Empresas apertam regras de segurança mas mantêm modelos de trabalho híbridos

Muitas empresas já em modelos híbridos estão a manter o mesmo regime nesta fase de recomendação do teletrabalho. Mas há quem já esteja a enviar as equipas para casa.

Uso de máscara, mesmo no posto de trabalho, ou o fim de reuniões presenciais são algumas das medidas que as empresas estão a adotar a partir desta segunda-feira respondendo à recomendação do governo para a adoção do teletrabalho para conter a progressão da Covid-19. Há quem já esteja a enviar para casa todos os trabalhadores que possam exercer funções à distância e quem questione o que vem a seguir ao teletrabalho obrigatório no arranque de janeiro. “Ficamos por aqui? Não devíamos já preparar medidas de apoio?”, atira Miguel Pina Martins, o CEO da Science4you.

Miguel Pina Martins sente estar a reviver o mesmo de há um ano e teme que a recomendação de teletrabalho seja o princípio de outras medidas mais gravosas. “Já vi isto acontecer há um ano. Começamos com medidas menos gravosas e depois vamos evoluindo para medidas mais gravosas. A partilha de sacrifícios não vai acontecer e, mais uma vez, os sacrificados são especialmente para os setores do retalho, restauração e hotelaria. As empresas estão numa situação muito complicada e não podemos continuar a dar machadadas nestes setores“, reage o empresário fundador da empresa de brinquedos e também presidente da Associação de Marcas de Retalho e Restauração (AMRR).

Com uma média de 150 trabalhadores, para a Science4You “não é o fim do mundo estar esses dias — 2 a 9 de janeiro — em teletrabalho obrigatório”. Até lá, a empresa, que já tem implementado “um dia de teletrabalho por semana”, deverá “manter esse regime”, abrangendo entre 60 a 80 colaboradores.

Se temos um problema agora, porque estamos a projetar a medida (do teletrabalho obrigatório) só para janeiro. Se estamos perante um problema porque não começa já.

Vasco Falcão

diretor-geral da Konica Minolta Portugal e Espanha

Desde o rebentar da pandemia que na Konica Minolta vigora um regime híbrido e “não tencionamos alterar este modelo“, afirma Vasco Falcão, diretor-geral da Konica Minolta Portugal e Espanha. “Os nossos trabalhadores usam máscara no escritório, evitamos reuniões com muita gente, sempre numa lógica de preservar a saúde dos colaboradores. Do ponto de vista da empresa, está mais que definido que o modelo é híbrido e temos que ser flexíveis em relação a isso”, descreve. Cerca de 250 colaboradores estão nessa modalidade.

Mas para Vasco Falcão as medidas anunciadas pelo Governo para a contenção da pandemia não satisfazem. “Se temos um problema agora, porque estamos a projetar a medida (do teletrabalho obrigatório) só para janeiro. Se estamos perante um problema porque não começa já?”, questiona o gestor. “Se temos um problema de saúde pública, não estou preocupado com o efeito que isso tenha na economia, estou mais preocupado com o efeito nas pessoas. A medida after effects não faz sentido”, reforça. “Se, neste momento, existe um risco devemos dizer às pessoas para não correr esse risco. Não é estar a corrigir o mal depois. As decisões em relação à gestão pandémica são sempre mal explicadas. Nunca consigo entender as medidas“, lamenta.

No Ikea a ordem é ir para casa já esta semana. “Desde o início da pandemia, a Ikea tem seguido as orientações do Governo e das autoridades competentes com o objetivo de garantir a segurança de todos. Assim, e depois das novas recomendações divulgadas, os colaboradores cujas funções o permitam, irão voltar ao regime de teletrabalho já a partir desta semana”, adianta fonte oficial da cadeia.

“A Galp vai manter os protocolos em curso privilegiando o modelo de trabalho híbrido”, garante fonte oficial da companhia de energia. Mas com um “reforço de medidas” nas instalações já a partir de hoje. A “recomendação uso de máscara sempre que o colaborador se encontrar dentro das instalações“, o “distanciamento físico de 1,5 metros” e “ausência de reuniões presenciais” privilegiando-se as “reuniões por telefone, Teams ou videoconferência) são indicações que a companhia já fez chegar aos colaboradores. Com centros médicos nas instalações, a empresa dá ainda a possibilidade, a pedido do colaborador, de realizar a testagem rápida.

“A EDP está a avaliar internamente o regime de trabalho a adotar face às medidas anunciadas na passada 5ª feira”, diz fonte oficial da companhia.

A dona do Meo irá aplicar o regime de teletrabalho sempre que possível. “A Altice Portugal encontra-se em contacto permanente com a Direção Geral de Saúde, acompanhando as orientações e recomendações das entidades competente e aplicando o regime de teletrabalho, sempre que este seja compatível com a atividade desempenhada dos seus colaboradores”, adianta fonte oficial da operadora. “A empresa manterá o seu Plano de Contingência de forma a dar prioridade na defesa e proteção da empresa e dos seus colaboradores.”

Com “um número considerável de colaboradores em teletrabalho” — que deverá “manter no início do próximo ano” — a Bosch Portugal vai “manter o teletrabalho até à implementação do regulamento que estamos a estudar, o que pensamos ser possível nos primeiros meses de 2022”, adianta Carlos Ribas, administrador e representante da Bosch em Portugal.

A companhia está a “estudar um possível regulamento que melhor satisfaça as necessidades da empresa e que pode passar por um modelo de trabalho híbrido e maioritariamente presencial”, mas até lá está “a aplicar o regime do teletrabalho em todas as áreas de escritório em que é possível fazê-lo”.

Já na área de produção, “temos gerido a presença dos nossos colaboradores de forma a garantir a segurança de todos, tal como já o vimos fazendo desde o início da pandemia.” O que se traduz em “nunca aligeirar as medidas de proteção e segurança dentro das nossas instalações”, refere o gestor. “Sempre mantivemos a obrigatoriedade do uso de máscara, o distanciamento cívico, meios de separação física nos escritórios, cantinas e outros, testagem frequente com testes antigénio e PCR dentro da empresa sempre que tal se justifique, entre muitas outras”, exemplifica.

Teletrabalho sem impacto

Trabalhadores em teletrabalho é uma realidade em muitas tecnológicas e a Microsoft não é exceção. A tecnológica tem, nos últimos meses, adotado um regime híbrido e flexível, privilegiando o trabalho remoto, mas permitindo aos colaboradores a ida ao escritório quando necessário. Mas sujeito a regras como marcação de lugar, utilização de máscara em espaços comuns e salas de reunião, com o reforço de medidas de desinfeção e implementação de políticas de distanciamento social.

E agora a ordem é para dar continuidade à mesma política. “A Microsoft mantém as medidas referidas para este período, fechando temporariamente o escritório entre 2 e 9 de janeiro de 2022, em cumprimento do determinado pelo Executivo, que impôs o teletrabalho na chamada ‘semana de contenção de contactos'”, refere fonte oficial da empresa. “Os colaboradores da Microsoft estão inteiramente capacitados para a execução das suas funções de forma remota e flexível, pelo que priorizamos o bem-estar e a segurança de todos, cumprindo cabalmente as recomendações do Governo”, assegura.

Para a ITCenter e os seus 120 colaboradores as medidas anunciadas pelo governo pouco alteram o dia-a-dia de trabalho. “Essa medida não tem grande impacto porque já temos uma política de home office e trabalhamos com uma política de flexibilização. Já estamos completamente adaptados. Todos os trabalhadores das áreas de IT estão a trabalhar três dias no escritório e dois em casa e tentamos articular sempre as equipas em espelho nos três dias em que estão presentes no escritório”, descreve Joana Rodrigues, responsável de recursos humanos da ITCenter.

“Trabalhamos muito bem neste formato e não influencia na produtividade dos colaboradores. É um regime que gostam, permite alguma flexibilidade e uma conjugação melhor com a vida pessoal e profissional. Queremos ter colaboradores felizes com esta flexibilidade”, explica Joana Rodrigues.

Produtividade que não deverá sofrer alterações com a determinação do teletrabalho obrigatório em janeiro. “A nossa atividade permite que todos nós sejamos autónomos, seja em casa, no escritório ou em outro ponto qualquer“, diz a responsável de RH. “Achamos esta obrigatoriedade e a recomendação de teletrabalho uma excelente iniciativa para que não aconteça este ano o que aconteceu o ano passado”, aponta, numa alusão à explosão de casos de infeção no pós Natal e Ano Novo de 2020 que arrastou o país para um segundo confinamento.

E na Barkyn as medidas também não alteram o modo de trabalho adotado desde a pandemia: o teletrabalho. Um formato que funcionou bem para a startup, garante André Jordão. “Claro que tivemos que implementar novos mecanismos de comunicação e de aproximação das 60 pessoas que compõem a equipa. Criámos reuniões semanais onde toda a empresa se junta num misto de convívio e partilha de novidades entre áreas; criámos coffee-breaks, pequenas mas importantes pausas ao longo da semana para fortalecer relações e laços; e melhoramos as regalias de ser colaborador Barkyn, como creche paga para o cão e acesso a um personal trainer digital”, diz o CEO e cofundador. “É um trabalho constante de tentar aproximar a comunicação em escritório e oferecer às pessoas qualidade de vida e flexibilidade.”

A nossa atividade permite que todos nós sejamos autónomos, seja em casa, no escritório ou em outro ponto qualquer. (…) Achamos esta obrigatoriedade e a recomendação de teletrabalho uma excelente iniciativa para que não aconteça este ano o que aconteceu o ano passado.

Joana Rodrigues

Responsável de recursos humanos da ITCenter

O teletrabalho é desde a entrada da pandemia na vida dos portugueses a realidade para os cerca de 500 trabalhadores da Zurich. “Face ao atual contexto pandémico, a Zurich considera que o teletrabalho se mantém uma das principais medidas de prevenção dos contágios por Covid-19, e nesse sentido iremos manter este modelo de trabalho“, afirma Nuno Oliveira, diretor de recursos humanos da Zurich Portugal.

em 2022, ultrapassado o período de contenção, “pretendemos que o regresso aos escritórios seja feito através da adoção de um modelo de trabalho híbrido, desenvolvido com o contributo dos nossos colaboradores, e que pressupõe a articulação entre trabalho remoto e a partir dos escritórios”, diz o diretor de RH da seguradora, com 19 escritórios espalhados pelo país.

“Estamos a transformar o nosso edifício da sede, em Lisboa, com o objetivo de o adaptar, justamente, ao modelo de trabalho híbrido, e de melhorar a experiência e bem-estar proporcionados às nossas pessoas, seguindo práticas avançadas de sustentabilidade, digitalização, mobilidade e diversidade e inclusão”, adianta.

Zonas colaborativas inter e intra-equipas, espaços sociais e de lazer, uma zona de cafetaria com esplanada exterior, uma sala polivalente para atividades desportivas e culturais, uma sala de amamentação e balneários são alguns dos novos espaços comuns.

(notícia atualizada dia 29 às 16h39 com informação relativa à EDP e Altice Portugal)

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