Portugueses valorizam teletrabalho, mas não estão disponíveis para corte no salário

A flexibilidade tem cada vez mais peso na escolha do emprego, mas os trabalhadores portugueses não estão disponíveis para receber menos em troca da possibilidade de trabalharem a partir de casa.

Agora que já se consegue ver a luz ao fim deste túnel que tem sido a crise pandémica, o trabalho presencial está de volta. Nos Estados Unidos, os trabalhadores dizem, contudo, preferir sofrer um corte salarial ou mudar de emprego a regressar ao modelo antigo de trabalho. Já em Portugal, a flexibilidade e o teletrabalho são cada vez mais valorizados pelos trabalhadores, mas ainda não há a abertura americana para sofrer cortes remuneratórios em prol disso, garantem as quatro recrutadoras ouvidas pelo ECO.

Um estudo citado pela Bloomberg, no início do mês de agosto, indicava que 65% dos trabalhadores norte-americanos cujas funções eram passíveis de serem exercidas em teletrabalho diziam-se disponíveis para sofrer um corte salarial de 5% se tal significasse que poderiam continuar a trabalhar a partir de casa e não regressar ao trabalho presencial. Um outro inquérito destacado pelo mesmo meio de comunicação, em junho, referia que, dos mil trabalhadores ouvidos nos Estados Unidos, 39% estavam a ponderar demitir-se, se os empregadores não mostrassem flexibilidade em relação ao trabalho remoto. Essa fatia era ainda mais expressiva (49%) entre as gerações mais jovens (millenials e Geração Z).

Em Portugal, a pandemia também foi sinónimo de uma adesão sem precedentes ao teletrabalho, até porque, durante vários meses (incluindo os primeiros cinco de 2021), foi obrigatória, para todas as funções compatíveis e mesmo na ausência de um acordo nesse sentido entre empregadores e trabalhadores. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, entre abril e junho, 717 mil pessoas estiveram, assim, em teletrabalho em Portugal, isto é, 14,9% da população empregada do país.

Os largos meses passados em trabalho remoto levaram os portugueses, tal como os norte-americanos, a valorizarem, cada vez mais, este modelo mais flexível, mas enquanto os segundos estão agora disponíveis para perder benefícios em troca de continuarem a trabalhar a partir de casa, os lusos não estão.

Não percecionamos que essa seja uma realidade atual“, explica ao ECO Rui Teixeira, diretor-geral de operações do ManpowerGroup, quando questionado se os portugueses estão dispostos a ganhar menos em troca de continuarem em teletrabalho. “No contexto nacional, os salários não são suficientemente atrativos para que alguém troque um salário mais alto por um salário inferior pela ambição de ficar a trabalhar a partir de casa”, detalha o responsável.

Também a diretora de recursos humanos da Kelly Services entende que os trabalhadores portugueses ainda não estão a seguir o referido exemplo norte-americano. “Ainda não estamos nesse patamar. Nos Estados Unidos, o mercado de trabalho é diferente. Por cá, a maioria das pessoas não está disposta a perder salário. A discussão tem ido até no sentido oposto”, isto é, no sentido de se fixarem compensações para os teletrabalhadores, frisa a responsável.

A diretora da Michael Page Portugal, Sílvia Nunes, defende, contudo, que essa abertura por parte dos trabalhadores portugueses para sofrerem cortes salariais em troca da possibilidade de trabalharem a partir de casa poderá surgir, “se calhar”, quando o teletrabalho deixar de ser uma recomendação a nível nacional. Isto porque, desde junho, que a adoção do trabalho remoto deixou de ser obrigatória para a generalidade do país, mas o Executivo tem continuado a recomendá-la como medida para conter a propagação do vírus pandémico, o que tem levado muitos empregadores a adiar o regresso dos trabalhadores ao escritório.

Já Cláudia Machado, responsável pela área de executive search na Hays, frisa que, em Portugal, mais do que influência na negociação salarial, o teletrabalho tem conquistado relevância na escolha do novo emprego. “Em condições equivalentes de salário, notamos claramente uma preferência por modelos que ofereçam flexibilidade, como os modelos híbridos”, confirma, por sua vez, o diretor-geral de operações do ManpowerGroup.

As quatro recrutadoras ouvidas pelo ECO indicam, de resto, que, da parte dos empregadores, têm identificado, também, maior abertura para abraçar a flexibilidade, mesmo depois da crise pandémica. “Há uma abertura muito maior, até porque é uma questão muito solicitada pelos potenciais candidatos“, salienta a diretora da Michael Page Portugal.

O que pesa mais na escolha do novo emprego?

Se lá fora a flexibilidade do empregador parece ser, cada vez mais, um dos fatores determinantes na atração e retenção de talento, em Portugal continua a ser a remuneração aquele que tem maior peso nas escolhas dos trabalhadores. É isso que indica o estudo “What Workers Want” citado pelo responsável da ManpowerGroup ouvido pelo ECO.

Rui Teixeira reconhece, no entanto, que a referida flexibilidade, a par do controlo sobre os horários, tem conquistado relevo e é hoje o “segundo fator de atração mais importante para trabalhadores entre os 25 e os 44 anos”. Além disso, os portugueses “querem um emprego desafiante, a oportunidade de desenvolver as suas competências e potenciar as suas carreiras“. “A formação contínua é também cada vez mais valorizada”, pormenoriza o responsável.

Para Vanda Brito, da Kelly Services, a flexibilidade nomeadamente no que diz respeito ao teletrabalho é já hoje um “fator de escolha” (ainda não necessariamente determinante) entre as vagas à disposição dos trabalhadores. “Já entrou no leque de pontos que os candidatos avaliam quando escolham uma oportunidade”, diz. E explica que hoje a relação com o empregador e os complementos oferecidos são dos pontos com mais peso na escolha de um emprego, tendo o salário “perdido terreno”.

“O que pesa mais é o projeto. As pessoas querem desafiar-se. A seguir, [importa] o salário e a flexibilidade de horários. Há cinco anos vinha primeiro o salário, depois o carro, a formação e, só a seguir, a flexibilidade. Hoje o carro é um benefício que tem caído em desuso“, atira Cláudia Machado, da Hays.

Também a diretora da Michael Page Portugal pinta um cenário semelhante: importa cada vez mais para os trabalhadores portugueses o “salário emocional“, isto é, aquilo que “aquela posição gera de valor acrescentado”, mas também o conjunto de benefícios associados à remuneração e, claro, a flexibilidade. A abertura para o teletrabalho “não é aquilo que mais pesa, mas tem maior peso do que antes da pandemia“, sublinha Sílvia Nunes, que antecipa que “dificilmente” será dado “um salto para trás” nessa matéria, mesmo quando a crise sanitária chegar ao fim.

Já Cláudia Machado, da Hays, frisa que o futuro do trabalho é dos modelos híbridos entre a prestação remota e presencial das funções. São os mais vantajosos para empresas e trabalhadores. São os mais equilibrados, remata.

A adoção do teletrabalho, ou de uma modalidade híbrida, depende de acordo escrito entre empregador e trabalhador, segundo o Código do Trabalho. No Parlamento, estão a ser discutidas várias propostas sobre esta matéria, no sentido de definir, por exemplo, que tipo de subsídio é devido aos teletrabalhadores, mas só em setembro esses diplomas serão votados. Entretanto, na Concertação Social, o Governo apresentou um pacote de alterações laborais, do qual consta a possibilidade de alargar o direito do teletrabalho aos pais de filhos com até oito anos, mas está claro se os empregadores poderão ou não opor-se. As confederações patronais já fizeram ouvir o seu descontentamento.

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