mundo livre na era de Donald Trump na Casa Branca, sai de cena nos próximos meses. Os alemães não encontraram, durante a campanha, um sucessor claro à altura da mulher que os governa desde 2005. Scholz é uma cara familiar, e tal como Laschet, representa a continuidade. As intenções de voto estão demasiado próximas para apontar um vencedor mas, com menos deslizes e poucos sorrisos, o ministro das Finanças ganhou pontos durante a campanha.

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