“Cocktail explosivo” pode esvaziar prateleiras no Natal

A escassez e a escalada dos preços das matérias-primas, dos chips e dos contentores marítimos, ameaçam provocar falhas no abastecimento de brinquedos ou artigos de eletrónica em Portugal.

A pouco mais de dois meses do Natal, a Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED) adverte que a subida dos custos das matérias-primas e a falta de componentes como os chips, aliada à crise dos contentores marítimos, “estão a provocar muitos constrangimentos para a importação de produtos de fora da Europa e que têm um peso significativo no retalho especializado”, sobretudo nesta altura do ano.

Em declarações ao ECO, o diretor-geral da APED fala num cocktail explosivo que pode vir a ter impacto” nas compras dos portugueses. Gonçalo Lobo Xavier garante que “os retalhistas estão todos a lutar para que não se venham a sentir” as falhas na produção e os atrasos na chegada das mercadorias aos portos nacionais, mas “há um risco latente de poder haver eventualmente falhas em algumas categorias de produtos”.

Não queremos, de maneira nenhuma, alarmar os consumidores, mas nalgumas categorias de produto, se houver uma grande procura, poderemos ter dificuldade em repor os stocks.

Gonçalo Lobo Xavier

Diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED)

Quais os segmentos em que o abastecimento pode estar comprometido? “Em várias áreas do retalho especializado, eventualmente nos equipamentos eletrónicos de consumo e nos brinquedos. São produtos que tendencialmente vêm de fora da Europa e que podem estar em risco. Não queremos, de maneira nenhuma, alarmar os consumidores, mas nalgumas categorias de produto, se houver uma grande procura, poderemos ter dificuldade em repor os stocks”, responde o porta-voz da APED.

Gonçalo Lobo Xavier insiste que esta conjuntura “está a provocar uma pressão muito grande no retalho”, com a associação que representa as maiores empresas do setor a pretender “sensibilizar, em primeiro lugar, os consumidores porque se, eventualmente, verificarem algumas falhas nos espaços, estas não devem ser imputadas aos retalhistas, mas antes ao facto de o canal de distribuição não estar a funcionar”.

Gonçalo Lobo Xavier, diretor-geral da APED.D.R.

Em segundo lugar, dirige-se às “autoridades públicas” para, de forma coordenada na Europa, olharem para estes problemas como “uma oportunidade para relançar a indústria europeia” e avançarem com soluções para “fazer baixar os custos dos contentores e pensarem em formas criativas de agilizar os processos de desalfandegamento e tudo o que possa perigar o bom funcionamento da cadeia”.

A longa (e cara) espera nos portos

Do lado da logística, os operadores confirmam ao ECO o cenário “completamente louco” que vive no setor portuário. Os armadores estão a impor preços que chegam a ser até dez vezes superiores aos que eram praticados antes da pandemia de Covid-19, sobretudo nas rotas da Ásia para a Europa, e há “muita mercadoria acumulada à espera de espaço em navios” e em risco de só chegar ao Velho Continente depois das festas natalícias.

Mário de Sousa, CEO da Portocargo, descreve que as fábricas estão a demorar mais tempo a produzir e a entregar os produtos e que se mantém o desequilíbrio na distribuição dos contentores pelo mundo, iniciado logo após o surgimento dos primeiros casos de coronavírus na China. “O que não estiver já embarcado, já não chega antes do Natal à Europa. (…) E além do preço de transporte elevado, é preciso perceber que, desde que a mercadoria está pronta, até que se arranje espaço para embarcar, o atraso está em cinco a seis semanas”, alerta.

"Além do preço de transporte elevado, é preciso perceber que, desde que a mercadoria está pronta, até que se arranje espaço para embarcar, o atraso está em cinco a seis semanas.”

Mário de Sousa

CEO da Portocargo

O frete de um contentor para o transporte de mercadorias da China para a Europa, que antes da pandemia custava 1.500 a 2.000 dólares, atualmente pode chegar perto de 20 mil dólares. Somando a duplicação do preço de algumas matérias-primas, como o ferro ou o cobre, Mário de Sousa calcula que a incorporação destes custos vai provocar “um agravamento brutal nos preços finais” nos artigos que foram adquiridos nos últimos quatro meses.

No caso do mercado português e, em particular, de algumas encomendas de bens de maior rotação que os lojistas faziam habitualmente para a época do Natal, o responsável máximo da empresa de transitários da Maia – trabalha com 137 países espalhados pelo mundo e viu o risco de crédito “aumentar brutamente” no último ano e meio –, relata que “houve produtos que nem sequer foram adquiridos porque produtos muito baratos não aguentam com um preço de transporte tão elevado”.

Mário de Sousa, CEO da Portocargo.D.R. 13 Outubro, 2021

Os portos que, em circunstâncias normais, movimentavam 30 contentores por pórtico numa hora, neste momento não conseguem ultrapassar os 15 devido aos congestionamentos. Esta diminuição “drástica” da produtividade, aliada à falta de equipamentos, está a fazer com que a rotação dos navios nestas rotas entre a Ásia e a Europa seja muito mais lenta – se antes demorava 80 dias, agora demora 120 –, baixando automaticamente a frequência e a disponibilidade do transporte marítimo.

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